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Opções sobre ações: quais os principais erros dos novatos nesse mercado?

É preciso ter bom conhecimento sobre derivativos antes de se aventurar; analistas dizem que é preciso tomar vários cuidados

SÃO PAULO - Muitas vezes vista como uma modalidade indicada aos profissionais do mercado, ou àqueles que possuem bastante intimidade com ele, as opções sobre ações são uma alternativa aos investidores que buscam ampliar seus ganhos ou até mesmo fazer um hedge em seus investimentos. Mas, é preciso cuidado.

Isso porque, quando bem analisado, o investimento em opções pode trazer retornos amplos. Porém, quando o investidor embarca em uma onda de azar e aplica seus recursos em opções que não tenham sido bem estudadas previamente, ou mesmo conte com o imprevisto de uma volatilidade brusca no mercado e sua consequente precificação nos ativos de risco, o prejuízo pode chegar a valores alarmantes.

Por esse motivo, é comum ouvirmos histórias de quem se arriscou no mercado de opções e acabou "levando um tombo feio". Estes erros muitas vezes decorrem da falta de conhecimento dos novatos sobre esta modalidade. "Em suma, a opção te dá o direito da compra ou venda de uma ação por um determinado preço e em um determinado período. Na verdade quando você compra a opção você paga um prêmio para ter esse direito de comprar ou vender a ação", explica o professor de finanças do Insper e da FIA, Leonel Molero Pereira.

O analista Ewerton Zacharias, da Prosper Corretora, destaca que, uma vez compreendido, o mercado de opções pode se tornar uma boa alternativa de investimento. "O mercado de opções é um mercado fantástico. Ele te dá grandes oportunidades de ganho, com uma avaliação de risco muito grande, na qual você pode detectar qual a probabilidade da perda acontecer", avaliou.

Antes da euforia, entenda este mercado!
Na análise do professor, mesmo sendo possível investidores não-profissionais investirem neste mercado de opções sobre ações, é preciso que eles tenham conhecimento sobre a modalidade, a fim de evitar que seus investimentos "virem pó", ou simplesmente desapareçam no futuro, segundo a linguagem do mercado.

Para se entender melhor esse conceito, imagine que você tenha acabado de comprar uma call (nome dado à opção de compra) denominada VALEJ46 (onde Vale representa a ação VALE5, J é o vencimento em outubro, dentro de uma escala na qual os meses do ano são representados pelas letras em ordem alfabética, e 46 é o número da série) por R$ 1,32. Ela te dá o direito de comprar a ação da Vale por R$ 46,00 em seu vencimento - no caso, a terceira segunda-feira do mês de outubro -, supondo que este papel esteja valendo atualmente R$ 46,70.

Se por acaso o preço da Vale estiver em R$ 45,00 no vencimento da call, não valerá a pena exercer esta opção, que viraria pó, ou seja, venceria sem ser exercida e perderia sua validade, pois você poderia comprar a ação no mercado à vista por um preço menor que os R$ 46,00 a que te dá direito a call. Mas caso o preço estivesse em R$ 48,00, passaria, então, a ser vantagem exercer seu direito de comprar o ativo por R$ 46,00, para depois vendê-lo por R$ 48,00 e ganhar R$ 2,00 na operação, desconsiderando os custos operacionais. Descontado também o prêmio pago por cada opção (R$ 1,32), o ganho total da operação é de R$ 0,68.

Pereira ressalta que um dos erros cometidos pelos novatos ao investir em opções é aplicar seus recursos na onda positiva do mercado e ser surpreendido lá na frente por uma reviravolta. O professor lembra ainda que, caso o preço da ação no mercado à vista evolua de modo que não compense ao investidor exercer a opção, ele corre o risco de perder o prêmio pago se a situação não for revertida até a data de vencimento da opção, quando esta expira.

Alguns investidores leigos neste mercado nem ao menos sabem que, após o vencimento, a opção "vira pó", ou seja, deixa de existir. "Muita gente acaba perdendo dinheiro por não conhecer direito o mercado em que está investindo, o que é fundamental, pois trata-se das suas economias. São elas que estão em risco", destacou Pereira. "Não é só para profissional. Hoje em dia tem muitas pessoas físicas mexendo com opções, mas conscientemente. É como um relacionamento, você não sai namorando sem conhecer a pessoa primeiro".

Perdas com a compra de opções
Contudo, Pereira ressalva que as perdas das operações com compra de calls (opções de compra) e puts (opções de venda) são limitadas ao prêmio pago pelo investidor para ter o direito de comprar ou vender determinado ativo no futuro. Mas, é claro que isso depende do volume de calls ou puts detido por cada um, que geralmente é elevado, uma vez que os preços das opções tendem a ser muito menores que os das ações comuns. Assim, as perdas também podem atingir valores altos.

Para se entender melhor, voltando ao exemplo da VALEJ46, caso o preço da ação VALE5 estivesse abaixo dos R$ 46,00 na data de vencimento da call, o investidor veria sua opção virar pó, perdendo com isso o prêmio pago para poder ter o direiro de comprar aquela ação a R$ 46,00 em outubro, no caso, de R$ 1,32. Agora, quando considera-se que o investidor detinha 2.500 calls VALE J46, então a perda dele seria de R$ 3.300. 

O mesmo pode ocorrer em uma operação com put (nome dado à opção de venda). Isso porque o investidor paga pelo direito de vender uma ação a um determinado preço, sem que ele tenha esse papel. Por exemplo, imagine que você compre uma put denominada PETRV29 por R$ 2,52, que te dá o direito de vender a ação PETR4, da Petrobras, por R$ 29,00 ao final de outubro. No vencimento da put, se ação estiver valendo R$ 35,00, o investidor teria que comprar o papel mais caro no mercado à vista para poder exercer sua opção, o que não faria o menor sentido.

Neste caso, o mais sensato a ser feito seria abrir mão de suas puts, assumindo o prejuízo pago por elas. Considerando que ele tivesse comprado 3.000 puts PETRV29, a perda deste investidor chegaria a R$ 7.560. Mas, hipoteticamente, caso ele tivesse optado por exercer suas puts, então ele teria obtido um prejuízo de R$ 6 por ação (a diferença entre o preço à vista na data do vencimento, R$ 35, e o valor de exercício da put, R$ 29), o que totalizaria um prejuízo de R$ 18 mil. Quando incluído no fluxo da operação o preço pago pelas opções, o desenbolso do investidor subiria para R$ 25.760.

"No pensamento da put, se o preço da ação cai quem comprou a opção ganha, enquanto que, na call, se o preço [da ação] sobe você ganha. Mas a call é muito mais comum no mercado", destacou Pereira.

STOP: cuidado para seu investimento não "virar pó"
"O principal erro do investidor ao entrar no mercado de opções se resume a uma palavrinha chamada stop. Isso é uma coisa que você não consegue embutir na cabeça, principalmente daqueles que são iniciantes", destacou Zacharias. Segundo ele, "a ambição de ganhar muito dinheiro é uma coisa que às vezes leva a pessoa a entrar em uma operação com valores muito altos, com uma volatilidade também muito elevada. Ele não avalia o grau de risco que ele quer correr e acaba entrando de cabeça", completou.

Zacharias avalia que muitos investidores novatos no mercado de opções se confundem com os fortes ganhos registrados nos momentos de alta da bolsa, mas não se preparam para sair de suas posições na hora certa: em que a bolsa começa a cair. "Ele tem que ser disciplinado para 'stopar', para ele parar as perdas dele".

O analista exemplifica dizendo que se ele comprou uma opção por R$ 10,00 e agora ela está a R$ 1,90, o investidor tem que reavaliar suas posições. "É o momento de refletir. Tem que estar sempre com um limite de perdas em foco", disse. "Nessa hora, o investidor deve parar, zerar a opção e encerrar a sangria. O que nós vemos no mercado é que ele (o investidor novato) compra, o mercado perde, ai ele compra mais, e no fim ele está fazendo um preço médio para baixo e não está parando para avaliar aonde que ele está errando. Por isso, não pode esquecer do stop. Disciplina é fundamental ao investir em derivativos", argumenta Zacharias.

Terceiro erro: carteira alavancada
O terceiro erro mais grave que o investidor novato no mercado de opções pode cometer é a formação de uma carteira alavancada. "Vamos supor que você tenha duas mil ações de Vale que valem R$ 92 mil. Você pode substituí-las por 2 mil opções de Vale por R$ 2.600, que te dão o direito de comprar a ação da Vale por R$ 46,00. Então você vende as ações e compra as calls. Se a Vale subir, você vai ganhar o equivalente a duas mil ações de Vale. Se a Vale cair, esses R$ 2.600 viram pó, desaparecem, mas o máximo que você vai perder é isso. O que acontece é que, ao invés de comprar duas mil opções, o investidor acaba se alavancando, comprando 20 mil opções. O resultado é que se ele compra mais do que aquilo que ele tem a capacidade de absorver, ele pode ter uma perda muito maior do que aquilo que ele estava imaginando", explica Pereira.

De acordo com Pereira, essa alternativa só é indicada a quem realmente entende do mercado e está convicto de que suas expectativas têm mais chances de darem certo do que errado, embora nenhum risco seja descartado.

"Depende do perfil do investidor. Às vezes pode até nem ser um erro. O que acontece é que o investidor que está confiante na alta do mercado pode se alavancar. Por exemplo, mesmo sendo um investidor agressivo, ele tem que ter consciência dessa agressividade dele. Se você simplesmente pega o capital que você ganhou e reinveste tudo, vira pó. Tudo vai virar pó se cair. Se for um investidor leigo e estiver operando alavancado, as consequências podem ser catastróficas", frisou o professor.

Pereira lembra ainda que os investidores tendem a pensar nas opções como ativos comuns, mas se esquecem que se tratam de derivativos, ou seja, está intimamente relacionada com o preço do ativo.

Venda coberta de opções
Apontada como uma saída para prevenir possíveis perdas neste mercado, ou como um hedge com opções, a venda coberta de calls tem se tornado cada vez mais comum entre os investidores.

Em suma, você tem as ações, acha que o mercado pode cair mas não quer se desfazer de seus papéis, então você lança calls na mesma proporção de suas ações, sem se desfazer das ações. Nesse tipo de operação, o investidor que possui um lote de opções de compra tem em sua carteira o correspondente lote negociado em ações que servirão para "cobrir" as eventuais obrigações do investidor que lançou as opções, caso estas sejam exercidas.

Voltemos ao exemplo com ações da Vale. Suponha que o investidor compre dez lotes de ações VALE5, que equivalem a mil papéis, por R$ 47 cada (ou seja, a operação de compra das ações envolve R$ 47 mil). Simultaneamente, o investidor lança mil calls VALEJ45, e recebe R$ 2,50 por papel (R$ 2.500 no total).

Caso o mercado caia e a ação da Vale venha a R$ 45,00, a perda do investidor fica travada. Sem o lançamento das calls, o prejuízo seria de R$ 2 por ação, ou R$ 2.000 considerando que a compra feita foi de dez lotes-padrão. Contudo, com o lançamento das opções, o investidor perdeu R$ 2 por ação (diferença entre o preço pago no mercado à vista, R$ 47, e o preço que o comprador da call pagará por cada ação, R$ 45), mas ganhou R$ 2,50 por cada call vendida no mercado - ou seja, anulou sua perda com o prêmio recebido pelas opções de compra lançadas e ainda saiu da operação com resultado positivo em R$ 500.

 "A ideia é trabalhar com uma certa segurança. Seria um hedge da posição comprada, ou uma venda coberta. Estou achando que o mercado está muito alto, pode ter uma realização, mas seja qual for o motivo eu não vou sair do papel. Então, eu vendo essa posição (a opção de compra), no dinheiro, e ele protege a carteira. A bolsa cai, eu ajusto essa posição através do prêmio que eu vou receber, podendo até mesmo zerar essa queda até o vencimento do papel", explica Zacharias, da Prosper.

Também é possível que o investidor queira limitar os ganhos de sua operação lançando opções de venda na mesma quantidade das ações mantidas em carteira. Sem contar que, caso as puts não sejam exercidas, o investidor embolsa o prêmio recebido pela venda destes papéis.

Atenção às taxas
Para não cair em outro erro e ser pego de surpresa, o investidor sempre deve lembrar das taxas cobradas nas operações com opções. Ao negociar opções, o investidor terá que pagar uma taxa de corretagem, que incide sobre o valor da operação e é cobrada pela própria corretora. Em caso de exercício, a corretagem incide tanto sobre o titular quanto sobre o lançador da opção. Na grande maioria das corretoras, a taxa de corretagem fica em linha com o que é cobrado nas operações no mercado à vista.

Além disso, é cobrada uma taxa de registro das opções na CBLC (Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia), que, assim como a corretagem, incide percentualmente sobre o valor da transação com as opções. As taxas e emolumentos sobre a maioria das operações no mercado de opções são superiores àquelas do mercado a vista.

Por exemplo, uma transação no mercado à vista tem taxas e emolumentos de 0,035%, que cai para 0,025% nas operações de day trade. Já para a maioria de transações com opções de ações, a taxa sobe para 0,135%, já incluindo a taxa de registro, e para 0,045% nos negócios day trade. Para opções sobre índices, as taxas são 0,085% e 0,045%, respectivamente.

 

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