Falta de planejamento pode pesar no bolso

Vai viajar para o exterior? Comprar dólar de última hora pode sair 7% mais caro

Cálculo mostra que, se uma família precisasse de US$ 5 mil para viajar e tivesse dividido as compras desde o começo do ano, teria economizado R$ 1,5 mil

dólar turismo
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Se você vai viajar para o exterior neste fim de ano e ainda não comprou dólar, deve estar se perguntando por que deixou a decisão para a última hora. Isso porque a moeda americana vem estabelecendo patamares recordes em termos nominais (sem descontar a inflação) e sua cotação já superou os R$ 4,25, com apreciação de 9,8% em 2019, dos quais 6,3% apenas em novembro.

Se o dólar comercial já está valorizado, o chamado “dólar turismo”, que embute um spread que varia de acordo com a casa de câmbio, está ainda mais caro.

Uma conta feita pelo InfoMoney mostra que, se uma família precisasse comprar US$ 5 mil e tivesse dividido o valor em compras mensais desde o começo do ano, seguindo a recomendação de especialistas, poderia ter gasto 7% a menos do que se tivesse comprado tudo de uma vez, em novembro. Em termos financeiros, a economia representaria cerca de R$ 1.500.

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O cálculo, feito com base no histórico da casa de câmbio Ourominas, considera o valor de compra do dólar em todos os dias 26 de cada mês desde fevereiro, com aquisições mensais de US$ 500. No período, a cotação média da moeda americana correspondeu a R$ 4,17, com um spread (custo da Ourominas em relação à taxa oficial, do Banco Central) de 4,8%.

A má noticia para quem esperou demais e vai viajar no próximo mês é que o prazo ficou naturalmente muito apertado e, em meio à expectativa de que a moeda americana continue forte, evitar comprar o dólar em seu ápice será mais difícil. Para quem tem planos no exterior em janeiro, uma alternativa é comprar metade da quantia total necessária agora e a outra, em dezembro ou no início de 2020.

Sem bola de cristal

Dada a impossibilidade de acertar na mosca a melhor data para comprar a moeda americana, o indicado é que a pessoa se organize e planeje a viagem com antecedência, de preferência de um ano para o outro, fazendo um preço médio do dólar, por meio de aquisições periódicas. “Assim dá tempo de pesquisar, de conseguir melhores ofertas e não comprar por impulso”, afirma Annalisa Blanco Dal Zotto, planejadora financeira com certificação CFP.

Para quem tem prazos maiores, a partir de um ano, a planejadora financeira cita como opção os fundos cambiais, desde que a taxa de administração não supere 1% ao ano. “O produto é muito bom para fazer um custo médio da moeda e os fundos oferecem alta liquidez. É preciso, no entanto, ficar atento às taxas, que podem ser muito altas”, alerta.

Os fundos cambiais possuem pelo menos 80% do patrimônio investido em ativos relacionados a moedas, principalmente o dólar. Eles são muito utilizados por quem quer fazer hedge (proteção) da carteira de investimentos, já que o dólar costuma ter uma correlação negativa com o desempenho da Bolsa.

Para aqueles que pretendem usar os recursos para a compra da moeda física, os fundos cambiais são uma maneira de travar o valor. Se a cotação do dólar subir muito, como neste ano, o investidor terá um ganho com sua aplicação financeira, que poderá compensar a diferença do valor de compra da moeda à vista. Para entender mais sobre esse tipo de investimento acessível a partir de valores como R$ 500, confira o nosso guia completo, clicando aqui.

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Silvio Secanechia Paixão, planejador financeiro com certificação CFP, destaca a importância de prestar atenção a determinados eventos na hora de comprar dólar. “Virada de mês, final de ano e na semana anterior a feriados não são boas datas para se apostar contra o dólar. É muito provável que, nesses períodos, alguém dê uma puxada na taxa. Há um aumento de demanda e, com uma oferta mantida, a taxa de câmbio sobe”, afirma.

Comparação de taxas

Para conseguir as melhores cotações, os planejadores financeiros destacam a importância de comparar as diferentes ofertas e até “pechinchar”. Annalisa lembra que quantias maiores podem permitir melhores cotações, mas que o investimento pode ser mais arriscado, considerando que a taxa de câmbio varia muito e que não há bola de cristal para se prever o movimento da moeda.

Para encontrar as melhores alternativas, a recomendação é ligar para uma média de três empresas, entre corretoras de câmbio e bancos, considerando compras no mesmo dia.

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Outra opção é buscar agregadores que comparem as diferentes ofertas, como o site Melhor Câmbio, que avalia mais de 1,2 mil casas de câmbio em mais de 200 cidades do Brasil. “Nós comparamos o preço de todas as casas homologadas pelo Banco Central e temos um sistema de ofertas em que o usuário consegue informar a quantidade da moeda que deseja comprar e negociar. Com o aumento do valor, ele consegue barganhar a taxa”, diz Alexandre Monteiro, sócio da Melhor Câmbio.

O que é melhor: dólar no cartão ou em espécie?

De acordo com os especialistas consultados pelo InfoMoney, a melhor opção é levar dinheiro em espécie, de forma a economizar com os custos. Isso porque, enquanto na compra de papel moeda a incidência de IOF é de 1,1%, em operações de crédito e débito, o imposto aumenta para 6,38%.

Paixão lembra que a operadora também pode embutir outras tarifas e destaca que há custo de inatividade para quem optar pelo cartão de débito. “O ideal é que a pessoa pesquise bastante antes de comprar para entender as taxas que estão inclusas no custo”, afirma.

Uma das grandes vantagens de levar dinheiro físico, destaca Annalisa, está em uma melhor organização financeira, evitando que a viagem extrapole o orçamento. “Com dinheiro, você tem aquele valor para gastar. Você pode, por exemplo, fazer um envelope para compras, outro para alimentação, museus etc., determinando quanto pode gastar por dia. Se estourar no restaurante, pode procurar um museu gratuito, e assim vai”, aconselha.

Há de se atentar, contudo, à questão de segurança ao levar todo o dinheiro necessário para uma viagem em espécie. Por isso, nada impede uma opção mais equilibrada, com o uso de dinheiro e cartão caso o valor necessário seja elevado.

Dólar deve seguir fortalecido

Embora não seja possível prever a cotação máxima que o dólar poderá atingir, a expectativa da equipe econômica do governo é de que a moeda se mantenha em patamares elevados.

Na terça-feira (26), o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse, inclusive, que a valorização do dólar não o preocupa: “É bom se acostumar com juros mais baixos por um bom tempo e com o câmbio mais alto por um bom tempo”.

A fala serviu de gatilho para que o dólar renovasse mais uma vez a máxima histórica intradiária em termos nominais, aproximando-se dos R$ 4,28, o que levou o Banco Central a fazer duas intervenções, vendendo dólar à vista.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, sinalizou que a autarquia vai interferir sempre que necessário, mas não atuará de forma a reverter a tendência do câmbio, apenas reduzindo a volatilidade.

Além da Selic na mínima histórica, que atrai menos capital estrangeiro para o Brasil em busca de diferencial de juros, corroboram para uma apreciação do dólar ante o real um cenário ainda incerto em relação à guerra comercial entre EUA e China, turbulências em países da América Latina, uma demora na agenda de reformas pós-Previdência, bem como o fluxo menor do que o esperado de recursos estrangeiros no leilão da cessão onerosa.

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