Mercado de câmbio

Euro e dólar atingem paridade pela primeira vez em 20 anos: força da moeda americana continuará?

Analistas de mercado seguem vendo força do dólar no curto prazo, mas acreditam em enfraquecimento da moeda no médio prazo

Por  Equipe InfoMoney -

Com a crise de fornecimento de energia e os temores de recessão mais fortes no radar da Europa, o euro segue com suas negociações próximas à paridade com o dólar. Às 10h (horário de Brasília), a moeda comum operava a US$ 1,0054. Um pouco antes disso, às 6h46, ao desvalorizar 0,4% face o fechamento de ontem (11) e 12,05% desde o início deste ano, o euro e o dólar atingiram a paridade. A última vez que o dólar tinha sido negociado no mesmo patamar que o euro foi em 15 de julho de 2002.

Os temores de que uma crise energética levará a região que adota a moeda única a uma recessão aumentaram, com a apreensão em alta com o início da manutenção anual do Nord Stream 1, maior gasoduto que transporta gás russo para a Alemanha.

A suspensão programada de 10 dias dos fluxos de gás alimentou temores de um corte permanente nos suprimentos, potencialmente atrapalhando os preparativos de abastecimento de inverno da região e exacerbando uma crise de gás.

A perspectiva de uma desaceleração econômica mais acentuada também colocou em dúvida se o Banco Central Europeu (BCE) será capaz de apertar a política monetária de forma agressiva o suficiente para conter a inflação recorde sem aprofundar a desaceleração econômica.

“A preocupação mais imediata para os mercados é se o Nord Stream 1 vai ou não voltar a funcionar”, disse à Reuters Bipan Rai, chefe de estratégia cambial da CIBC Capital Markets, acrescentando que “os mercados provavelmente vão precificar uma recessão” na Europa se o gasoduto não for reativado.

Em relatório, o Goldman Sachs avaliou acreditar que o BCE tem em mente o cenário de interrupções moderadas de gás que pesam no crescimento, mas também no aumento da inflação no segundo semestre. A previsão do banco é de alta da taxa de juros pela autoridade monetária europeia de 25 pontos-base em julho, 50 pontos-base em setembro e outubro, e 25 pontos-base em dezembro.

“Mas agora vemos mais incertezas para o caminho da política monetária”, apontam. Os economistas do banco veem que deve ser difícil que o BCE não suba os juros em julho e setembro mesmo se houver uma parada total dos fluxos de gás, mas apontam que os formulares de política monetária procurariam um ritmo mais lento de altas ou uma taxa terminal mais baixa em caso de um forte golpe na confiança do consumidor.

Cabe ressaltar que, na Alemanha, maior economia do euro e bastante dependente do gás russo, o índice de expectativas econômicas caiu de -28 pontos em junho para -53,8 pontos em julho, segundo pesquisa divulgada nesta terça pelo instituto alemão ZEW.

O resultado veio bem pior do que esperado por analistas consultados pelo The Wall Street Journal, que previam queda do indicador a -41 pontos. Já o índice de condições atuais medido pelo ZEW recuou de -27,6 para -45,8 pontos no mesmo período.

Enquanto isso, o dólar segue em alta com expectativas que o Federal Reserve aumentará os juros de forma mais rápida e a níveis mais altos do que seus pares para conter a inflação. O índice DXY, que mede o dólar ante uma cesta de moedas fortes, segue num patamar acima de 108, também rondando a máxima em 20 anos.

Se após a ata do Fomc, na última quarta (6), aumentaram as expectativas de que o Banco Central dos EUA elevaria os juros na próxima reunião de política monetária em 0,75 ponto percentual, as projeções se elevaram ainda mais após os dados fortes do mercado de trabalho apresentados na sexta, mostrando resiliência da economia enquanto a inflação segue preocupante.

Na véspera, a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, afirmou que o governo do Estados Unidos espera uma leitura “altamente elevada” do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) de junho.

O dado será publicado nesta quarta-feira (13), e, segundo o governo Joe Biden, foi puxado para cima pelos preços elevados de combustível no período.

“É bastante provável que os investidores sigam vendendo ativos financeiros denominados em euros e migrem para o dólar, considerado uma moeda de proteção. A oscilação do câmbio é a melhor indicação do pessimismo do mercado com a economia europeia, algo que deve demorar para melhorar”, avalia a Levante Ideias de Investimentos.

Na mesma linha, Nicole Kretzmann, economista-chefe da Upon Global Capital aponta que, como a crise enérgica na Europa deve se manter por alguns trimestres e o receio de recessão continuará, o mais provável é que esse cenário de o euro rodando próximo da paridade ante o dólar deve ser o “novo normal” por mais algum tempo.

Dólar versus outras moedas

Olhando para frente, o Goldman Sachs aponta que, no curto prazo (para o restante do mês de julho), a visão é de um dólar mais forte. Isso principalmente, na avaliação dos estrategistas do banco, se o BCE entregar uma alta de juros de 0,25 ponto percentual na reunião do próximo dia 21.

“Uma surpresa de alta mais intensa seria essencial para estabilizar o euro no curto prazo, mas o alcance da recuperação ainda pode ser limitado pelo aumento dos rendimentos dos títulos dos países mais endividados [da zona do euro]”, apontam.

Eles também reforçam que a incerteza em torno do fornecimento de gás russo principalmente para a Alemanha após o período de manutenção NS1 é um obstáculo adicional para o euro, pois amplificaria significativamente o risco de estagflação, que é negativo para a moeda.

Já para o quarto trimestre, o banco prevê uma tendência de enfraquecimento do dólar em relação às moedas no geral, com estreitamento do diferencial entre as principais taxas.

Na mesma linha, o UBS aponta que, com o atual clima de aversão ao risco nos mercados, é provável que o rali do dólar continue no curto prazo. Mas avalia ser improvável que essa força persista a longo prazo.

É provável que alta mais forte do dólar seja limitada pela desaceleração econômica dos EUA e as percepções do mercado de que o Federal Reserve começará a cortar as taxas novamente em 2023, avaliam.

Para o UBS, os dados recentes da economia americana foram mistos, o que reforça essa visão. Por um lado, o relatório de emprego divulgado na sexta-feira mostrou criação de 372 mil vagas de trabalho em junho, acima do esperado. Por outro, o número de americanos que entrou com pedidos de auxílio-desemprego subiu na semana passada, com demissões atingindo uma alta de 16 meses em junho. Isso coincidiu com a divulgação no início desta semana da pesquisa de serviços do ISM, em que o componente de emprego caiu para o menor nível em dois anos.

A preocupação com as perspectivas de crescimento fez com que os investidores reduzissem as expectativas de aperto do Fed para 2022 de cerca de 355 pontos-base em meados de junho para 330 pontos-base atualmente.

“A curva de juros futuros [dos títulos dos EUA] está agora sugerindo que o Fed precisará começar a cortar as taxas novamente por volta de maio do próximo ano para apoiar o crescimento. Este é um cenário menos favorável para a moeda dos EUA no médio a longo prazo”, aponta.

Para os analistas do banco, o franco suíço agora parece mais atrativo do que o dólar americano como porto seguro, especialmente dada a disposição do banco central de permitir a valorização da moeda para conter a inflação. Além disso, também avaliam que as moedas vinculadas a commodities também parecem prontas para se valorizar, notadamente o
dólares canadenses e australianos, com o banco projetando reversão da recente queda das commodities.

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