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Ibovespa sobe após cair até 3 mil pontos com “efeito Bolsa Família”: o que explica?

Movimento reacendeu preocupações com a trajetória fiscal e levou investidores a exigir prêmios maiores para carregar ativos domésticos, mas índice atenuou baixa

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A sessão é de volatilidade para o Ibovespa nesta quinta-feira (17), em meio a repercussão de pesquisas eleitorais, decisões de juros no Brasil e nos EUA e anúncio do Bolsa Família.

O Ibovespa abriu com ganhos, mas chegou a cair 1,24%, a 183.242,27 pontos, na mínima do dia, por volta das 10h45 (horário de Brasília), depois do anúncio do reajuste de 15% no Bolsa Família, movimento que reacendeu preocupações com a trajetória fiscal e levou investidores a exigir prêmios maiores para carregar ativos domésticos.

Contudo, o índice foi amenizando as baixas no início da tarde e depois voltou a operar com ganhos, voltando a operar acima dos 186 mil pontos. Às 13h19 (horário de Brasília), o benchmark da Bolsa subia 0,56%, a 186.588 pontos.

Houve indicações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, de que o aumento “cabe no Orçamento”. Mas, além disso, conforme aponta Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a recuperação se dá com o mercado ainda ponderando os efeitos dados recentes das pesquisas, especificamente a da AtlasIntel divulgada na manhã desta quinta, apontando para um fortalecimento expressivo de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, bem como um distanciamento maior entre os candidatos no segundo turno, no qual ele aparece numericamente à frente e com vantagem superior à observada no início do mês ante Lula. Contudo, cabe destacar, eles seguem tecnicamente empatados.

“Também há a interpretação de mercado de que o efeito do Bolsa Família pode não ser um elemento decisivo. Tomando como referência o próprio governo de Jair Bolsonaro, o aumento expressivo do benefício em 2022, por meio da ‘PEC Kamikaze’, não foi suficiente para reverter o cenário eleitoral, culminando em uma derrota expressiva na região Nordeste”, avalia o especialista.

Perri complementa ao observar um cenário análogo, mas com nuances distintas: o governo Lula tem ampliado o Bolsa Família, mas, fundamentalmente, essa medida impacta um eleitorado que já lhe é favorável, sem demonstrar eficácia na conquista de novos apoios. “Nesse sentido, acredito que essa comparação sirva como uma referência importante para a análise”, aponta.

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Leia também: Tesouro Direto sai do ar com volatilidade após anúncio de reajuste do Bolsa Família

Para parte dos investidores, o tema fiscal continua sendo um dos principais fatores de diferenciação entre os cenários eleitorais, o que aumenta a sensibilidade dos ativos a qualquer anúncio com impacto potencial sobre gastos públicos.

Além dessa avaliação, a alta da Vale (VALE3), que tem grande participação do Ibovespa, também dão alívio para o Ibovespa. As ações sobem cerca de 2% em linha com o movimento de mineradoras no exterior. Na China, o contrato futuro de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Commodities de Dalian fechou o pregão diurno com alta de 0,28%, a 710,5 iuanes (US$105,92) por tonelada.

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Super Quarta no radar

Até antes do anúncio do Bolsa Família, os investidores concentravam suas atenções na chamada “Super Quarta”. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual, enquanto no Brasil o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14% para 13,75%, em linha com as expectativas.

Para Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3, o principal efeito conjunto dessas decisões é a redução gradual do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.

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“A frase principal desta semana e dos próximos meses é que o carry trade está diminuindo”, afirma. Segundo ele, o tema tende a ganhar relevância crescente para os investidores estrangeiros, reduzindo parte da atratividade relativa dos ativos brasileiros.

A avaliação é compartilhada por João Daronco, analista da Suno Research. Segundo ele, tanto a decisão do Fed quanto a do Copom já estavam precificadas pelos mercados.

“Sempre existe algum movimento de realização de lucros, mas a diminuição do diferencial de juros deixa o Brasil relativamente menos interessante para o investidor estrangeiro do que era anteriormente”, diz.

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Fiscal volta ao centro das atenções

O anúncio do reajuste do Bolsa Família, no entanto, alterou pontualmente o foco do mercado durante a manhã. Mesmo com o efeito mais imediato atenuado no mercado, as preocupações fiscais seguem no radar dos investidores.

Segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, o aumento de 15% no benefício terá custo de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027, com o governo argumentando que o impacto será absorvido pelo espaço fiscal disponível.

Para João Ferreira, sócio da One, a medida reforça as dúvidas do mercado sobre uma trajetória mais favorável para as contas públicas.

“Medidas como essa em período eleitoral não são novidade no Brasil. Elas apenas indicam aprofundamento ou continuidade de uma política fiscal expansionista”, afirma.

Na mesma linha, Gustavo Assis, CEO da Asset, avalia que o anúncio deslocou o eixo de precificação dos mercados.

“O anúncio do reajuste do Bolsa Família alterou o eixo do pregão. Pela manhã, o mercado reagia principalmente às decisões do Copom e do Federal Reserve, com queda do dólar e tentativa de recuperação do Ibovespa. Depois do anúncio, a questão fiscal voltou ao centro da precificação, levando o câmbio a virar para alta e a Bolsa a intensificar as perdas”, afirma.

Segundo ele, a principal preocupação dos investidores não está associada ao programa social em si, mas à ausência de detalhes sobre sua compensação fiscal. “O problema está na combinação entre o caráter permanente da despesa e a falta de clareza sobre como ela será financiada. O impacto é relativamente pequeno em 2026, mas alcança cerca de R$ 22 bilhões em 2027”, destaca.

O anúncio, afirmou Gustavo Silva, sócio-fundador da Private Investimentos, volta a colocar a questão fiscal no centro das atenções. “A medida tem um efeito social e de renda importante, mas, sob a ótica do mercado, o momento do anúncio e o aumento de despesas levantam novamente dúvidas sobre a trajetória dos gastos públicos e a sustentabilidade da dívida no longo prazo.”

De acordo com Silva, permanece uma percepção maior de incerteza fiscal, justamente em um momento em que o país ainda convive com juros muito elevados. “Para o mercado, tão importante quanto a direção dos juros é a previsibilidade da política econômica e a confiança de que as contas públicas permanecerão sustentáveis ao longo do tempo.”

Agentes financeiros têm defendido medidas para melhorar o quadro fiscal do país, em meio à trajetória crescente da dívida pública em relação ao PIB. Pesquisas eleitorais recentes mostrando uma disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) para o Planalto têm repercutido positivamente no mercado, uma vez que alimentam apostas de mudanças em Brasília com reflexos na política fiscal.

Na avaliação de Assis, a incerteza sobre a origem dos recursos necessários para financiar o aumento do benefício tende a provocar uma reabertura dos prêmios exigidos pelo mercado.

“Os juros futuros, especialmente nos vencimentos mais longos, tendem a subir para incorporar riscos maiores de inflação, endividamento e deterioração fiscal”, afirma.

Esse movimento afeta diretamente a precificação das empresas listadas, especialmente aquelas mais dependentes da economia doméstica.

“A alta da curva reduz o valor presente das companhias, eleva o custo de capital e penaliza principalmente setores como varejo, construção civil e empresas mais endividadas”, explica.

No câmbio, o mecanismo é semelhante. Segundo Assis, o aumento da percepção de risco fiscal eleva a demanda por proteção e pode sobrepor fatores que, em tese, favoreceriam o real, como o diferencial de juros ainda elevado frente aos países desenvolvidos.

Corte da Selic

O enfraquecimento da reação positiva ao corte de juros também chamou atenção dos analistas.

Na véspera, embora tenha reduzido a Selic para 13,75%, o Copom manteve avaliação cautelosa para o quadro inflacionário, destacando que os riscos continuam elevados e com assimetria altista.

Para Assis, isso significa que uma política fiscal mais expansionista pode limitar justamente os benefícios esperados do ciclo de afrouxamento monetário.

“A decisão do Copom não é anulada pelo anúncio. Mas uma expansão fiscal sem compensação tende a reduzir o espaço para novos cortes de juros ou exigir uma postura mais conservadora do Banco Central”, afirma.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.