Em mercados

Perda de grau de investimento muda posição de Levy no governo: ministro cai ou fica?

Desde o anúncio da perda do grau de investimento, muito se discutiu sobre o que deveria ocorrer com a correlação de forças entre os comandantes da política econômica nacional

Joaquim Levy
(José Cruz/Agência Brasil)

SÃO PAULO - A perda do grau de investimento do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor's anunciada na noite da última quarta-feira (10) trouxe uma enxurrada de críticas ao governo e muita movimentação no mercado e na cena política. A nota de crédito do país caiu de "BBB-" para "BB+", com perspectiva negativa. Foi a primeira grande agência a retirar o Brasil do seleto grupo das economias que carregam o selo de "bom pagador", nos mais diferentes níveis, encerrando um ciclo iniciado em 2008. Agora, o país está no chamado "grau especulativo" na avaliação da S&P. Caso Moody's ou Fitch alterem suas notas, passamos oficialmente a carregar este rótulo perante os credores no mercado.

Desde o anúncio, muito se discutiu sobre o que deveria ocorrer com a correlação de forças entre os comandantes da política econômica nacional. Em meio a sucessivos episódios que apontam para seu enfraquecimento político, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, corre riscos de perder ainda mais espaço no governo ou ganhará mais voz no Executivo? Existem duas leituras que ascendem em meio ao cenário de incertezas: a primeira seria de que o ministro tem mais condições de mostrar a importância de se promover um ajuste fiscal para a recuperação da situação das contas públicas, e, consequentemente, da economia como um todo; no sentido oposto, Levy perde um importante argumento para justificar a maior austeridade para fechar a conta. Pela intensidade que esse discurso foi usado, o ministro acabou vinculando à imagem de que a manutenção do grau de investimento seria sua "razão de ser". Agora que o objetivo foi parcialmente frustrado, não se pode desprezar a possibilidade do "mãos de tesoura" passar a ter ainda mais dificuldades.

Deputados da oposição enxergam uma clara sinalização para a concretização do segundo cenário em vez do primeiro. Para o líder da minoria na Câmara, Bruno Araújo (PSDB-PE), momento reforça o isolamento de Levy no governo e o ditado popular que diz que "uma andorinha não faz verão". "Fica claro para o mercado que suas ideias são derrotadas pelo resto da equipe e pela própria presidente. Ele é boicotado e esse anúncio o deixa ainda mais fraco. Cresce o risco de Levy fora da equipe, mas sabemos que o problema não é ele, e sim ela", argumentou. A visão é compartilhada pelo deputado também oposicionista Rodrigo Maia (DEM-RJ), que diz que a situação piora muito para o ministro neste momento.

Fora do balcão político, especialistas são mais cautelosos com relação ao cenário que deverá se desenhar nos próximos dias. "Obviamente, a crítica pode aumentar. No campo político, pode surgir a leitura de que o ajuste não deu resultado. Mas a presidente precisa dele mais do que nunca. O país ainda tem o grau de investimento por duas agências e não pode perder essa classificação", afirmou o analista político Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria Arko Advice. "Se o governo hoje perde o ministro da Fazenda, a incerteza aumenta ainda mais para os agentes econômicos. Seria uma sinalização de que o ministro que defende corte de gastos não tem espaço", complementou.

Existe uma visível disputa de discurso internamente no governo na área da condução da política econômica. De um lado, Joaquim Levy se posiciona a favor de uma metodologia ortodoxa, com medidas de austeridade para controle das contas públicas. Na outra ponta, Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Nelson Barbosa (Planejamento) carregam resquícios da estratégia anticíclica das gestões anteriores - medidas conhecidas como heterodoxas pelos agentes do mercado. Para Vítor Oliveira, consultor da Pulso Público Relações Governamentais, cresce a disputa entre essas duas alas. "Ainda temos pouca informação. A impressão que tenho é que não necessariamente Levy cresce, mas enfraqueceu demais demais a posição de quem fazia a articulação política - ou seja, a ala "dilmista" do governo, se é que podemos dizer assim. Isso porque ainda temos as duas agências [que mantém o grau de investimento brasileiro]. E a justificativa do corte deixou claro que o problema foi a articulação política", observou Oliveira, que também é blogueiro do InfoMoney.

Com isso, o especialista espera uma ganha de força de outros personagens com melhor reputação e mais bem relacionados com o ex-presidente Lula. É o caso de Jaques Wagner, atual ministro da Defesa. O petista é um dos nomes mais respeitados do governo para a coordenação política, tendo em vista o bom relacionamento que mantém com alas importantes no Congresso Nacional. O novo episódio para a crise política, diz Oliveira, também tende a gerar uma precipitação na reforma ministerial e nomeações para cargos secundários no governo. "O PT tem dificuldades para dividir o governo. Enquanto não resolver isso, vai ter problemas", afirmou o analista.

Também reforçando as incertezas, o consultor político e professor da faculdade Senac Minas Gerais, Carlos Magno, diz que são necessários mais elementos para que se tenha a indicação clara de como se dará a movimentação das peças no xadrez político. "Ninguém ainda sabe se ele ganha ou perde força", disse. A indefinição de qual será a estratégia para a política econômica adotada fica evidente na fala do ministro em entrevista ao Jornal da Globo. "Quando ele diz que o governo está conversando, isso significa que não tem acordo ainda. Existe uma disputa interna e ele está no meio disso. A condução heterodoxa ficou extremamente desgastada por conta de sua condução na segunda metade de seu primeiro mandato. Por outro lado, o remédio da ortodoxia é muito salgado, que vai de enfrentamento a uma história de vida. Pessoalmente, para ela, deve ser muito difícil", avaliou Magno.

Ainda não está claro que o caminho a ser seguido por Dilma será o mais para o lado liberal. Durante a entrevista que concedeu à jornalista Claudia Safatle, do Valor, a própria presidente assumiu uma posição mais indefinida sobre a polarização Levy-Barbosa. "Eu estou na fase confuciana. Eu sou a favor do caminho do meio e da harmonia", disse. Enquanto nenhum fato indica com clareza o espaço que o ministro da Fazenda terá no futuro próximo, a tendência é o mercado e os especialistas penderem para o lado de sua permanência ou saída a cada nova notícia. Nesta quinta-feira, as expectativas são de que Dilma determine que Levy faça contingenciamentos no Orçamento, visando superar o déficit bilionário anunciado na semana passada. Caso a leitura prevaleça, ganha força o fundo de esperança do economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs em Nova York, Alberto Ramos: "Levy perdeu uma batalha, embora ele não tenha necessariamente perdido a guerra ainda".

 

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