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Prata repete padrão explosivo de 1980 e 2011; nova bolha?

Dinâmica lembra ciclos anteriores de euforia e correção profunda

Rodrigo Paz

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Após semanas de forte volatilidade, o mercado de metais preciosos também passou por um movimento abrupto de correção, com destaque para a prata, que chegou a recuar cerca de 30% em um único dia. O episódio levantou questionamentos sobre possível correlação com a queda recente das criptomoedas e reacendeu o debate sobre excesso de alavancagem nos mercados futuros.

Nesse contexto, Alexandre Stormer, trader com ampla experiência de mercado e sócio-fundador do escritório Liberta, credenciado à XP, concedeu entrevista ao InfoMoney para explicar que o movimento recente da prata é resultado de um processo que vinha sendo construído ao longo dos últimos meses, marcado por alavancagem crescente em contratos futuros e ajustes nas exigências de margem, e não por uma migração de capital entre criptomoedas e metais.

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Excesso de contratos e alavancagem extrema

Segundo Stormer, o ponto central da queda recente está na estrutura do mercado futuro da prata. Atualmente, o volume de contratos negociados representa cerca de 150 vezes a quantidade de prata física disponível no mundo. Em outras palavras, há muito mais papel sendo negociado do que metal disponível para entrega.

“Tu tem uma alavancagem gigantesca para um suprimento limitado de prata”, afirma Stormer.

O movimento de alta atraiu investidores que passaram a ampliar sucessivamente suas posições alavancadas. Quando houve um ajuste na exigência de margem para manter esses contratos, muitos participantes não tinham capital suficiente para sustentar as posições e foram obrigados a liquidar.

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“Quando mexeram na necessidade de margem, não houve dinheiro para manter os contratos e precisaram entregar”, explica o trader.

O resultado foi uma queda de aproximadamente 30% em um único dia — movimento típico de mercados excessivamente alavancados. Para Stormer, trata-se do mesmo tipo de dinâmica já vista em ativos altamente voláteis, nos quais a alavancagem amplifica tanto a alta quanto a queda.

Não há correlação com criptomoedas

Apesar dos rumores de que investidores estariam migrando recursos entre criptomoedas e metais preciosos, Stormer descarta essa hipótese de forma categórica.

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“Não, não, não”, responde ao ser questionado sobre uma possível correlação entre a queda das criptos e os metais.

Segundo ele, as criptomoedas já vinham em trajetória de baixa muito antes da disparada recente do ouro e da prata. Além disso, os números não sustentam a tese de realocação estrutural de capital.

O market cap total das criptomoedas gira em torno de US$ 3,4 trilhões, enquanto o mercado de ouro está próximo de US$ 22 trilhões. Mesmo que todo o mercado cripto fosse liquidado, o impacto estrutural sobre o ouro seria limitado.

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“Não faz sentido absolutamente nenhum. Zero”, afirma Stormer ao comentar a ideia de que investidores estariam vendendo prata para comprar Bitcoin ou outras criptos.

Para o trader, o que ocorreu foi “literalmente um excesso de volatilidade produzido por muitos players altamente alavancados”, avalia.

Escassez estrutural existe — mas não nessa velocidade

Stormer reconhece que há uma tese legítima por trás da valorização da prata. O mundo produz menos prata do que a demanda exige, gerando um déficit estrutural relevante. Assim como o Bitcoin possui oferta limitada, a prata também enfrenta restrições de produção.

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No entanto, ele ressalta que a intensidade e a inclinação da alta recente extrapolaram o comportamento compatível com fundamentos.

“Existe um déficit de produção de prata. Isso produziria uma tendência de alta. Mas não na intensidade, na velocidade que a gente teve”, afirma.

Para o analista, a narrativa de escassez acabou sendo potencializada por posições excessivamente alavancadas, transformando uma tendência estrutural legítima em um movimento especulativo de curto prazo.

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Estamos olhando uma bolha na prata?

Na avaliação do entrevistado, a resposta é sim.

Ele argumenta que o gráfico da prata apresenta um padrão histórico claro: movimentos extremamente íngremes de alta, seguidos por correções igualmente profundas. Esse comportamento já foi observado em 1980 e 2011, quando disparadas explosivas foram seguidas por quedas que devolveram grande parte do movimento.

“A prata é clássica nesse movimento. Ela faz tiros explosivos de alta que duram alguns meses e depois volta”, afirma.

Segundo ele, o movimento recente foi ainda mais acentuado em amplitude, velocidade e inclinação do que episódios anteriores, o que reforça a leitura de bolha.

Fonte: TradingView. Gráfico da Prata. Elaboração: Rodrigo Paz

Projeções: níveis de US$ 40 no radar

Com base na leitura gráfica, o analista projeta que a prata pode buscar a região dos US$ 40, o que representaria uma correção significativa em relação aos níveis recentes.

“Qualquer movimento de repique que aconteça é repique para voltar a cair mais”, afirma.

Stormer faz ainda uma distinção importante entre os metais. Enquanto a prata apresenta sinais técnicos típicos de bolha, o ouro não demonstra o mesmo padrão neste momento.

“O ouro eu já não vejo com uma bolha, mas a prata aqui foi uma bolha”, conclui.

(Rodrigo Paz é analista técnico)

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