Alocação em tempos de crise

6 respostas sobre o que fazer com seu dinheiro agora

O InfoMoney reuniu as recomendações de 8 especialistas de mercado, entre gestores de recursos e de patrimônio e uma planejadora financeira

SÃO PAULO – A velocidade da crise envolvendo a escalada do surto do coronavírus e seus efeitos sobre a economia global, além da queda violenta dos preços do petróleo, pegou todo o mercado de surpresa. E para o investidor pessoa física, as incertezas sobre como lidar com seu patrimônio e que decisões adotar em um quadro de pânico dominaram a cena.

De olho nas principais dúvidas de investidores, o InfoMoney reuniu as recomendações de oito especialistas de mercado, entre gestores de recursos e de patrimônio e uma planejadora financeira, em busca de orientações. Confira a seguir.

1. Perdi metade do meu patrimônio na Bolsa. O que devo fazer agora?

Gestores e alocadores de recursos recomendam paciência para o investidor. Embora as fortes quedas do mercado assustem e muito, as orientações são de não adotar medidas drásticas no portfólio, enquanto o ambiente de incertezas estiver se sobressaindo à racionalidade. E, se for para assumir mudanças, aproveitando os preços mais baixos dos ativos para recompor a carteira, que as compras sejam feitas aos poucos.

Se a pessoa estiver confortável, isto é, com uma carteira adequada ao seu perfil de risco e horizonte de investimento, a recomendação é não fazer nada no momento atual, diz Leticia Camargo, planejadora financeira com certificação CFP.

Mas se, com a queda dos preços dos ativos, a carteira ficar desbalanceada, com um percentual em risco menor do que o desejado, o investidor pode comprar aproveitar para ir às compras, respeitando o equilíbrio do portfólio.

O mesmo pode ser adotado por investidores sem exposição a risco que queiram ter um percentual do patrimônio em Bolsa, desde que tenham um horizonte de longo prazo. Esse aumento de posição, diz Leticia, deve ser feito com cautela, ao longo dos próximos meses. “O barato hoje pode ser caro amanhã.”

Antonio Costa, CEO da Azimut Brasil Wealth Management, afirma que a orientação aos clientes da casa foi ter muita cautela e evitar grandes alterações no portfólio. “Para recursos novos, nossa recomendação foi ficar da forma mais conservadora possível nesse primeiro momento e aguardar a hora correta para fazer uma alocação buscando um maior alfa”, diz.”Não estamos recomendando aumentar o risco nesse momento.”

Ainda que seja impossível saber o momento exato de retomada, Costa assinala que é melhor não se precipitar, ainda que o investidor possa perder parte do movimento de alta dos ativos.

Um levantamento feito pela XP Investimentos com 30 gestores de ações mostra que a maioria (53%) acredita que levará de um a dois anos para a bolsa voltar aos níveis pré-carnaval, na faixa de 115.000 pontos.

2. Tenho uma parcela pequena do meu patrimônio investida em ações. É hora de aproveitar para comprar?

A julgar pela rápida captação de recursos do lendário fundo Cougar, da Dynamo, quem tem dinheiro está aproveitando a queda das ações (e das cotas de fundos) para fazer algumas compras.

Com o fundo reaberto ontem, em algumas poucas horas, a gestora encerrou o recebimento de manifestações de intenção de investir em seu fundo de ações em um valor total de R$ 300 milhões. O valor mínimo para novos cotistas era de R$ 300 mil.

Conforme o levantamento feito com a XP, contudo, no geral, os gestores de fundos de ações estão bastante cautelosos. A maioria está diminuindo o risco das carteiras, via aumento de caixa, compra de proteção ou mudando a composição dos portfólios para empresas mais defensivas.

Uma das gestoras mais prejudicadas com a crise, dada a alta exposição a risco de seus fundos, a Alaska realizou uma live no Instagram (confira mais nesta matéria) na noite de quinta-feira, em que o gestor e sócio Henrique Bredda afirmou que segue confiante nos fundamentos das empresas, especialmente as do mercado doméstico, e que as carteiras estão com posições 100% compradas em ações, ainda que a Bolsa possa estar exposta a novas quedas.

As mudanças, contudo, têm sido pontuais. Posições mais vinculadas à cena doméstica têm sido privilegiadas nos fundos de ações, caso de Magazine Luiza, Aliansce Sonae e Cogna, com certa diluição de papéis ligados a commodities.

Conhecido como um dos maiores investidores da Bolsa e detentor do fundo exclusivo Poland, Luiz Alves Paes de Barros, também sócio da Alaska, disse que, em meio ao pânico visto nos mercados, as ações ficaram ainda mais baratas do que já estavam, e que pessoalmente acelerou suas posições, mencionando discrepâncias de preços vistas em papéis como os da Petrobras, da Vale e da Braskem. “Mas, infelizmente, pode piorar antes de melhorar. O objetivo é comprar ação barata.”

3. Meu fundo está com desempenho péssimo. Devo resgatar e migrar para um gestor com resultado melhor?

A resposta a essa questão pode depender do prazo de resgate do fundo. Como as carteiras de ações e multimercado têm sido as mais prejudicadas neste momento e seus prazos de resgate podem ser muito mais longos que os de fundos de renda fixa, ultrapassando 30 ou 60 dias, o investidor pode vir a receber o dinheiro de volta justamente quando o mercado estiver melhorando. (leia mais nesta matéria)

Com baixa visibilidade sobre o horizonte, a recomendação é aguardar. Guilherme Anversa, sócio e gestor da XP Advisory, lembra que os fundos podem oferecer a possibilidade de uma saída antecipada, sem respeitar, portanto, os prazos de resgate previstos, mas não recomenda a alternativa. “Essa é a pior opção para se fazer nesse tipo de produto”, ressalta Anversa, diante de grandes perdas a serem assumidas em um momento de incerteza, e a um alto custo.

4. O Tesouro Direto voltou a valer a pena?

Enquanto os preços das ações despencaram na Bolsa, as taxas dos títulos públicos dispararam, com o aumento da aversão a risco. Coube ao investidor, contudo, apenas observar. Papéis com retornos prefixados chegaram a pagar juros nominais acima de 9% ao ano, enquanto títulos com rentabilidades indexadas à inflação voltaram ao patamar de juro real de 5% ao ano.

Quem tentou comprar os papéis, porém, não conseguiu. O sistema ficou suspenso grande parte da semana por conta da maior volatilidade, o que impediu o acesso aos ativos. Nesta sexta-feira, inclusive, ainda que as taxas seguissem maiores que na semana anterior, elas já haviam recuado bastante em relação às máximas alcançadas.

Embora as incertezas permaneçam e possam levar as taxas de volta aos prêmios máximos desta semana, gestores tendem a enxergar juros reais a partir de 4% ao ano como atrativos para o carregamento, isto é, para o vencimento, dada a proteção dos papéis por conta da correção pela inflação.

5. Os fundos de crédito podem ter problemas?

Por ora, são poucas as análises de fundos de crédito por parte de alocadores de recursos. Costa, da Azimut Brasil Wealth Management, diz enxergar oportunidades em títulos públicos, mas indica que a gestora de patrimônio não parou para olhar para papéis de crédito privado, até por não ter observado tantos saques da categoria para justificar uma compressão de preços. “Ainda é muito cedo para fazer uma análise”, afirma.

A gestora de fundos de crédito Sparta disse, via nota, não ver impactos relevantes para a classe de crédito privado high grade, ou seja, com alta qualidade de crédito.

“Dado o período recente de recessão que passamos, as empresas estão pouco alavancadas e, por isso, com mais fôlego para atravessar períodos mais difíceis. O universo de empresas que cobrimos em nossas estratégias possui mais de um ano de dívida em caixa, portanto com bastante folga para absorver impactos de curto prazo”, informou a casa.

“A curva de juros tem oscilado bastante, trazendo assim também mais oscilação para os produtos, mas não porque a volatilidade da carteira aumentou ou porque há mais risco de crédito, mas sim porque a rentabilidade relativa (“como percentual do CDI) é mais impactada com qualquer movimento para cima ou para baixo”, reforçou a gestora.

6. Como posso proteger minha carteira de crises? Vale a pena investir em fundos atrelados ao dólar?

Idealmente, o investidor deveria manter uma parcela do seu patrimônio permanentemente em ativos tidos como seguros, com tendência a ter um desempenho diferente da maior parte da carteira.

Ativos vinculados a dólar, ouro e opções estão entre as alternativas, assim como fundos quantitativos e com exposição internacional. Dado que esses produtos ficaram mais caros em meio ao pânico que tomou conta dos mercados nos últimos dias, há quem considere tarde demais para correr atrás de hedge, caso de Otávio Vieira, sócio da gestora de patrimônio da Taler.

Marc Forster, head da Western Asset no Brasil, ressalta que a carteira do investidor deveria ter proteções a todo momento, não só quando o movimento é de baixa. Mas o momento pode ser de fato tardio para alguns investidores.

“Não sei se faz sentido comprar dólar hoje. O petróleo está afetando a situação fiscal dos países exportadores e o dólar segue subindo. Mas, com os bancos centrais cortando juros e em um cenário de melhora do coronavírus, o crescimento pode voltar e o câmbio, ceder. Então é muito incerto”, afirma Forster.

Anversa, da XP Advisory, concorda. “Compre seguros quando ninguém está olhando para eles. Agora não é o momento de grandes defesas.”

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