2021 repetirá 2020?

Magazine Luiza, Via Varejo e B2W: o que os resultados das companhias do 4º trimestre trouxeram de sinais para 2021?

Depois de forte desempenho em 2020, expectativa é de competição ainda mais acirrada e companhias implementando iniciativas para enfrentar esse cenário

SÃO PAULO – Em meio à pandemia do coronavírus que levou a maiores restrições de mobilidade e impulsionou as atividades online, no geral, as ações das empresas com grande exposição ao e-commerce se destacaram em 2020. Contudo, algumas tiveram um desempenho muito expressivo, enquanto outras não se destacaram tanto – o que também pode dar sinais sobre o que esperar delas em 2021.

Entre as ações que compõem o Ibovespa, o Magazine Luiza (MGLU3) viu seus papéis subirem 110% no ano passado, enquanto Via Varejo (VVAR3), dona das Casas Bahia e Ponto Frio, teve alta de cerca de 45% de seus papéis. Entre as com desempenho mais tímido, os papéis da B2W (BTOW3) tiveram ganhos de cerca de 20%; já a sua controladora, a Lojas Americanas (LAME4), teve ganhos de apenas 1,5% . Para efeito de comparação, a alta do Ibovespa no período foi de 2,92%.

Alguns números apresentados pelas companhias do quarto trimestre de 2020 nos últimos dias também acabaram por confirmar a diferença entre elas durante todo o ano. As vendas do e-commerce das empresas citadas registraram forte salto, mas com o Magalu se destacando, em alta de 120,7% das vendas brutas de mercadoria (GMV, na sigla em inglês) na comparação anual, enquanto Via Varejo teve alta de 106% e B2W mostrou crescimento de 38,2%.

O Magalu, assim, seguiu como destaque entre as companhias do setor. A varejista encerrou o quarto trimestre de 2020 com alta de 30,6% no lucro líquido, para R$ 219,5 milhões. Já em termos “ajustados”, sem considerar as despesas e receitas não recorrentes, o lucro líquido trimestral somou R$ 232,1 milhões, alta de 39,8% sobre outubro a dezembro de 2019. A varejista viu suas vendas totais crescerem 66% no período, a R$ 14,9 bilhões, com o e-commerce representando 63,8% do total.

Na avaliação da XP Investimentos, o Magalu reportou sólidos resultados referentes ao quarto trimestre de 2020, levemente acima dos números dos analistas, explicado tanto por um crescimento de GMV online acima das estimativas e dos pares, como também por uma performance de varejo físico bastante resiliente, com crescimento de vendas mesmas lojas em 10,9% na base anual.

Além disso, a empresa divulgou uma prévia de crescimento para o primeiro trimestre de 2021, com o e-commerce crescendo triplo dígito baixo (de cerca de 100%) nos dois primeiros meses de 2021, mas com uma sinalização mais cautelosa para o varejo físico devido ao aumento de restrições.

Para frente, apesar de ver manutenção do forte ritmo de crescimento do GMV do e-commerce nos primeiros meses do ano como positiva, os analistas da XP apontam que está em linha com as estimativas para o ano.

No entanto, aponta, o cenário para frente é um pouco mais cauteloso para loja física dado o aumento de restrições relacionado ao Covid, o que pode ser um risco negativo nesse canal (a expectativa da XP é de crescimento nas mesmas lojas de 7,8% na base anual para o primeiro trimestre de 2021).

A Levante Ideias de Investimentos destaca, por sua vez, que a companhia vem se mostrando capaz de consolidar o mercado de e-commerce, como vem demonstrando através de seu crescimento acima da média dos outros players. Porém, aponta: “O começo de 2021 parece se mostrar mais desafiador para a companhia, além do fato de continuar o forte ritmo de crescimento se tornar mais difícil conforme a empresa se torna maior, enquanto a incerteza macroeconômica e fiscal do país vem se mostrando um obstáculo para empresas de forte crescimento”, avaliam.

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A Via Varejo (VVAR3), dona das Casas Bahia e Ponto Frio, também divulgou números considerados sólidos. Contudo, os dados não brilharam os olhos do mercado, o que aumenta ainda mais a cautela sobre os desafios da companhia no radar.

A Via Varejo registrou lucro líquido de R$ 336 milhões no quatro trimestre de 2020, revertendo o prejuízo de R$ 875 milhões visto no mesmo período do ano anterior. O desempenho foi impulsionado por uma “transformação digital” acelerada pela pandemia de coronavírus, segundo a companhia.  Vale destacar que os resultados do trimestre foram ajustados a diversos efeitos não recorrentes, como créditos fiscais e previdenciários, que somaram R$ 127 milhões no período. Ao desconsiderar o montante, os ganhos são de R$ 209 milhões.

A empresa ainda tem uma base de comparação anual mais baixa frente aos seus concorrentes, uma vez que boa parte da sua operação ainda é em lojas físicas. Contudo, isso também leva a um maior potencial de crescimento nos próximos trimestre. A varejista também tem uma base instalada robusta (ou seja, 27 centros de distribuição, 1.052 lojas e grande carteira de clientes), o que pode representar uma plataforma sólida para aumentar sua participação de mercado, na avaliação do Credit Suisse.

O banco também apontou que a empresa apresentou o quinto trimestre consecutivo de resultados sólidos, o que é naturalmente uma boa indicação sobre as novas iniciativas a serem entregues. Enquanto isso, os analistas da XP destacam diversas iniciativas a serem entregues em 2021 na frente operacional, logística e financeira que, na avaliação deles, devem gerar valor ao longo do tempo. Além disso, acreditam que a forte adição de vendedores no marketplace, tendo encerrado o ano com 10 mil lojistas ativos e hoje já contando com 15 mil lojistas na plataforma (alta de 50% em dois meses), é um fator positivo a ser bem recebido pelo mercado.

Já para a Safra Corretora, o balanço da empresa mostrou uma melhora consistente em suas operações, conseguindo recuperar a capacidade de execução e participação de mercado, também avaliando que a administração está agilizando uma série de iniciativas, como o ‘Me chama no zap’, bem como crédito digital ao consumidor e a Envvias, plataforma de serviços logísticos para o marketplace.

“As iniciativas da empresa são importantes para navegar um ambiente mais desafiador e competitivo, em que o Mercado Livre vem aumentando os investimentos em logística e a B2W tem ajustado sua política comercial para impulsionar o crescimento de vendas. Esperamos que a Via Varejo use seu forte relacionamento com fornecedores, grande base de clientes e presença física em todo o país para continuar acumulando ganhos de participação de mercado”, apontam os analistas.

No caso da B2W e Lojas Americanas, os resultados foram vistos como mistos pelo mercado. Contudo, para 2021, apontaram para um cenário mais promissor. A Lojas Americanas (LAME4 registrou lucro líquido de R$ 400,4 milhões no quarto trimestre de 2020, valor muito próximo aos R$ 398 milhões apurados no mesmo período de 2019. Enquanto isso, a B2W (BTOW3registrou lucro líquido de R$ 15,6 milhões no quarto trimestre de 2020. No mesmo período do ano anterior, a companhia havia registrado prejuízo de R$ 22,3 milhões.

Conforme destaca a Levante, o resultado da B2W veio um pouco abaixo do esperado, mas a empresa voltou a apresentar lucro líquido no trimestre, ainda que modesto, puxado pela forte alta das vendas e melhora na eficiência operacional. Os analistas da casa de research apontam que a companhia ainda encontra dificuldades em rentabilizar sua base grande de vendas no segmento 3P (marketplace – produtos de terceiros), que possui margens maiores, enquanto ainda consome boa parte da estrutura logística, além da estratégia adotada em períodos anteriores que visava o aumento de GMV em detrimento do Take-Rate (taxa de serviço pelo uso da estrutura de marketplace).

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Ao falar tanto de Americanas quanto de B2W, a XP Investimentos apontou que o resultado foi um pouco acima do que estava esperando, ainda que fraco, por conta de uma margem bruta um pouco acima na B2W e menores despesas operacionais na LASA.

Contudo, a B2W ainda teve crescimento relativamente baixo de vendas, enquanto a Americanas foi negativamente impactada pelas restrições de Covid no fim do ano. No mesmo sentido, o Bradesco BBI ressalta que a B2W adicionou apenas R$ 2,5 bilhões em valor bruto de vendas on-line no quarto trimestre de 2020, levemente acima dos R$ 2,4 bilhões da Via Varejo, que o banco define como a plataforma menos avançada atualmente.

Porém, entre os sinais positivos, a B2W também divulgou os números de crescimento de GMV em janeiro e fevereiro de 2021, tendo acelerado de forma relevante versus o quarto trimestre para 83% e 90% na comparação anual, respectivamente, mostrando evolução na estratégia das companhias.

“Vemos a aceleração do ritmo de crescimento do GMV de B2W nos primeiros meses do ano como positiva e está em linha com nossa expectativa de que a B2W se destaque em 2021 em termos de ganhos de participação de mercado devido a uma base de comparação “mais fácil” (já que seu marketplace foi mais prejudicado em 2020) aliada a melhores condições oferecidas aos seus vendedores parceiros do marketplace e consumidores”, apontam os analistas da XP.

Na mesma linha, a Levante ressalta que a virada para o lucro líquido no trimestre e melhorias mais concretas da estratégia iniciada em 2020 começando a dar frutos, com o bom desempenho operacional em janeiro e fevereiro de 2021, são sinais positivos.

Além disso, também está no radar o anúncio feito pelas companhias no final do mês passado de estudos para uma fusão. Através dessa operação, será possível finalmente integrar as operações online robustas da B2W com as mais de 1.700 lojas da Americanas, criando um sistema multicanal completo (Via Varejo e Magazine Luiza já possuem estrutura consolidada). Outro fator positivo é impulsionar as margens pela maior participação do segmento 1P (Estoque Próprio) e com a possibilidade de ganho de escala na etapa last mile (última milha) das entregas.

Os analistas apontam outras iniciativas, como a melhora gradual de sua relação com os lojistas do marketplace, as melhorias da estrutura da loja virtual, comissionamento e ampliação do alcance do fullfilment (quando o lojista tem acesso e utiliza a estrutura logística da B2W – em termos simplificados) e abertura de mais 5 centros de distribuição. Já a entrega rápida, em até 24 horas, representou 40% das vendas no quarto trimestre de 2020, enquanto houve crescimento das entregas em até 3 horas (11,5% das vendas). A Ame Digital também teve crescimento, contando com 17 milhões de usuários enquanto que, em fusões e aquisições, as compras de Bit Capital e Parati devem acelerar a frente de inovação, abrindo novas frentes de melhora na eficiência operacional e monetização.

Assim, aponta a Levante, a B2W parece acelerar os passos para alcançar seus principais concorrentes. O ponto de observação principal agora é se a empresa será capaz de realizar a virada para o positivo na geração líquida de caixa das suas operações, avalia.

Potencial de ganhos e riscos no radar

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Depois de apresentados os resultados do quarto trimestre, o que esperar para as ações das companhias? A maior parte dos analistas segue positiva com os papéis, conforme pode ser observado no quadro abaixo, de acordo com compilação feita pela Refinitiv com as casas de análise que cobrem os ativos:

EmpresaTickerRecomendações de compraRecomendações neutrasRecomendações de vendaPreço-alvo médioUpside*
Magazine LuizaMGLU31040R$ 26,17+5%
Via VarejoVVAR3951R$ 20,86+72%
B2WBTOW31050R$ 109,89+62%
Lojas AmericanasLAME41410R$ 36,43+66%
*em relação ao fechamento de 10 de março

Apesar da indicação positiva, alguns temas estão no radar dos analistas de mercado sobre as companhias. Para algumas, caso da Via Varejo, o foco é maior em como ela vai enfrentar a concorrência. Já para o Magalu, muitos analistas, mesmo destacando o forte desempenho da empresa e a sua capacidade de reinvenção, destacam a ação MGLU3 como cara, sem tanto espaço para subir (como pode ser observado no quadro acima, uma vez que ela possui o menor potencial de valorização por uma larga diferença).

B2W, por sua vez, ainda apresenta desafios, mas já há bons sinais e também avaliações positivas com os estudos para fusão com a Lojas Americanas.

O Credit Suisse, por exemplo, mantém recomendação neutra (expectativa de valorização dentro da média do mercado) para MGLU3, com preço-alvo de R$ 24,97. Apesar desta recomendação, os analistas reforçam: embora os múltiplos pareçam mais altos, o Magazine Luiza sempre provou sua atratividade após superar sucessivamente as estimativas.

“Nós reconhecemos que existem algumas preocupações sobre o desempenho de 2021, principalmente considerando a incerteza do cenário de consumo no Brasil, as difíceis bases de comparações, o impacto do câmbio no segmento eletrônico, entre outros. No entanto, o Magalu tem mostrado constantemente que é capaz de se reinventar e continuar a ter um forte desempenho, superando a entrega em uma base relativa”, avaliam.

Apesar do ambiente incerto, os analistas acreditam que Magalu é uma história menos baseada no cenário macroeconômico e mais baseada em suas múltiplas oportunidades internas que ainda não geraram resultados positivos, como as aquisições estratégicas, o aprimoramento da logística, o MaaS e o MagaluPay ainda em estágios iniciais, além do grande espaço para penetração do e-commerce no Brasil. Assim, há espaços para surpresas positivas.

Leia também: Magalu mira expansão em 5 setores para se tornar o “sistema operacional do varejo no Brasil” em 2021, diz Fred Trajano

Já sobre Via Varejo, os analistas do banco apontam que a companhia apresentou o quinto trimestre consecutivo de resultados sólidos, o que é naturalmente uma boa indicação sobre as iniciativas a serem entregues. “Nosso time continua otimista com o case considerando a combinação de execução e o valuation descontado. Se a Via Varejo provar sua capacidade de acelerar o ritmo de crescimento do marketplace, acreditamos que isso pode ser um catalisador para a ação”, avalia o Credit, que possui recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ativos, com preço-alvo de R$ 24 por papel.

A Safra Corretora também possui recomendação de compra para VVAR3, com preço-alvo de R$ 27, e destaca que as iniciativas da empresa são importantes para navegar um ambiente mais desafiador e competitivo, em que o Mercado Livre vem aumentando os investimentos em logística e a B2W tem ajustado sua política comercial para impulsionar o crescimento de vendas. “Esperamos que a Via Varejo use seu forte relacionamento com fornecedores, grande base de clientes e presença física em todo o país para continuar acumulando ganhos de participação de mercado”.

Já os analistas da XP possuem recomendação neutra para os papéis VVAR3, com preço-alvo de R$ 20, destacando o cenário desafiador para a companhia, apesar das boas iniciativas. No começo de fevereiro, a XP reduziu a recomendação de compra para neutra, além de reduzir o preço-alvo (que antes era de R$ 28) para o atual, apontando que, embora veja muito potencial de crescimento tanto no canal físico quanto no digital, a empresa pode decepcionar as expectativas dos investidores devido a obstáculos de curto prazo, principalmente relacionados a um ambiente competitivo mais desafiador.

“Depois de 2020, em que os consumidores inundaram o canal digital, devemos ver fortes ​​investimentos dos principais competidores para atrair clientes em 2021 e entregar crescimento em comparação com a base difícil de 2020. Como resultado, acreditamos que a Via Varejo pode enfrentar algumas dificuldades para entregar seu turnaround [virada] em meio a uma competição mais acirrada. Continuamos a ver um sólido potencial de alta para a ação, mas avaliamos como neutro devido aos riscos de execução”, apontaram, mantendo essa tese depois da divulgação dos resultados.

Com relação à Lojas Americanas e à B2W, a XP mantém recomendação de compra para os papéis das duas companhias, com preço alvo de R$ 121 e de R$ 36 por ação para o fim de 2021 para BTOW3 e LAME4, respectivamente. Para a Lojas Americanas, os analistas destacam maior capilaridade, forte presença no online (com a B2W) e uma instituição de serviços financeiros em crescimento por meio da Ame. Na avaliação dos analistas, a empresa está bem posicionada para crescer em 2021, pois enfrenta uma base de comparação mais fraca em relação aos seus pares, oferece um portfólio de produtos mais diversificado em seu marketplace e por conta das novas medidas para melhorar a experiência de vendedores e clientes.

O Bradesco BBI, por sua vez, mantém recomendação neutra para ambos os papéis. Apesar de celebrar as iniciativas para tornar a B2W mais competitiva, o banco também aponta que, provavelmente, isso tornará o mercado como um todo mais
agressivo em várias frentes, como em questões de frete, precificação e aquisições no segmento logístico. Assim, a preocupação em torno  do acirramento da disputa entre as maiores do setor (o que inclui Mercado Livre, Magalu e Via Varejo) segue levando a estimativas mais conservadoras por parte dos analistas.

“Nossa preferência entre as companhias de e-commerce continua a ser de empresas menores, de nicho como a Enjoei  (ENJU3), com menos exposição às categorias de eletrônicos e eletrodomésticos e pelo fato de atuar em uma categoria com baixa penetração do e-commerce com alto potencial de crescimento”, avaliam.

Assim, a expectativa é positiva para as companhias, mas o cenário concorrencial será acompanhado de perto pelos investidores.

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