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Imposto dedo-duro pode levar declaração do investidor para a malha fina; veja como

Na prática, o sistema não “delata” alguém de forma individualizada, mas cria um mecanismo robusto de vigilância fiscal

Maria Luiza Dourado

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Quem investe em Bolsa precisa ficar atento não só às oscilações do mercado, mas também ao que informa à Receita Federal na declaração de Imposto de Renda. Um dos principais instrumentos de monitoramento é o chamado “imposto dedo-duro” – que, embora não seja tecnicamente um tributo independente, funciona como um sinal de alerta para autuações, multas e até acusações de crime contra a ordem tributária.

O que é o “imposto dedo-duro”

O apelido “dedo-duro” está ligado à obrigação que as corretoras têm de informar à Receita todas as operações realizadas por seus clientes. Isso é feito por meio da Declaração de Informações sobre Atividades Financeiras (DIF), que alimenta os sistemas de cruzamento automático de dados com o que o contribuinte informa na sua Declaração de Imposto de Renda.

Na prática, o sistema não “delata” alguém de forma individualizada, mas cria um mecanismo robusto de vigilância fiscal, baseado em inconsistências entre o que o mercado reporta e o que o investidor declara. Essa estrutura está prevista na Instrução Normativa RFB nº 1.571/2015.

Além do envio de informações, há também a retenção automática de imposto na fonte. A alíquota é de:

Com essa retenção, a Receita é imediatamente informada de que houve ganho em nome daquele investidor, ainda que o valor seja pequeno.

Omissões na declaração do Imposto de Renda

Quem deixa de informar corretamente os ganhos pode cair na malha fina, ser autuado e sofrer penalidades financeiras. Se o imposto devido não tiver sido pago, o contribuinte pode ser cobrado com multa de 75% sobre o valor do tributo, acrescida de juros calculados pela taxa Selic.

Além do risco financeiro, há também o risco criminal. A omissão dolosa de rendimentos – ou seja, quando há intenção de esconder informações – pode ser enquadrada como crime contra a ordem tributária, sujeito a pena de dois a cinco anos de reclusão.

Do ponto de vista jurídico, qualquer tentativa deliberada de ocultar dados, fracionar artificialmente operações ou criar estruturas apenas para mascarar a realidade econômica pode ser interpretada como planejamento tributário abusivo ou fraude fiscal.

Isenção até R$ 20 mil e quando há retenção

Operações de venda de ações realizadas em um mesmo mês, cujo total de alienações não ultrapasse R$ 20 mil, são isentas de imposto de renda, desde que se trate de operações comuns (não day trade).

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Como a retenção na fonte é de 0,005% sobre o valor das vendas, esse percentual só alcança R$ 1 quando o total vendido no mês chega a R$ 20 mil. Esse é o limite mínimo para que haja retenção de imposto na fonte nesse tipo de operação.

O imposto retido nesse formato pode incidir sobre:

Leia mais: Bonificações em ações: como declarar e qual custo usar no ganho de capital?

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Dividir operações entre corretoras evita o radar da Receita?

Ainda que, em alguns casos, não haja retenção na fonte quando o imposto calculado for inferior a R$ 1, isso não dispensa o investidor de declarar. Mesmo que as operações sejam realizadas em diversas corretoras, é obrigatório consolidar os resultados mensais e recolher o imposto de renda devido, se houver.

A Receita Federal centraliza o monitoramento pelo CPF do investidor. Isso significa que, independentemente da quantidade de plataformas utilizadas, as informações são consolidadas em um único histórico. Tentar dispersar operações entre diferentes corretoras, com o único objetivo de escapar do controle, é ineficaz.

Além disso, a tentativa de fracionar ou pulverizar as operações com essa finalidade pode piorar a situação do contribuinte. A jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) é firme em desconsiderar estruturas artificiais e punir atos voltados a ocultar a realidade econômica das transações.

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Como declarar prejuízos e evitar problemas no futuro

Investidores que tiveram perdas têm direito de compensar esses prejuízos com lucros futuros, desde que cumpram os procedimentos exigidos pela Receita. O “dedo-duro” não elimina esse direito, mas exige consistência nas informações declaradas.

É essencial registrar os prejuízos na ficha de Renda Variável da DIRPF no exato mês em que ocorreram. Se o contribuinte deixar de informar a perda no período correto, pode perder o direito de compensá-la no futuro, já que a Receita exige um registro formal e tempestivo desses dados no sistema.

Outro ponto importante é entender que o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) não representa um custo extra definitivo para o investidor. Esse valor funciona como uma antecipação do imposto devido no mês: pode ser abatido do imposto apurado sobre os ganhos líquidos daquele período. Em outras palavras, a retenção apenas antecipa parte do que o contribuinte já teria a obrigação de pagar, e não cria uma nova cobrança.

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Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.