Em mercados

Entenda como as reuniões do Federal Reserve afetam os mercados como um todo

Juro básico dos EUA impacta retrato das bolsas, renda fixa, risco e câmbio; expectativas cumprem papel fundamental

SÃO PAULO - Dias de reunião do Federal Reserve habitualmente são marcados por ansiedade dos investidores. Além da reação do mercado na data do evento, as expectativas acerca da postura da autoridade monetária norte-americana estendem os reflexos do encontro para intervalo de tempo ainda mais abrangente.

De maneira geral, a reunião do Fomc (Federal Open Market Committee) figura para os mercados internacionais como o ator principal de uma agenda de indicadores.

Atualmente, a ferramenta mais tradicional de política monetária norte-americana está limitada. Com objetivo de estimular o crescimento econômico e responder aos impactos da crise, o Federal Reserve deixou o juro básico no intervalo entre 0% e 0,25% ao ano, sem espaço para cortes adicionais. Como o contexto ainda pede mais estímulo à atividade econômica e menos preocupação inflacionária, as atenções com a reunião se voltam à impressão do colegiado sobre o momento atual da economia; a decisão sobre o juro básico em si, fica em segundo plano, mas há grande expectativa de que possa haver estímulos para a redução das taxas de longo prazo.

A atenção dada pelo mercado resume bem a importância do evento. Não se trata apenas de efeitos isolados sobre a maior economia do mundo. O rumo da taxa básica de juro norte-americana impacta os mercados como um todo. Seus movimentos são sentidos não só no humor dos investidores ou na tendência dos índices acionários, mas na renda fixa, câmbio, indicadores de risco; conjuntura econômica de fronteiras além dos limites territoriais norte-americanos.

Entenda a taxa
Interpretar os desdobramentos de uma alteração na Fed Funds Rate ou na manutenção do juro básico parte necessariamente do entendimento da taxa. A Fed Funds Rate relaciona a margem das operações no mercado financeiro que possuem lastro tanto em títulos públicos quanto nas taxas interbancárias, que não deixam de acompanhar a meta de juro do banco central.

Resumindo: aumento no juro remete imediatamente a aperto monetário, encarecimento do crédito; enquanto uma redução na taxa representa facilidade de financiamento pela incidência de juros menores, estímulo ao fluxo de investimentos, afrouxo monetário.

Por se tratar da maior economia do mundo, os movimentos da Fed Funds Rate têm tanta importância. O fluxo de investimentos na bolsa brasileira, por exemplo, se deve em grande proporção aos grandes fundos e investidores estrangeiros. Apenas esta premissa já explica em grande parte a reação dos mercados ao evento.

Começando pela bolsa...passando pela renda fixa
Começando pela bolsa, uma redução no juro básico norte-americano tende a impulsionar o fluxo de investimentos na renda variável, exatamente pelos tópicos descritos anteriormente. Com maior volume de investimentos e liquidez, a tendência natural é de impulso aos índices acionários de Wall Street.

É aí que entra o impacto sobre a bolsa brasileira. O grande número de aplicações provenientes destes fundos e investidores estrangeiros no mercado doméstico associa a resposta de Wall Street ao desempenho do Ibovespa.

Uma outra abordagem fica por conta do impacto do custo do crédito sobre as empresas listadas em bolsa. Juros mais altos ou baixos influenciam diretamente os balanços financeiros das empresas de capital aberto, impactando assim o preço das ações. Não obstante, a variação da taxa básica de juro enquanto medida de controle de inflação também mexe com as expectativas não só dos investidores, mas também no lado produtivo, no que concerne às estimativas de comportamento de preços e tomada de decisões de investimento diante deste quadro, o que não passa despercebido pelas cotações dos ativos.

Outra repercussão imediata do evento é na renda fixa. Os títulos públicos e demais alternativas de aplicação na renda fixa em grande parte são atrelados às taxas básicas de juro. Alta no juro básico, assim, sugere maiores taxas de retorno para as notas de renda fixa; em outras palavras, maior atratividade desta opção frente à renda variável, consequentemente, maior procura pelas mesmas.

Este desdobramento também influencia na relação com as ações. Um aumento no juro básico amplia a atratividade da renda fixa e reforça a ideia do impacto positivo de quedas na Fed Funds Rate para as ações. O caso contrário, de redução no juro básico, favorece uma migração para a renda variável e tende a refletir negativamente na demanda pela renda fixa.

Impacto na cotação do dólar
No mercado interno, estes desdobramentos também evidenciam a entrada de capital estrangeiro no Brasil e consequentemente trazem outro mercado à cena, o de câmbio. Um estímulo à aplicação na renda variável amplia a procura dos investidores estrangeiros pelas ações brasileiras, mais arriscadas, porém com potenciais de valorização superiores aos ativos norte-americanos.

A mesma linha de raciocínio pode ser adotada nas aplicações de renda fixa. Uma alta no juro norte-americano eleva a atratividade dos títulos dos EUA frente aos papéis brasileiros, sendo que o contrário também é válido.

Sendo assim, o impacto de mudanças na Fed Funds Rate sobre a renda fixa e variável doméstica também é sentido na relação dólar/real. A entrada de capital externo pressiona a cotação da moeda norte-americana frente à brasileira, com a fuga de divisas estrangeiras gerando o efeito contrário. Esta afirmação parte basicamente da relação entre oferta e demanda de dólares no mercado interno.

Risco-Brasil também sente
Especificamente pelos impactos na renda fixa é que a variação da Fed Funds Rate incide sobre o indicador de risco-Brasil, tendo em vista que o mesmo é calculado a partir da relação entre os títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) e da dívida externa brasileira negociados no exterior (Globais).

Os papéis assegurados pelo Tesouro dos Estados Unidos são considerados de risco zero, pois são emitidos por um país com histórico de pagamentos em dia e sem sobressaltos, com maior facilidade para captar dinheiro a uma taxa muito inferior a de países com histórico recente de problemas de crédito.

Sendo assim, a disputa dos títulos destes países pelos investidores depende do prêmio de risco de cada país. Como é mais seguro aplicar na nota do governo dos EUA, o título brasileiro tende pagar ao investidor um prêmio por assumir o risco de ter escolhido um Global.

O papel das expectativas
Além dos desdobramentos imediatos de uma alteração em seus patamares, a Fed Funds Rate também gera profundas repercussões nos mercados a partir das expectativas dos analistas para seu rumo.

Como grande parte dos movimentos são antecipados na bolsa, por exemplo, parcela considerável do real impacto da notícia já vem precificada a cada projeção divulgada.

 

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