Ela superou um câncer e, perto dos 50 anos, virou consultora de investimentos

Após mais de 27 anos no Itaú, Alessandra Moreira migrou para a consultoria de investimentos. Aos 55 anos, atende cerca de 120 clientes, aconselha quase R$ 50 milhões e mira alcançar R$ 100 milhões.

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Aos 22 anos, Alessandra Moreira recebeu o diagnóstico de um linfoma — câncer que atinge o sistema linfático —, enquanto ainda dava os primeiros passos de uma carreira que duraria décadas no setor bancário.

Anos mais tarde, aos 46 anos, após uma trajetória de mais de 27 anos no Itaú, ela deixou o banco em 2016 e iniciou uma transição profissional que a levaria da assessoria à consultoria de investimentos.

Hoje, aos 55 anos, Alessandra é consultora de investimentos da Eleva Invest, atende cerca de 120 clientes e aconselha uma carteira próxima de R$ 50 milhões. Em 2025, ela ficou em segundo lugar entre as consultoras da empresa.

O mercado financeiro não estava nos planos de Alessandra quando ela começou a trabalhar. Na juventude, queria seguir carreira em tecnologia da informação e chegou a fazer um curso técnico de programação.

O rumo mudou quando conseguiu uma oportunidade como secretária de um superintendente do Itaú. Ela trabalhava próxima da equipe responsável por analisar empresas para a composição dos fundos de investimento do banco.

O contato diário com os analistas despertou o interesse pelo mercado financeiro. Alessandra abandonou a ideia de seguir em TI e cursou Administração. Mas mudar de formação seria mais simples do que romper a primeira barreira profissional.

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“Naquela época, não se via a secretária como uma profissional que pudesse realmente atuar de fato nas áreas”, conta Alessandra. “O primeiro grande desafio que eu tive dentro do Itaú foi deixar de ser secretária.”

A oportunidade apareceu em um processo seletivo interno. Alessandra foi para a área que prestava atendimento e orientação sobre investimentos a clientes e não clientes do banco. Ela descreve a passagem como sua “escola” no mercado.

Depois, migrou para outras funções e conheceu também os bastidores da indústria de fundos, trabalhando em atividades de backoffice, processamento e conciliação de ativos e atendimento a auditorias.

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Em uma dessas funções, participou da criação de uma área destinada à conciliação de operações de fundos de terceiros.

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Um linfoma aos 22 anos

Foi ainda no início dessa longa trajetória no Itaú que Alessandra enfrentou um dos momentos mais difíceis da vida.

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Aos 22 anos, recebeu o diagnóstico de um linfoma no mediastino, região localizada entre os pulmões. Ela recorda que recebeu total suporte do banco durante o período.

A doença também marcou uma transformação pessoal. Cristã, Alessandra diz que sua relação com a fé ganhou outra dimensão depois do diagnóstico.

“Minha relação com Deus veio pela dor”, conta. “Sempre acreditei em Deus, mas passei a me relacionar com Deus quando fiquei doente.”

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Décadas depois, ela relaciona experiências difíceis à construção de características que leva para a vida profissional.

“Tem algumas coisas na vida da gente que acontecem para fortalecer as nossas qualidades e para que a gente possa nos tornar pessoas melhores”, diz Alessandra.

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Após 27 anos no Itaú, um recomeço

Alessandra permaneceu por mais de 27 anos no Itaú. Saiu em 2016, já com pós-graduação e certificação CPA-20, e iniciou um processo de transição profissional.

Ela buscava uma atividade em que conseguisse enxergar de maneira mais direta o impacto de seu trabalho na vida dos clientes.

“Ficou claro que o meu trabalho tinha de ter um propósito maior”, destaca. “Eu queria realmente poder, através do meu conhecimento, trazer alguma diferença na vida das pessoas.”

O caminho, porém, não foi direto. Alessandra obteve certificação para atuar no mercado de seguros e abriu uma corretora, que atualmente é conduzida pelo marido. Chegou a atuar dentro de agências bancárias, mas decidiu sair poucos meses depois.

Na sequência, recebeu um convite para trabalhar como assessora de investimentos. Entrou em um escritório de assessoria, mas, com o tempo, voltou a se incomodar com o modelo de trabalho.

“Meu foco, mesmo estando como assessora, era 100% voltado para o cliente”, explica.

Uma das rupturas ocorreu quando o escritório do qual era sócia decidiu deixar de atender clientes com patrimônio abaixo de R$ 300 mil. Alessandra não concordou com a decisão e saiu da sociedade.

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Da assessoria para a consultoria

A etapa seguinte foi a Eleva Invest. Alessandra iniciou a migração de seus clientes para a consultoria independente em 2023.

A mudança trazia uma incerteza: depois de construir uma carteira, não havia garantia de que os clientes aceitariam acompanhá-la no novo modelo. Mesmo assim, segundo Alessandra, mais de 85% deles fizeram a migração.

“Eu não sabia se meus clientes iriam comigo”, lembra. “Foi um período bem desafiador, porque você precisa falar com todos os clientes, explicar.”

Hoje, ela atende cerca de 120 clientes e não estabelece patrimônio mínimo para iniciar um relacionamento. A carteira sob seu aconselhamento está próxima de R$ 50 milhões.

Em 2025, Alessandra ficou em segundo lugar entre as consultoras da Eleva Invest.

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Mulheres no mercado financeiro

A carreira de Alessandra também foi construída em uma indústria historicamente marcada pela presença masculina.

Ela, porém, diz que nunca encarou os homens como concorrentes nem percebeu o gênero como um impedimento para avançar profissionalmente.

A própria composição de sua carteira contraria uma eventual expectativa de que uma consultora teria principalmente mulheres entre os clientes. Segundo Alessandra, hoje os homens representam parcela ligeiramente maior de sua base.

“Eu nunca encarei dessa forma”, avalia Alessandra, sobre o fato de trabalhar em um ambiente majoritariamente masculino. “Nunca vi isso como impeditivo.”

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R$ 100 milhões como meta

Depois de começar como secretária, passar por diferentes áreas do mercado de capitais, enfrentar um linfoma ainda jovem e construir uma nova etapa profissional após deixar o Itaú, Alessandra ainda tem planos de expansão.

Sua meta é aproximadamente dobrar o patrimônio que aconselha.

Hoje, a carteira está próxima de R$ 50 milhões. O objetivo declarado é chegar a pelo menos R$ 100 milhões. O principal desafio, segundo ela, é ampliar a prospecção para além das indicações feitas pelos próprios clientes.

Ao mesmo tempo, Alessandra diz não querer que o crescimento venha da seleção de clientes apenas pelo tamanho do patrimônio. Ela cita como exemplo profissionais no começo da carreira, como médicos recém-formados, que podem ainda estar construindo sua reserva financeira.

“Eu não atuo com um valor mínimo de investimento. O que vejo no cliente é expectativa futura, é o relacionamento de longo prazo”, garante.

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Formado em Jornalismo pela UFSM, Marcelo Monteiro atua há mais de 30 anos na imprensa. Trabalhou em veículos como Zero Hora, Correio Braziliense, Gazeta Mercantil, Hoje em Dia e Diário Catarinense. É autor dos livros "U-507" (2012) e "U-93" (2014) e dirigiu os documentários "Delírios" (2021) e "Além do Limite" (2022).