'Vencedor na crise'

Atacarejo cresce em meio à inflação e já domina 40% da venda de alimentos

Formato cresceu 10% em 2021, contra uma queda de 2,4% do varejo alimentar como um todo, segundo estudo da McKinsey

Por  Estadão Conteúdo -

Em um ambiente de inflação e de queda da renda, o atacarejo ganhou espaço entre os brasileiros. A busca pelos preços mais baixos garantiu uma alta de 10% ao formato em 2021, contra uma queda de 2,4% do varejo alimentar como um todo, segundo estudo da McKinsey, e com isso a fatia do atacarejo no varejo de alimentos saltou de 35% para 40% em um ano.

Hoje já são mais de 2 mil lojas do perfil no país, e a perspectiva é que o modelo ganhe ainda mais participação, chegando a 50% das vendas nos próximos anos. “Em meio à pressão inflacionária, o único formato que conseguiu ser resiliente foi o atacarejo”, afirma Roberto Tamaso, sócio da McKinsey. Segundo o especialista, o estudo deixa claro que não há perspectiva de que a sensibilidade do consumidor ao preço diminua no futuro próximo.

A pesquisa mostrou que 70% dos consumidores estão buscando melhores preços e que 40% se dizem abertos a comprar opções mais econômicas. “Os consumidores estão dispostos a comprar produtos mais econômicos. O varejo terá de ter oferta de produto, e isso também abre a possibilidade para a marca própria”, diz o executivo.

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Fazendo as contas

O aposentado Almir Cornachioni, de 62 anos, tem aumentado a frequência de visitas à loja do Assaí [ASAI3], no bairro Aricanduva, onde mora, para driblar o aumento da inflação. “O atacarejo é mais barato. São quatro casas no mesmo quintal e oito pessoas da família, então nos agrupamos para fazer as compras”.

A preferência em tempos de orçamento apertado tem razão de ser: pesquisa recente da Nielsen mostra que os produtos básicos são, em média, 15% mais baratos nos atacarejos do que em supermercados e hipermercados.

Como é aposentado e vive perto da unidade que frequenta, Cornachioni vai ao Assaí muitas vezes por semana, especialmente quando recebe cupons de desconto pelo WhatsApp, e tem ajudado até nas compras dos vizinhos. “Quando estou indo ao mercado, minha vizinha pede para ver o preço de alguns produtos. Eu mando o valor e às vezes ela me faz um Pix para eu levar para ela”.

Vencedor na crise

Em resumo, a McKinsey classifica o atacarejo como um vencedor na crise. “É um formato que deu certo e tudo indica que vai continuar a crescer”, afirma Bruno Furtado, outro sócio da consultoria. Ele diz que, depois de as grandes redes já terem avançado nas capitais, a tendência agora é de ir para o interior. Outra constatação é a de que o modelo já faz parte do dia a dia de todas as classes sociais, não só da baixa renda.

A musicista Geraldine Ruiz, moradora da Zona Norte de São Paulo, é cliente de atacarejo há cinco anos. “Quando tem algum produto com preço bom, preferimos comprar no atacado e estocar em casa, pois sabemos que a inflação vai salgar no mês seguinte. Produtos como óleo e café estão nessa estratégia”.

Sócio-fundador da consultoria em varejo Varese, Alberto Serrentino afirma que o atacarejo tem ganhado força no Brasil desde a crise de 2015. Na época, 47% das famílias brasileiras costumavam visitar essas lojas, porcentual que subiu para 65% no ano passado.

Serrentino diz que a agressiva abertura de lojas também auxiliou o setor. “O atacarejo ganhou muito por conta da expansão. Foi um formato agressivo em aberturas de lojas e migração, o que faz com que o market share cresça”.

R$ 230 bilhões de faturamento

As mais de 2 mil lojas de atacarejo no Brasil faturaram R$ 230 bilhões no ano passado, segundo dados da Abbas (Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviços) e da Nielsen IQ. A expansão do número de lojas foi forte: 26% apenas em 2021, especialmente nas regiões Norte e Sul, além de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

No Norte, o grande nome do segmento é o Grupo Mateus (GMAT3), que tem colocado o pé no acelerador desde que abriu seu capital na B3, em 2020. Hoje o grupo possui 210 lojas, das quais mais da metade está no Maranhão (onde a rede foi fundada e detém 80% de participação no setor).

“Vamos entendendo as novas possibilidades de faturamento e onde é possível entrar com um determinado nível de competitividade. É um equilíbrio das contas e vamos preenchendo as rotas”, afirma Sandro Oliveira, diretor-executivo da companhia.

Atacarejo x hipermercados

Outra “onda” de novas lojas de atacarejo está vindo com a venda dos pontos do Extra Hiper para o Assaí — a bandeira de atacarejo pertence ao grupo francês Casino e foi desmembrada do Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) no Brasil. O Assaí tem hoje 216 lojas e prevê abrir mais 50 unidades neste ano, um número recorde.

Diretor regional do Assaí, Luiz Carlos Araújo afirma que o modelo tem sido bem recebido por toda a parcela da população. Agora, uma das estratégias é agregar mais serviços às unidades, como o de açougue. “O cliente já exige um padrão melhor, mas não podemos perder a essência, que é de ser de custo baixo”.

Já o GPA desistiu do formato de hipermercado. “Passamos por profundas mudanças e tomamos importantes decisões para o futuro dos negócios do grupo. Iniciamos o ano com a cisão do negócio de atacarejo [Assaí] e finalizamos um ciclo com a descontinuidade do formato de hipermercados do grupo no Brasil, suportados por uma análise de médio e longo prazos das tendências do varejo”, afirma o diretor de operações do GPA, Frederic Garcia.

Foi com a chegada de uma loja perto de casa que a advogada Maria Carolina Garcia mudou suas compras. Na região do Tatuapé, um Extra mudou para Assaí. Grávida no início da pandemia e trabalhando no setor da aviação, um dos mais afetados pela crise, Garcia buscou economia no atacarejo. “O que também gosto é que temos a possibilidade de outras marcas não tão famosas, mas também boas”.

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