Mineradora em queda

Vale (VALE3) cai mais de 30% desde as máximas do ano com pressão do minério: o que esperar para a ação?

Dados mistos da economia chinesa são analisados e caminho para recuperação é visto como mais difícil; analistas revisam projeções de Vale para baixo

Por  Lara Rizério -

Na véspera, as ações da Vale (VALE3) fecharam em queda de 6,66%, a R$ 67,95, no menor patamar desde dezembro de 2021, refletindo o recuo dos preços do minério de ferro na Ásia; nesta sexta, as baixas continuam, com VALE3 iniciando a sessão em queda de cerca de 1%. No acumulado do mês de julho até a véspera, a queda dos ativos é de 11,25% e, desde a máxima do ano registrada em 7 de março, a queda é de 33%.

O mercado para as commodities continua pressionado e, nesta sexta-feira, os contratos futuros de minério nas bolsas de Dalian e Cingapura caíram abaixo de US$ 100 a tonelada devido ao aumento dos temores de uma diminuição da demanda por aço, já que a economia da China decepcionou no segundo trimestre e uma crise no setor imobiliário local ganha destaque.

A atividade do país, maior produtora de aço e consumidora de minério de ferro do mundo, contraiu 2,6% no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior e teve alta de 0,4% na base anual, desempenho pior que o esperado, devido aos lockdowns contra a Covid-19.

Com isso, o minério de ferro mais negociado para setembro na Dalian Commodity Exchange da China caiu 10%, a 645 iuanes (US$ 95,32) a tonelada no final da sessão, após atingir mais cedo 641,50 iuanes, o menor nível desde 15 de dezembro. O contrato recuou 13,3% esta semana, a queda mais acentuada desde meados de fevereiro.

Na Bolsa de Cingapura, o contrato do ingrediente siderúrgico para agosto caía 4%, para US$ 96,25 por tonelada, o valor mais fraco desde novembro, colocando-o no caminho para uma perda semanal de mais de 11%.

Conforme destaca Carsten Menke, analista do banco suíço Julius Baer, embora os riscos crescentes de recessão na Europa e nos Estados Unidos tenham também pressionado os preços dos metais industriais para baixo nas últimas semanas, a China é um fator muito mais importante para o desempenho destas commodities.

O conjunto mensal de dados econômicos divulgados pela China confirmou a visão da casa de que a economia já saiu do seu pior momento. Contudo, avalia Menke, é improvável uma rápida recuperação.

Na mesma linha, a equipe econômica do Bradesco destaca que, mesmo com o resultado decepcionante do crescimento chinês, reflexo principalmente dos impactos de cerca de dois meses de lockdown em Shanghai e do recrudescimento da pandemia em algumas províncias, outros indicadores divulgados indicam melhor perspectiva da atividade na transição para o terceiro trimestre.

Olhando sempre na comparação interanual, de janeiro a junho, as vendas do varejo cresceram 3,1%, bem acima do esperado, o varejo caiu 6,7% e a produção industrial acelerou de 0,7% para 3,9%, ainda que os investimentos em ativos fixos tenham desacelerado de 6,2% para 6,1%.

“Olhando à frente, a economia chinesa deve gradualmente se recuperar dos fechamentos do segundo trimestre, mas o surgimento de novas linhagens da Ômicron como a BA.2.75 e a BA.5 podem trazer um dilema para a condução das políticas anti Covid e econômica do país”, avaliam os economistas do Bradesco.

O analista da Julius Baer destaca ainda que o mercado imobiliário chinês continua a causar ventos contrários. Investidores globais e compradores de imóveis na China estão perdendo a confiança no mercado imobiliário do país, que entrou em um novo estágio de turbulência após um ano de queda nas vendas, projetos paralisados e crescentes inadimplências de incorporadoras, o que também tem pressionado o mercado de ações por lá.

Dito isto, Menke aponta que muitas notícias negativas já estão precificadas nos metais industriais. Porém, aponta, uma rápida recuperação parece improvável em meio às incertezas econômicas predominantes e com sinais de que a oferta no setor está suficiente.

Pressão no curto prazo para Vale

Neste cenário, ainda que muitos analistas estejam com uma visão positiva para as ações da Vale, a expectativa é de maior pressão no curto prazo, inclusive levando a revisões para baixo nas estimativas para os ativos da mineradora e para o setor como um todo.

Na semana passada, o Goldman Sachs já havia cortado suas projeções para o minério de ferro em cerca de 15%, para US$ 100 a tonelada nos últimos seis meses do ano. Sua previsão de três meses para o ingrediente siderúrgico agora é de US$ 90 a tonelada.

Na sequência, os analistas do banco reduziram o preço-alvo para os ADRs (American Depositary Receipts, ou ações negociadas na Bolsa americana) da Vale de US$ 17 para US$ 15 (ainda um potencial de alta de 20% frente ao fechamento de quinta), mantendo recomendação neutra para os ativos e destacando preferência por outros papéis do setor de mineração e siderurgia.

“Apesar da avaliação com desconto da Vale e dos retornos de capital relativamente altos, temos nossa recomendação neutra, pois vemos melhor risco-recompensa para os produtores de aço”, avaliam, tendo a Gerdau (GGBR4) como top pick do setor, mas também tendo Usiminas (USIM5) entre as preferidas.

“Mais especificamente, esperamos que a produção de aço da China diminua sequencialmente na segunda metade do ano, enquanto a demanda deve melhorar à medida que os bloqueios terminam, colocando uma pressão potencial de alta nos preços do aço” avalia.

A equipe de commodities do banco estima que a produção de aço da China precisa cair entre 20% e 25% entre julho  dezembro de 2022 em relação aos níveis de junho de 2022, de modo que a produção do ano fiscal de 2022 caia entre 1% e 4% na base anual, em linha com o esforço do governo para reduzir a produção para o ano.

Isso deve ter um impacto negativo no consumo de minério de ferro durante um período de produção sazonalmente mais forte, enquanto deve pressionar os preços do aço. “Também gostaríamos de limitar a exposição ao minério de ferro e à Vale devido às incertezas contínuas da demanda da China e ao declínio estrutural da demanda”, complementam.

O Goldman cortou a estimativa para o lucro antes juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) para a Vale em 16% para 2022 e em 8% para 2023.

Contudo, ponderam que, após o recente baixo desempenho, estimam que as ações da Vale implicam um preço de minério de ferro de US$ 85 a tonelada, abaixo da previsão para a commodity no ano que vem.

Outra casa a revisar recentemente as suas projeções para a Vale foi o Bank of America que, também levando em conta os ventos contrários sobre o crescimento da economia global como um todo (além da China), cortou o preço-alvo para a ação ON de de R$ 106 para R$ 99 e do ADR (American Depositary Receipt, ou ações da empresa negociadas na Bolsa americana) passando de US$ 20 para US$ 19, mantendo recomendação neutra.

Para os analistas do banco americano, os produtores de aço estão sob pressão nos Estados Unidos, China e na Europa e, desta forma, o minério de ferro deve se transformar em excedente. Assim, reforça a visão de baixa para os preços. A estimativa é de preço médio de US$ 95 por tonelada em 2023. O BofA ainda seguiu com recomendação de compra para GGBR4 e USIM5.

“Embora uma recuperação da atividade econômica chinesa possa sustentar os preços no curto prazo, tanto o aumento da oferta quanto a crise de energia podem trazer mais revezes no ano de 2023. Por outro lado, o investimento acelerado na transição e independência energética provavelmente ajudarão a reequilibrar o mercado e empurrar os preços mais alta novamente a partir de 2024″, avaliaram os analistas.

O Citi, por sua vez, tem recomendação de compra para os ADRs da Vale, com preço-alvo de US$ 16, 28% acima da cotação de fechamento da véspera. Os analistas afirmam ainda contar com uma visão relativamente positiva sobre os preços do minério de ferro, projetando a commodity acima de US$ 100 por tonelada até o final de 2023.

Olhando para o curto prazo, com relação aos dados do segundo trimestre, o banco aponta que a empresa deve reportar produção de minério de ferro de 76 milhões de toneladas, estável em base anual e levando a uma queda no semestre. O mercado, avalia, já parece considerar queda nas projeções pela empresa. A Vale reportará seus dados de produção dia 19 de julho.

Os analistas apontam que a produção do primeiro semestre deve somar 140 milhões de toneladas, 4 milhões abaixo do mesmo período do ano anterior. Assim, a projeção da Vale estabelecida entre 320 milhões e 335 milhões de toneladas pode ser difícil de alcançar, após chegar a 316 milhões de toneladas em 2021.

“A empresa poderia optar por cortar a projeção e enquadrar isso como disciplina de produção. Historicamente, US$ 100 por tonelada era um preço muito alto, mas os custos hoje são significativamente mais altos, especialmente para produtos de qualidade inferior”, avaliam.

As projeções para Ebitda de 2022 em 3% para 2022 e 2023, a US$ 26,4 bilhões e US$ 22,8 bilhões, respectivamente, por conta de pequenas mudanças nas premissas sobre preços e custos.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)

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