Em mercados

É um tsunami, é uma bomba? Suíça toma decisão extrema e mercados ficam "perplexos"

"Porto seguro" dos mercados, Banco Central do pequeno país tomou medida drástica e movimentou moedas e bolsas nesta sessão

SÃO PAULO - Esta quinta-feira (15) podia ser um dia "mais do mesmo" nos mercados, com alguma recuperação ou continuidade de queda das commodities, novos dados da China e dos EUA e indicações da política monetária do BCE (Banco Central Europeu), o que vem sendo os grandes catalisadores para o mercado nos últimos dias.

Porém, não foi isso o que aconteceu. O grande vetor para os mercados no início da manhã foi a decisão do Banco Central de um pequeno país, de um pouco mais de 8 milhões de habitantes e aparentemente sem grande destaque nas decisões de política monetária.

O Banco Central da Suíça, o SNB, eliminou hoje a taxa de câmbio mínima de 1,20 euro por franco suíço, ao mesmo tempo em que reduziu a taxa de depósitos para -0,75%, de -0,25%. A autoridade monetária do país também levou a faixa-alvo da taxa Libor de três meses para terreno ainda mais negativo, entre -1,25% e -0,25%. Antes, o intervalo era de -0,75% a 0,25%.

E esta decisão suscitou diversas reações no mercado. "Tsunami" e "bomba" eram algumas das classificações, sendo classificadas como um dos maiores movimentos que analistas viram em décadas de carreira, num movimento completamente surpreendente, conforme ressaltou matéria do Market Watch. O franco suíço registrou uma forte valorização, de cerca de 14% em relação ao dólar, enquanto disparou 17% frente o euro.  

Por outro lado, a bolsa suíça, que neste momento registra queda de 9%, chegou a despencar 10% e registrar o pior desempenho desde 1989.

Conforme destaca a LCA Consultores, desde o 3º trimestre de 2011 o SNB defendia esta paridade, em uma tentativa de desestimular a entrada de capitais do resto da Europa, que procuravam no país refúgio da crise da dívida ora em curso. A apreciação do franco, à época, agravava o quadro de deflação que então se apresentava.

"A intervenção necessária para a defesa da paridade, no entanto, que viu crescer enormemente seu balanço. A justificativa de evitar que o franco acompanhasse o euro e se depreciasse em relação ao dólar não é convincente, pois não há pressões inflacionárias relevantes no país, de forma que o custo da intervenção foi, certamente, o motivo da medida, destaca a consultoria.  

Mas por que isso foi feito?
O SNB justificou a decisão apontando que a "sobrevalorização do franco suíço diminuiu como um todo desde a introdução da taxa de câmbio mínima", o que motivou a decisão de descartar a medida. A taxa, que foi introduzida em período de excepcional sobrevalorização do franco suíço e grande nível de incerteza nos mercados financeiros, tinha por objetivo proteger a economia do país.

Segundo o presidente do banco, Thomas Jordan, manter a taxa mínima do franco suíço "não se justificava mais". Segundo ele, a taxa foi estabelecida em um período de valorização excepcional do franco suíço e reconheceu que a economia do país teve vantagem dessa fase, para então se ajustar à uma nova situação. Ele ressalta que, embora o franco suíço permaneça alto, a sobrevalorização diminuiu desde que a referência de câmbio foi adotada, há mais de três anos. 

E, para impedir que o fim da medida de câmbio leve a condições monetárias mais apertadas, o SNB também decidiu reduzir significativamente a taxa de depósitos.

Decisão foi boa? 
O chefe de investimentos do UBS, Mark Haefele, destacou que o movimento veio como uma "surpresa completa". Segundo ele apontou, o impacto negativo para a economia suíça será grande. A inflação do país pode ser afetada negativamente em 0,9 ponto percentual na comparação mensal e o efeito direto para as exportadoras deve ser negativo em 5 bilhões de francos suíços, ou uma queda de 0,7 ponto percentual do PIB do pequeno país, afirmou.

Por outro lado, aponta Steve Woodcock, da Trade Next, o movimento de expansão monetária com a redução ainda maior das taxas monetárias foram na direção certa. 

Já Dennis Gartman afirmou ao portal CNBC que a decisão da Suíça ' é realmente uma decisão boba da parte deles e infligirá perdas a um grande número de pessoas". "Eles não deram nenhuma indicação de que isso iria acontecer". E, afirma, ao abandonar esta política, o Banco Central deve enfrentar perdas de US$ 10 bilhões. 

Já o chefe de estratégia do Brown Brothers Harriman, Marc Chandler, afirmou que o movimento é parte de uma estratégia para enfrentar a deflação.

"O momento da mudança é uma surpresa, vindo apenas um mês após a última alteração das taxas de juro. Mas poderia muito bem ser que o SNB decidiu se antecipar a um movimento provável de flexibilização monetária do BCE, que pode acontecer em breve. O Banco Central do país indicou que 'estava dando com uma mão e tirando com a outra ao mover as taxas de depósitos para um território negativo. Porém, ele quebrou a parede da barragem e causou uma inundação. Ainda levará algum tempo para ver o que está por trás disso", afirmou Simon Smith, economista-chefe da FxPro.

Segundo Christian Schulz, economista sênior do Berenberg, se sustentado, o impacto da decisão sobre a economia da Suíça pode ser significativa durante alguns anos. "Os exportadores sofrerão com os menores preços dos produtos importados. O turismo e comércio a varejo também podem sofrer. Um período de forte deflação é um risco grave. Mas, a economia pode ser capaz de lidar com isso", afirmou Christian, segundo o Market Watch.

E o temor do efeito desta flutuação sobre os balanços patrimoniais do setor privado europeu – que tem vastos passivos em francos – espalhou-se pelos mercados europeus e aumentou a percepção de risco, o que motivou a queda das bolsas e a depreciação ainda mais acentuada do euro, destaca a LCA Consultores. 

 

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