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Ibovespa: por que índice caiu “apenas” 0,54% na sessão pós tarifaço de Trump?

Alta de ações de mineração e siderurgia com valorização do minério foram um contrapeso importante, ao mesmo tempo em que o efeito da nova tarifa ficou concentrado em algumas ações

Felipe Moreira Lara Rizério Agências de notícias

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O Ibovespa fechou em queda nesta quinta-feira, mas distante da mínima, conforme o efeito do anúncio de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos aos produtos do Brasil concentrou-se em alguns papéis, como Embraer (EMBR3), enquanto Vale (VALE3) teve desempenho robusto, atuando como contrapeso positivo com a alta do minério, o que ajudou a amenizar a baixa do índice. A commodity subiu 3,67% hoje em Dalian, na China.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa encerrou com declínio de 0,54%, a 136.743,26 pontos, após chegar a 136.014,47 pontos na mínima do dia (-1,07%). Na máxima, marcou 137.471,88 pontos (-0,01%). O volume financeiro somou R$26,3 bilhões.

Após o fechamento do pregão na quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma tarifa de 50% sobre todas as exportações do Brasil para aquele país a partir de 1º de agosto, separada de todas as tarifas setoriais existentes — caso do aço e do alumínio, por exemplo.

Viva do lucro de grandes empresas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que seu governo primeiro buscará negociar com os EUA, mas alertou que adotará a reciprocidade caso essas conversas não deem frutos.

Entre estrategistas, a avaliação é de que a medida tem um impacto direto limitado na economia e no mercado de ações, embora possa afetar de forma mais acentuada algumas empresas e ter reflexos indiretos na taxa de câmbio e na inflação, além de adicionar incertezas e volatilidade aos negócios.

“Embora as tarifas unilaterais dos EUA sobre o Brasil não sejam totalmente irrelevantes, seu impacto macroeconômico seria modesto”, avaliou o economista-chefe da gestora ARX, Gabriel Barros, citando que o perfil de exportação do país, centrado em commodities com demanda global, oferece uma valiosa proteção.

“Quando combinado com uma resposta coordenada de política econômica, o Brasil está bem posicionado para neutralizar efeitos adversos e preservar a estabilidade econômica, mesmo em um cenário de aumento do protecionismo comercial global”, afirmou Barros.

No mesmo sentido, estrategistas do Santander chefiados por Aline Cardoso afirmaram em relatório enviado a clientes que, a menos que a situação se agrave ainda mais, não antecipam um impacto relevante sobre as ações brasileiras, com exceção de algumas empresas específicas.

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Parceria comercial e desafios

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, tanto em exportações quanto em importações, respondendo por 12% e 15% do total, respectivamente, o que somou US$ 40,3 bilhões em 2024 — o equivalente a 1,9% do PIB. Apesar da relevância, a XP avalia que o impacto potencial das tarifas pode ser limitado, já que a maior parte das exportações brasileiras para os EUA é composta por commodities, que tendem a ser redirecionadas para outros mercados.

No lado das importações, a XP destaca que os equipamentos de geração de energia lideram a pauta, mas com uma composição menos concentrada em relação às exportações. Entre as empresas listadas, a casa aponta a Embraer (EMBR3) como a mais exposta ao novo cenário, seguida por Suzano (SUZB3) e Tupy (TUPY3).

Para a Vale (VALE3), o impacto é limitado considerando a pequena porcentagem de receitas nos EUA, inferior a 1%. Nas siderúrgicas, as tarifas já estão em vigor e a exposição é baixa.

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No setor discricionário, Azzas (AZZA3) e Alpargatas (ALPA4) têm cerca de 10% das receitas nos EUA, mas o JPMorgan avalia que o impacto não será tão relevante.

“O impacto para as empresas de petróleo deve ser limitado, pois suas receitas estão principalmente ligadas aos preços internacionais das commodities, e a tarifa levaria basicamente a ajustes nos mercados de exportação”, apontam. Já para as distribuidoras de combustíveis, o mercado é essencialmente doméstico, mas podem enfrentar consequências indiretas que afetem a dinâmica das importações, como flutuações cambiais e volatilidade do mercado.

A XP também chama atenção para possíveis efeitos indiretos que devem ser monitorados, como a resposta do governo brasileiro ao anúncio, a chance de escalada para uma crise geopolítica mais ampla ou, alternativamente, a abertura de uma negociação comercial com os EUA. Além disso, há potenciais implicações sobre o câmbio, os fluxos financeiros, o investimento direto estrangeiro (IDE) e as eleições presidenciais brasileiras de 2026.

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O JPMorgan comenta que o anúncio de Trump foi um “banho de água fria” para o mercado acionário brasileiro, que vinha registrando entrada contínua de capital estrangeiro nos últimos três meses, em um momento positivo. Embora seja difícil prever como os mercados vão reagir, não se descarta um agravamento do cenário até que haja uma definição mais clara.

A Genial Investimentos destaca que “a despeito do histórico de idas e vindas na política comercial do governo Trump, a especificidade do caso brasileiro (que acabou ganhando contornos mais políticos do que econômicos) contribui para que seja mais difícil para os EUA considerarem voltar atrás dessa decisão”.

Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, ainda assim, a tarifa de 50% anunciada por Trump representa um desafio para o Brasil. O impacto direto será sentido nos setores exportadores, mas o efeito indireto pode ser uma retração nos investimentos e maior volatilidade econômica.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu em nota oficial afirmando que qualquer medida unilateral de elevação de tarifas será respondida com reciprocidade, e destacou que o Brasil é um “país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”.

Na frente de dados, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,24% em junho, recuando 0,02 ponto percentual (p.p.) em relação a abril (0,26%). O dado veio ligeiramente acima do esperado.

Veja os destaques de ações do dia:

DESTAQUES

(Com Reuters)