Barrados na pandemia

A 15 dias para o Natal, brasileiros seguem retidos no Sul da África; suspensão de voos de Emirates e Qatar dificulta retorno

Embargo sanitário contra 6 países africanos já dura 13 dias; turistas afetados não têm recurso para novo bilhete e aguardam volta de operações das aéreas

Por  Dhiego Maia -

Restam apenas 15 dias para a chegada do Natal, e o Itamaraty não sabe se os brasileiros retidos no Sul da África terão a chance de comemorar a data em casa – isso significa dizer: no Brasil.

São ao menos 309 brasileiros na África do Sul e outros 67 em Moçambique que estão em dificuldades para encontrar assentos disponíveis em voos que os levem de volta ao Brasil.

Essa situação vigora desde 27 de novembro, quando o governo de Jair Bolsonaro (PL) emitiu uma portaria interministerial fechando as fronteiras brasileiras para África do Sul, Botsuana, Essuatíni (antiga Suazilândia), Lesoto, Namíbia e Zimbábue.

A medida busca conter a disseminação da ômicron, nova variante do coronavírus potencialmente mais transmissível e que foi identificada primeiro na África do Sul, em 24 de novembro.

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Balanço da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgado nesta quarta-feira (8) mostrou que a ômicron não está difundida apenas na África. Ela encontra-se espalhada por 57 nações (incluindo o Brasil) de cinco continentes e tem a previsão de ser predominante entre as infecções na Europa até janeiro de 2022.

O fechamento das fronteiras forçou uma escalada de cancelamentos de voos, do Sul da África rumo ao Brasil. As aéreas europeias vêm mantendo suas operações na região, mas os embarques de passageiros, na maioria delas, só estão sendo autorizados para cidadãos europeus.

No caso de Moçambique, embargos sanitários de outras nações contra o país lusófono (falante da língua portuguesa) do Sudeste da África, vem afetando a saída dos brasileiros que estão, sobretudo, em Maputo, a capital do país.

Os brasileiros retidos aguardam em hotéis o desfecho de uma negociação que envolve diplomacia, logística, e, acima de tudo: tempo, diz João Francisco Campos Pereira, chefe da Divisão de Assistência Consular do Itamaraty. “O grupo que mais preocupa é o com passagens de volta pela Qatar Airways e Emirates, companhias aéreas que suspenderam as operações na região temporariamente”, afirma Pereira.

Esse grupo seria composto por 131 pessoas na África do Sul e outras 36 em Maputo, com bilhetes emitidos pela Qatar Airways; e mais 70, na África do Sul, e 1, em Maputo, com viagens marcadas de retorno via Emirates. “Nós estamos sob forte negociação com as embaixadas dos países em que essas duas companhias estão vinculadas para termos uma previsão sobre o retorno das operações no Sul da África”, diz o representante do Itamaraty ao InfoMoney.

Segundo Pereira, os brasileiros com bilhetes de Qatar e Emirates não contam com mais recursos para emitir nova passagem em outra companhia aérea, devido à cotação do dólar, que está operando bem acima dos R$ 5; além do patamar dos preços elevados das viagens nesta época do ano.

Para o porta-voz de assistência consular do Itamaraty, nenhum brasileiro retido está sem-teto ou sem alimentação.

“Todos estão bem. Existe uma grávida no grupo, que está recebendo auxílio especial. Também foram registrados dois casos de Covid-19, mas sem gravidade”, afirma. “Caso houvesse alguma situação de extrema vulnerabilidade, o Itamaraty ajudaria financeiramente, mas esse não é o caso”, complementa.

O Itamaraty diz que, em seu orçamento, estão disponíveis R$ 8 milhões para assistência consular a brasileiros em situação de vulnerabilidade em todo o mundo.

O recurso, quando convertido em dólar, diminui ainda mais o seu poder de alcance, que cobre repatriações, apoio psicológico, assistência a presos, despesas com advogados e a realização de consulados itinerantes em locais sem embaixada. São, ao menos, 4,2 milhões de brasileiros vivendo no exterior.

Até o momento, já foram mapeados 61 brasileiros com passagens emitidas em outras companhias aéreas que conseguirão embarcar ao Brasil nos próximos dias. Os demais seguem à procura de novos bilhetes, que estão cada vez mais raros e caros.

Outras possibilidades

O Itamaraty, além de sensibilizar a Qatar Airways e a Emirates, vem trabalhando outras possibilidades para retirar os brasileiros o quanto antes do Sul da África.

Uma delas seria um “voo charter”, uma operação de transporte comercial público. Esse voo especial contaria com aviões de alguma aérea que opera no Brasil, caso de Gol, Latam Airlines e Azul. As três companhias foram procuradas pelo InfoMoney e disseram que não fecharam, até o momento, nenhum acordo com o Itamaraty.

“É uma operação que também depende de recursos desses brasileiros, com uma tarifa especial a ser negociada pela aérea que for disponibilizar o voo”, diz Pereira. A segunda possibilidade, caso a Qatar ou a Emirates demorem a retornar com voos ao Sul da África, seria transferir os bilhetes para outras companhias.

A Qatar Airways foi procurada pelo InfoMoney, mas não respondeu aos questionamentos. A Emirates informa, em seu site, que os clientes “afetados pelos cancelamentos de voos não precisam ligar imediatamente na companhia para remarcação.”

“Eles podem simplesmente segurar seu bilhete da Emirates e, quando os voos forem retomados, entrar em contato com seu agente de viagens ou escritório de reservas para fazer novos planos de viagem. A Emirates lamenta qualquer inconveniente causado”, diz, por comunicado, a empresa aérea.

Quarentena

Segundo as novas regras sanitárias, os brasileiros que conseguirem embarcar terão de ficar isolados. “Ao ingressar no território nacional, deverão permanecer em quarentena, por quatorze dias, na cidade do seu destino”.

É preciso também preencher a Declaração de Saúde do Viajante nas 24 horas anteriores ao embarque e apresentar um exame RT-PCR não detectável ou negativo para Covid-19, realizado nas últimas 72 horas, ou exame negativo do tipo antígeno, em até 24 horas antes da viagem.

Criança com idade inferior a 12 anos e acompanhada não precisa fazer o exame, desde que o responsável direto dela tenha resultado negativo ou não detectável.

Até o momento, o Brasil acumulava cinco casos confirmados de contaminação por ômicron; outras infecções suspeitas estão sob investigação.

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