Conteúdo editorial apoiado por

Pressão vendedora derruba criptomoedas em 2026; entenda a queda e o que esperar

Movimento recente expõe fragilidade de curto prazo, mas preserva estrutura maior

Rodrigo Paz

Publicidade

O mercado de criptomoedas atravessa um momento de forte estresse em 2026, após uma sequência de quedas intensas que culminaram em um sell-off clássico nas últimas semanas. Bitcoin, Ethereum e outros ativos digitais sofreram movimentos abruptos de baixa, seguidos por tentativas de recuperação. Esse movimento ocorreu em um ambiente marcado por redução da liquidez global, mudanças regulatórias e elevado nível de alavancagem.

Ainda assim, embora o movimento tenha reacendido temores sobre uma possível mudança estrutural de tendência, a avaliação é de que o cenário reflete mais um ajuste profundo dentro do ciclo do que uma ruptura definitiva da tese das principais criptomoedas.

Nesse contexto, Alexandre Stormer, trader com ampla experiência de mercado e sócio-fundador do escritório Liberta, credenciado à XP, concedou entrevista ao InfoMoney para explicar que o movimento recente é resultado de um processo que vem se desenhando desde o segundo semestre do ano passado e que ganhou força justamente quando fatores macroeconômicos e regulatórios passaram a atuar de forma simultânea.

Leia também: Bitcoin pode entrar em ‘espiral da morte’, alerta gestor que previu crise de 2008

Pressão de venda se intensifica desde setembro

Segundo Stormer, a dinâmica atual do mercado cripto não começou com o sell-off mais recente. Desde setembro do ano passado, o setor já vinha sob pressão de venda contínua, especialmente por parte de investidores institucionais. Como consequência, esse fluxo mais sistemático formou uma sequência de topos e fundos descendentes, e com isso, preparou o terreno para o movimento mais agudo observado em fevereiro.

O episódio mais emblemático ocorreu quando o Bitcoin registrou uma queda de cerca de 14% em um único dia, caracterizando um sell-off típico. Stormer define esse tipo de movimento como “o grito desesperador dos vendidos”, quando stops são acionados, posições alavancadas são liquidadas e o mercado entra em pânico. Historicamente, esse tipo de dinâmica costuma marcar momentos extremos do ciclo, nos quais a pressão vendedora atinge seu ápice.

Continua depois da publicidade

Apesar disso, o trader ressalta que, para investidores que seguem acreditando nos fundamentos do mercado cripto, esse tipo de movimento pode começar a abrir espaço para oportunidades, especialmente em ativos com maior lastro e projetos mais consolidados, como Bitcoin, Ethereum, Solana, entre outros.

Leia também: ETF de renda fixa mais do que dobra patrimônio em 4 meses; entenda avanço do LFTB11

Basileia III e o fim do dinheiro barato explicam o movimento

Do ponto de vista macroeconômico, Stormer aponta o Basileia III como o principal e mais plausível fator por trás da pressão vendedora observada desde o segundo semestre de 2025. A nova regulação aumentou significativamente a exigência de capital para instituições financeiras que mantêm exposição a criptomoedas. Com isso, esse tipo de ativo perdeu atratividade do ponto de vista institucional.

Continua depois da publicidade

Na prática, bancos e fundos passaram a reduzir suas posições de forma gradual e sistemática, utilizando movimentos de recuperação apenas como oportunidade para vender mais. Esse comportamento, portanto, ajudou a manter a pressão de baixa mesmo em momentos de repique técnico.

Stormer também descarta a tese de que o movimento recente esteja ligado a uma aversão global ao risco. Segundo ele, se esse fosse o caso, mercados tradicionalmente sensíveis ao apetite por risco não estariam renovando máximas históricas. Índices como S&P 500, Nasdaq e até o Ibovespa seguem operando próximos de seus recordes, o que enfraquece a ideia de fuga generalizada de risco.

Outro fator macroeconômico relevante foi a mudança de postura do Banco Central do Japão. Após anos operando com juros próximos de zero — e até negativos —, o país iniciou um ciclo de alta de juros, encerrando uma das principais fontes de liquidez barata do sistema financeiro global. Esse movimento reduziu o fluxo de capital para ativos mais voláteis, como as criptomoedas, especialmente em um mercado já altamente alavancado.

Continua depois da publicidade

Esse aperto foi reforçado por sinais vindos dos Estados Unidos, incluindo a indicação de um novo presidente do Federal Reserve com discurso mais duro em relação ao excesso de liquidez mundial, criando um ambiente ainda mais desafiador para o setor.

Suportes técnicos e leitura estrutural do Bitcoin

No campo técnico, Stormer destaca que o Bitcoin chegou a se aproximar de regiões importantes de suporte. O principal nível estrutural citado pelo trader está na faixa dos US$ 56.080. Ainda assim, ele avalia que, pelo comportamento recente do mercado, é pouco provável que o ativo chegue até essa região.

A leitura atual sugere uma tentativa de recuperação após o sell-off, o que pode indicar que parte relevante do movimento de baixa já foi absorvida. Esse tipo de comportamento costuma ocorrer quando a oferta de venda começa a se esgotar, após uma fase de capitulação mais intensa.

Continua depois da publicidade

Leia também: Como os ETFs estão redefinindo a dinâmica dos investimentos na B3

Ajuste dentro do ciclo, não virada de tendência

Apesar da forte correção, Stormer avalia que o movimento atual segue como um ajuste dentro do ciclo. No gráfico mensal — que representa a chamada tendência secular — o Bitcoin segue negociando dentro de um canal de alta bem definido.

Segundo ele, essa estrutura, só seria efetivamente ameaçada caso o ativo perdesse a região dos US$ 48 mil, o que alteraria de forma relevante o desenho do gráfico de longo prazo.

Até o momento, o que se observa é um movimento corretivo dentro desse canal, em uma região que Stormer define como um ponto de “bipolaridade” do mercado, no qual o sentimento oscila entre medo extremo e retomada gradual do apetite ao risco.

Fonte: Nelogica. Gráfico mensal. Elaboração: Alexandre Stormer.

Leia mais: ETFs deixam de ser nicho e moldam o futuro das carteiras brasileiras, diz a Investo

Crise abre espaço para oportunidades seletivas

Para Stormer, crises costumam carregar oportunidades, desde que o investidor tenha clareza de horizonte e seletividade. “Em todas as crises nós temos oportunidades”, afirma.

Na sua avaliação, o mercado cripto atravessa, sim, um momento de crise, o que pode abrir espaço para estratégias de médio e longo prazo, especialmente em regiões de sobrevenda.

A lógica é que, após quedas muito profundas, o incentivo econômico para novas vendas diminui, enquanto o risco-retorno para posições compradas começa a melhorar. Ainda assim, o trader ressalta que esse tipo de estratégia exige disciplina e visão de longo prazo.

Riscos estruturais e fator político entram no radar

Apesar da visão mais construtiva no médio e longo prazo, Stormer chama atenção para riscos estruturais que precisam ser monitorados. Um deles está ligado à própria tese de escassez do Bitcoin. Embora a oferta do ativo seja limitada, a multiplicação de produtos financeiros atrelados — como ETFs, contratos futuros e opções — pode, na prática, diluir essa percepção de raridade ao longo do tempo.

Outro fator importante para 2026 é o cenário político nos Estados Unidos. Stormer destaca que as eleições de meio de mandato podem gerar volatilidade adicional no mercado cripto. A recente derrota de Donald Trump no Texas, segundo ele, pode ter funcionado como mais um gatilho para a queda recente das criptomoedas.

Caso Trump perca força política ao longo do ano e fique sem apoio no Congresso, o mercado cripto — historicamente visto como mais alinhado ao presidente — pode sofrer novos episódios de pressão. Por isso, o trader reforça que acompanhar o calendário político será tão importante quanto monitorar fatores técnicos e macroeconômicos.

Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice