Desenrola 3.0 é positivo para bancos? Goldman Sachs aponta quem tende a ganhar

Novo programa pode aliviar carteiras de crédito problemáticas dos bancos em meio à preocupação com o endividamento das famílias

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O novo Desenrola Brasil 3.0 pode alcançar até R$ 150 bilhões em empréstimos inadimplentes e tende a ser positivo para os bancos mais expostos ao crédito sem garantia, segundo avaliação do Goldman Sachs.

Entre as instituições acompanhadas pelo banco americano, o Nubank (ROXO34) aparece como o potencial maior beneficiário, dada a elevada concentração de sua carteira em cartões de crédito e empréstimos pessoais.

O programa foi instituído por medida provisória publicada pelo governo federal em 25 de setembro e traz uma mudança importante em relação à versão anterior do Desenrola.

Em vez de depender de descontos concedidos pelas instituições financeiras, com o governo absorvendo o risco das primeiras perdas por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO), o novo modelo permite que a União compre diretamente carteiras de dívidas inadimplentes dos credores e posteriormente renegocie os débitos com os consumidores.

Para participar do processo competitivo, o credor precisará oferecer desconto mínimo de 90% sobre o valor de face da carteira. O limite de gastos da União será de R$ 15 bilhões e, considerando esse desconto mínimo, o Goldman Sachs calcula que o programa poderia adquirir carteiras equivalentes a até R$ 150 bilhões em valor de face. O estoque total de dívidas potencialmente elegíveis em cartões e empréstimos pessoais sem desconto em folha é estimado pelo governo em R$ 300 bilhões, segundo o relatório.

Na avaliação dos analistas Tito Labarta, Tiago Binsfeld e Juliana Ohara, a iniciativa é positiva para instituições com exposição ao crédito sem garantia porque oferece um mecanismo rápido para resolver empréstimos que permanecem inadimplentes há um período prolongado.

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Quem poderá participar do Desenrola 3.0?

O programa mira dívidas de pessoas físicas em atraso por mais de 720 dias e menos de 1.645 dias, intervalo equivalente a aproximadamente dois a quatro anos e meio, contado a partir de 25 de setembro de 2026. O valor original de cada empréstimo deve ser de até R$ 10 mil.

Embora inclua também dívidas não bancárias com concessionárias de serviços públicos, varejistas e prestadores de serviços, o foco principal do governo, segundo o relatório, são dívidas de cartão de crédito, tanto parceladas como do rotativo, e empréstimos pessoais sem desconto em folha.

As carteiras serão adquiridas por meio de leilões competitivos. Além do desconto mínimo de 90%, as propostas serão classificadas de acordo com os maiores descontos oferecidos, respeitando os limites orçamentários e financeiros. O governo poderá ainda separar os leilões por modalidade e agrupar os créditos de acordo com critérios como natureza e período de origem da dívida.

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A medida entrou em vigor imediatamente após sua publicação, mas sua implementação depende de regulamentação do Ministério da Fazenda. A expectativa do governo citada no relatório é que o Desenrola Brasil 3.0 comece a operar em novembro de 2026.

Leia mais:

A composição da carteira de crédito coloca o Nubank no centro da análise do Goldman Sachs já que, no segundo trimestre de 2026, quase 90% da carteira de crédito do Nu estava concentrada em cartões e empréstimos pessoais, enquanto entre os concorrentes analisados pelo banco americano essa participação ficava entre aproximadamente 10% e 30%.

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Os dados apresentados pelo Goldman Sachs mostram que 64% da carteira do Nu estava em cartão de crédito e outros 25% em empréstimos pessoais. No Inter (BDR: INBR32), as fatias eram de 29% e zero, respectivamente. Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Santander Brasil (SANB11) e Banco do Brasil (BBAS3) tinham parcelas bem menores de suas carteiras concentradas nessas modalidades.

Além da exposição ao crédito sem garantia, o Goldman Sachs destaca a maior presença do Nubank entre consumidores de renda mais baixa. Segundo os analistas, a curta duração da carteira, o excesso de capital e a rentabilidade superior também fornecem proteção contra uma deterioração do ciclo de crédito.

Para o banco americano, portanto, novas iniciativas de redução ou renegociação das dívidas beneficiariam proporcionalmente mais o Nu dentro de sua cobertura.

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Mas há um risco no horizonte

O mesmo perfil que torna o Nubank potencialmente mais beneficiado pelo Desenrola 3.0 também aumenta sua exposição a eventuais mudanças regulatórias.

O Goldman Sachs destaca estudos do Banco Central para conter o endividamento das famílias, que permanece próximo de máximas históricas. Entre as possibilidades avaliadas está a elevação do fator de ponderação de risco dos cartões de crédito, o chamado RWF.

Caso a medida avance, os bancos precisariam reservar mais capital para sustentar essas operações. Na avaliação dos analistas, uma exigência maior de capital para cartões seria um risco compensatório especialmente relevante para o Nubank, justamente por causa do tamanho de sua operação nesse segmento. O relatório ressalta, contudo, que o banco digital permanece com excesso de capital.

Saiba mais:

A discussão ocorre em um cenário no qual a alavancagem das famílias continua elevada. O indicador apresentado pelo Goldman Sachs estava em 49,8% em abril de 2026, próximo dos maiores níveis da série mostrada no relatório.

Juros menores e inadimplência

A preocupação com o crédito às famílias ajuda a explicar por que novas medidas de renegociação ganharam espaço. Segundo o Goldman Sachs, os cortes de juros devem produzir impacto limitado sobre a inadimplência até o fim do ano.

O levantamento do banco mostra correlação de 80% entre a Selic defasada em seis meses e a inadimplência acima de 90 dias, sugerindo que os movimentos dos juros chegam ao crédito com atraso.

O histórico das versões anteriores do Desenrola também recomenda cautela sobre os efeitos de longo prazo.

A primeira edição, realizada entre julho de 2023 e maio de 2024, beneficiou aproximadamente 15 milhões de pessoas e renegociou R$ 53 bilhões em dívidas, com contribuição governamental de R$ 1,7 bilhão por meio da garantia do FGO.

Segundo o Goldman Sachs, porém, o impacto sobre o endividamento das famílias foi principalmente temporário, com os índices de inadimplência voltando a subir em 2024 e 2025. Durante o Desenrola 1.0, a maior queda da inadimplência ocorreu entre consumidores com renda de um a dois salários mínimos.

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Já o Desenrola 2.0, lançado em 4 de maio de 2026, foi direcionado a pessoas com renda de até cinco salários mínimos, ou R$ 8 mil mensais. A iniciativa abrangia cartões, cheque especial, empréstimos pessoais e dívidas estudantis em atraso entre 90 dias e dois anos, com descontos de 30% a 90%. Segundo a análise, cerca de R$ 22 bilhões foram renegociados nesta edição.

Um alívio para bancos

O anúncio do Desenrola 3.0 chega em um momento de maior preocupação com o ciclo de crédito brasileiro. O Goldman Sachs avalia que a novidade não era amplamente esperada pelo mercado e oferece às instituições financeiras uma nova maneira de retirar de suas carteiras créditos que estão inadimplentes há mais de dois anos.

A diferença em relação aos programas anteriores é relevante para os bancos: o governo passa a atuar diretamente na compra das carteiras, desde que os credores estejam dispostos a aceitar descontos de pelo menos 90%.

Nesse contexto, quanto maior a exposição ao crédito sem garantia, maior tende a ser a relevância potencial do programa, o que explica o destaque dado pelo Goldman Sachs ao Nubank. Ao mesmo tempo, a discussão regulatória sobre cartões cria um contraponto importante para a tese.

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Lara Rizério
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Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.