Primeiro trimestre

Resultados do 1º trimestre de construtoras devem mostrar esforços de recomposição de margens em meio à alta da inflação

Alta dos custos pressiona lucratividade de companhias do setor, que tentam melhorar seus negócios em meio a um cenário mais desafiador

Por  Vitor Azevedo -

Boa parte das construtoras listadas na bolsa brasileira já divulgaram suas prévias operacionais de resultados do primeiro trimestre, antecipando aquilo que será visto na divulgação dos balanços. No geral, as companhias trouxeram resultados positivos, apesar de algumas ainda apresentarem problemas para melhorar suas margens.

Isso acontece porque o atual cenário econômico é visto como desafiador para o setor da construção civil.

De um lado, a inflação mais alta encarece os gastos das companhias, que nem sempre conseguem os repassar aos clientes, uma vez que preços mais caros tendem a diminuir a procura. Por outro, o ciclo de alta dos juros encarece o acesso ao crédito, crucial para manter o mercado imobiliário aquecido, uma vez que boa parte das pessoas fazem empréstimos para realizar o sonho da casa própria.

Na última temporada de balanços, a visão dos números por analistas foi majoritariamente negativa. Construtoras focadas em classes mais baixas foram as mais impactadas, por terem menor espaço para repassar preços, uma vez que clientes de menor poder aquisitivo têm orçamentos mais apertados.

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A Tenda (TEND3), por exemplo, teve o seu quarto trimestre definido como algo “a ser esquecido” pela XP Investimentos, com custos mais altos na base anual e receita caindo.

Agora, em sua prévia operacional, os comentários são de que os números ainda são ruins, mas, nas palavras do Credit Suisse, “há evidências de que a companhia está tentando recuperar sua margem”.

“Lançamentos e vendas caíram na base anual, ficando abaixo das nossas estimativas, e a velocidade de vendas desacelerou. No entanto, tal efeito se deveu, em parte, aos incrementos de preços unitários da Tenda”, comentam os analistas do banco suíço.

Os preços médios cobrados pela construtora saltaram 14% ao ano no primeiro trimestre, mas as vendas caíram 23% na mesma base.

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Para a MRV (MRVE3), as análises foram parecidas. Assim como a Tenda, essa construtora também vem tendo mais dificuldades em recompor margens.

“Apesar da aceleração da velocidade de vendas na base trimestral e dos aumentos de preços reportados (com alta de 10% em lançamentos e 3% em vendas), continuamos céticos quanto à recuperação de margens ao longo do ano considerando o aumento inflacionário dos custos”, comenta o Credit Suisse sobre a MRV.

Os analistas do Bradesco BBI vão no mesmo caminho. “Reconhecemos que a operação brasileira de baixa renda da MRV está lutando mais do que alguns de seus pares em termos de margens (devido aos custos de construção), embora o crescimento deva ser suportado por outras linhas de negócios da empresa”, afirmam.

A tática da MRV vem sendo queimar caixa para avançar em novas frentes, como com a AHS, sua subsidiária de construção nos EUA, que fechou o trimestre com margem bruta de 38% e ajudou a puxar a margem da holding 3% para cima.

Enquanto isso, a Plano & Plano (PLPL3), que também tem foco em baixa renda, reforçou sua estratégia de asset light, mantendo a menor quantidade possível de ativos, apenas aqueles de fato necessários para conduzir suas operações. “A companhia registrou uma considerável redução de estoque (10,9% em valor geral de vendas)”, comenta o BBI, pontuando que, do outro lado, houve aumento sólido da velocidade de vendas em 2,2 pontos percentuais, para 41,2%.

Direcional e Moura Dubeux se destacam em entrega operacional

A Direcional (DIRR3), que até então também tinha foco maior em classes mais baixas, por sua vez, vem avançando em sua exposição ao segmento de renda média através da Riva. Para o Credit Suisse, porém, a construtora se destaca mesmo em seu core business.

“A empresa continua avançando com sucesso no ramp up das operações da Riva, com crescimento de 36% do volume lançado. Além disso, a Direcional tem conseguido aumentar os preços de suas unidades, com os preços de lançamentos saltando 6%, sem comprometer sua velocidade de vendas, o que é um sinal positivo para a manutenção das margens”, defendem os analistas da instituição.

O Bradesco BBI endossa a opinião, destacando que a Direcional não deu sinais de desaceleração e afirmando que, inclusive, a construtora bateu um recorde de vendas em março, com a melhor receita em um mês para a história.

“Apesar de todos os desafios que envolvem o setor de construção residencial e o segmento de baixa renda, os números operacionais da Direcional sugerem que a execução segue nos trilhos, sem sinais de interrupção ou desaceleração significativa”, dizem os especialistas do banco sobre a construtora.

Há ainda outros fatores que impulsionam a forma como uma construtora performa nos tempos de crise. No caso da Moura Dubeux (MDNE3), por exemplo, há o beneficio da sua posição de liderança na região Nordeste – com a companhia conseguindo negociar melhor o preço de produtos com fornecedores, sendo mais eficaz em seu negócios ou tendo mais aceitação do mercado.

“A empresa continua se beneficiando de sua posição de liderança no mercado nordestino, lançando projetos com alta aceitação, o que vem se traduzindo em velocidade de vendas superior” comenta o Credit Suisse sobre a companhia.

O BBI destacou ainda a alta recepção dos dois condomínios lançados pela construtora no primeiro trimestre – ambos com 100% de unidades vendidas: “Ajudou a impulsionar as vendas totais, que chegaram a R$ 401 milhões, implicando um índice de vendas sobre oferta de 28%”.

Por fim, a EzTec (EZTC3), que tem foco em construir imóveis de alto e médio padrão na região metropolitana de São Paulo, dividiu a opinião de analistas, com o Credit Suisse vendo os resultados como fracos e o BBI como fortes.

Basicamente, para o Credit Suisse, a companhia registrou um grande aumento de estoque, de 70%, para R$ 3,1 bilhões, viu uma desaceleração na velocidade de vendas, que foi a 38%, e concentrou apenas 36% do seu volume total de lançamentos para o segmento de alta renda, que o banco vê como “mais resiliente aos ventos contrários do setor”.

Neste caso, o banco não vê a exposição ao setor de classe média como totalmente benéfica, uma vez que as pessoas que compõem essa faixa têm mais chances de sofrerem com a inflação. Combinada com o maior nível de estoque, a estratégia, para o Credit Suisse, traz uma visão cautelosa.

Para o BBI, por outro lado, o enfraquecimento dos resultados operacionais da EzTec no primeiro trimestre se dá por uma característica sazonal, apesar de a companhia ter de “acelerar lançamentos em um ano provavelmente turbulento”.

Confira as recomendações do BBI e do Credit Suisse para as construtoras:

  • Moura Dubex: Credit Suisse tem rating outperform, bem como o BBI e BBA, com preços-alvo, respectivamente, em R$ 8, em R$ 13 e em R$ 11,8
  • Direcional: Credit Suisse tem rating outperform, com preço-alvo em R$ 14; BBI vai no mesmo caminho, com preço-alvo em R$ 20
  • Plano & Plano: BBI tem recomendação outperform, com preço-alvo em R$ 7
  • EzTec: Credit Suisse está neutro para as ações, com preço-alvo em R$ 24
  • MRV: Credit Suisse está neutro, com preço-alvo em R$ 15; BBI tem rating outperform, com preço-alvo em R$ 21
  • Tenda: Credit Suisse está neutro, com preço-alvo em R$ 23.

No pregão desta segunda-feira, por volta das 12h, as ações da Moura Dubex (MDNE3) recuam 2,8%, a R$ 6,07; os papéis da Direcional (DIRR3) caem 2,3%, para R$ 11,36; enquanto as ações da Plano & Plano (PLPL3) perdem 2,5%, a R$ 2,73.

Também recuam neste pregão os papéis da MRV (MRVE3), com menos 1,02%, a R$ 10,68; e da Tenda (TEND3), desvalorizando-se 0,49%, a R$ 6,13. Na contramão, as ações da EzTec EZTC3) sobem 0,12%, a R$ 16,38.

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