SLCE3: Guerra e fertilizantes ameaçam custo da safra brasileira, diz CEO da SLC

Brasil importa 95% dos fertilizantes que consome; país até tem reservas de fósforo e potássio, mas a extração local custa muito mais caro do que importar. Já o nitrogênio exige gás natural barato, insumo escasso no Brasil

Osni Alves

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O conflito no Oriente Médio que já pressiona o preço do petróleo e ameaça rotas de navegação chegou ao campo brasileiro com força. Para Aurélio Pavinato, presidente da SLC Agrícola (SLCE3), a guerra está encarecendo fertilizantes, mas também elevando o preço das commodities que o país exporta — e, no médio prazo, deve fortalecer a demanda por produtos agrícolas brasileiros.

“A guerra gera toda essa volatilidade, esse risco momentâneo, mas ela gera incerteza de quão caro, quão barato vai ser o petróleo ao longo dos próximos anos”, disse Pavinato em entrevista ao programa Expert Talks na Mesa com CEOs, da XP, apresentado por Fernando Ferreira, estrategista-chefe e head de research da corretora.

A SLC é hoje uma das maiores produtoras agrícolas do mundo. Com sede em Porto Alegre (RS), a empresa planta soja, milho e algodão em 830 mil hectares distribuídos por 26 fazendas em oito estados do Cerrado brasileiro — partindo de modestos 24 mil hectares quando Pavinato ingressou na companhia, em 1993. No ano passado, o faturamento chegou a R$ 8,5 bilhões.

Por que o fertilizante virou problema

O Brasil importa 95% dos fertilizantes que consome. O país até tem reservas de fósforo e potássio, mas a extração local custa muito mais caro do que importar de Marrocos, Rússia ou Canadá. Já o nitrogênio exige gás natural barato, insumo escasso no país. O resultado é uma dependência estrutural de um mercado global que, agora, está sob pressão.

“O aumento do custo do fertilizante mundial vai ser pago, no fundo, pelo consumidor, porque vai encarecer a produção de alimentos a nível mundial”, afirmou Pavinato.

Para a safra 2026/27 — cujo plantio começa em agosto no sul do Brasil e em setembro no Centro-Oeste —, ele não vê risco de desabastecimento, mas admite que os insumos vão custar mais caro.

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A boa notícia, segundo ele, é que o encarecimento dos fertilizantes está sendo compensado pela alta das próprias commodities.

A soja subiu de cerca de US$ 10,50 por bushel para US$ 12. O milho passou de US$ 4,30 para US$ 5. O algodão saltou de US$ 0,67 para US$ 0,83 por libra no mercado à vista.

“Em resumo, a mudança do patamar de preços compensa o aumento de custo de produção”, disse.

A SLC se antecipou ao problema. A empresa comprou fósforo antes do acirramento do conflito e, segundo Pavinato, está posicionada para a próxima safra com custo de fertilizante igual ou inferior ao do ano anterior.

A venda das commodities já produzidas também foi acelerada para aproveitar os preços mais altos.

O algodão e o efeito-poliéster

Um dos efeitos menos óbvios da guerra é o que aconteceu com o algodão. O petróleo mais caro encareceu o poliéster — fibra sintética derivada do óleo que compete diretamente com o algodão na indústria têxtil.

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Com o quilo do poliéster subindo de US$ 0,40 para US$ 0,56, a demanda por algodão disparou e o preço da fibra natural subiu junto.

“A guerra está provocando essa mudança de patamar de preço”, afirmou Pavinato. Para ele, enquanto o conflito durar, o algodão deve se manter nesse nível mais elevado.

Além disso, a incerteza logística fez com que compradores internacionais passassem a formar estoques da fibra — o que gera uma demanda adicional estrutural.

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No caso da soja e do milho, o impulso vem dos biocombustíveis. Índia, Indonésia, Brasil e Estados Unidos estão aumentando o uso de etanol e biodiesel como alternativa ao petróleo volátil.

“Quando a gente pensa no médio e longo prazos, tem um efeito benéfico de geração de demanda dos produtos para biocombustível ao longo dos próximos anos”, disse ele.