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Para “pai” das Bandas de Bollinger, segredo para trader é ser “o menos emotivo possível”

Segundo ele, as características da volatilidade são definidas por seres humanos e geradas pela emoção. "Isso não vamos eliminar tão cedo"

Rodrigo Petry

John Bollinger. Foto: divulgação; Arte Leo Albertino

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Se você já acompanhou alguma sala de negociação ou comunidade com traders do mercado financeiro certamente se deparou com as Bandas de Bollinger. Criadas nos anos 80, quando as informações financeiras e as cotações não eram nada acessíveis, como são atualmente, pelo analista financeiro e escritor John Bollinger, elas seguem firmes, até hoje, nas negociações de day trade ou swing trade porque tocam no princípio fundamental do mercado, que é a volatidade.

Em entrevista exclusiva ao IM Trader, canal do InfoMoney, Bollinger disse que as bandas são e devem seguir úteis porque não são um sistema de negociação, mas sim uma ferramenta analítica, que consegue minimizar – não eliminar – o efeito da “emoção” dos traders no momento da compra e da venda de ativos.

Segundo ele, as características da volatilidade são definidas por seres humanos e geradas pela emoção. “A ideia é eliminar as emoções da negociação. É normal que os investidores sejam emocionais, criando o movimento dos preços. Mas o trader deve controlar suas emoções e ser o menos emotivo possível”, conta.

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Abaixo, confira a entrevista concedida por Bollinger antes de participar da Sociedade do Gain, evento online e gratuito, sobre universo trader, que acontece nos dias 26, 27 e 28 de fevereiro.

Entrevista John Bollinger

InfoMoney: Quando o senhor criou as Bandas de Bollinger nos anos 80 o acesso à informação financeira era disseminado, basicamente, por jornais e restrito a grupos menores de investidores, e hoje temos praticamente tudo em tempo real, pela internet, em comunidades, e de graça. Como o senhor vê a evolução das Bandas de Bollinger e seu uso, atualmente, em um contexto completamente diferente?

Bollinger: Quando começamos, o acesso aos dados e às informações eram severamente restritos. Na verdade, quando comecei, era muito difícil obter cotações, e obter cotações em tempo real envolvia ter uma máquina muito grande, do tamanho de uma geladeira, que era excessivamente cara.

Então, naquela época, as corretoras mantinham mesas em seus escritórios em que os traders ativos podiam usar, e foi isso que eu fiz. Mesmo assim, extraíamos muita informação de jornais, tanto dos diários quanto dos semanais. Copiávamos tudo à mão e mantínhamos muitos indicadores em papel.

E houve uma vantagem nisso, porque nos familiarizamos intimamente com os dados e os cálculos, entendendo como as mudanças nos dados afetariam as abordagens que estavam sendo usadas. Então, eu acho que isso teve um grande valor, embora tenha sido muito difícil de fazer. 

Hoje, tudo está feito para você. Está tudo disponível facilmente. Como você destacou, de graça. Então, se eu tivesse algo a sugerir aos traders é que eles gastassem um pouco mais de tempo pensando sobre os indicadores que estão usando, se concentrando em como eles são construídos e como devem ser usados, em vez de apenas aceitarem os indicadores.

Não sei. Às vezes, alguns desses novos programas contêm duzentos ou trezentos indicadores. Então, escolha alguns, estude-os e realmente os conheça. E acho que isso realmente trará alguma vantagem.

InfoMoney: Sobre a criação das Bandas de Bollinger, qual era o tipo de problema na análise dos ativos que o senhor buscou solucionar na época? 

Bollinger: Na época, usávamos um sistema de negociação com faixas de largura fixa, com faixas percentuais. Era apenas uma média móvel deslocada para cima e para baixo, em uma determinada porcentagem. 

E o problema é que não se adaptava, sempre, às condições do mercado. Então, era preciso alterá-lo manualmente, o tempo todo, o que era difícil de se fazer. Mas o verdadeiro problema de fazer isso é que você deixava suas emoções entrarem no processo de negociação.

Se você estava “bullish”, desenhava bandas para apresentar uma imagem de alta; se você estava “bearish”, desenha bandas para apresentar uma imagem de baixa. Então, desenvolvi as Bandas de Bollinger especificamente para ajudar a lidar com isso.

Eu queria um mecanismo automático para definir a largura das faixas para não ter que fazer isso (manualmente). Eu só teria que reagir à relação com o preço e às bandas, que foi o que fiz com sucesso.

InfoMoney: E por que, em sua opinião, as Bandas funcionam com tanta eficácia, sendo usadas até hoje? 

Bollinger: A razão pela qual funcionam tão bem é porque tocam num primeiro princípio do mercado, que é a volatilidade. Não negociamos ações porque queremos que não sejam voláteis. 

Eu sei que isso é uma loucura no mundo de hoje, porque sabemos que a volatilidade é muito volátil. Mas simplesmente não achávamos que isso fosse verdade, naquela altura dos anos 80.

E observei que essa volatilidade poderia ser usada para definir as faixas de negociação, a largura das bandas. Então, você sabe, foi um seminal insight

E, voltando à sua pergunta, as Bandas de Bollinger funcionam hoje porque alcançam e tocam esse princípio fundamental do mercado, e esse princípio não pode ser alterado.

Nenhuma quantidade de arbitragem, nenhuma quantidade de atividade de negociação, vai mudar as características básicas da volatilidade, porque as características da volatilidade são definidas por seres humanos e são geradas por emoção.

E não vamos eliminar as emoções tão cedo.

InfoMoney: O que o senhor considera importante para um trader usar corretamente as Bandas de Bollinger?

Bollinger: As Bandas de Bollinger ou qualquer outra faixa de negociação simplesmente definem a alta e a baixa, em uma base relativa. Por definição, os preços são altos na faixa superior e os preços são baixos na faixa inferior. E isso pode não parecer uma grande conquista à primeira vista, mas na verdade é muito importante porque nos permite construir sistemas de negociação baseados em regras.

Assim, podemos dizer, por exemplo, se o preço toca a faixa superior, ou seja, está relativamente alto e esse indicador que estamos mantendo, digamos, um indicador de demanda de oferta é negativo, então isso é um alerta de venda.

E então esperamos pela confirmação. Esperamos que o preço caia e sabemos que temos uma venda definida para esse título específico. Claro, o oposto também se aplica à uma compra. 

Mas a ideia básica por trás das Bandas de Bollinger ou de qualquer faixa de negociação é que elas definem o que é relativamente alto e relativamente baixo.

E você pode pegar essas definições e incorporá-las às abordagens de negociação. E a ideia é eliminar as emoções da negociação. É normal que os investidores sejam emocionais, criando o movimento dos preços.

Mas o trader deve controlar suas emoções e ser o menos emotivo possível.

InfoMoney: As Bandas de Bollinger são eficientes para todos os tempos gráficos? Hoje em dia, traders operam, por exemplo, tempos gráficos de 2, 5 e 15 minutos, algo impossível, nos anos 80… 

Bollinger: As negociações de curto prazo, quando eu comecei, simplesmente não estavam disponíveis, não apenas por causa dos dados, mas por causa das despesas. As comissões eram muito grandes e a estrutura tributária muito rígida. 

Então, quase não havia traders de curto prazo. Mas hoje existem ferramentas técnicas como RSI (IFR, em português), MACD, Bandas de Bollinger, médias móveis, etc., que podem, realmente, ser aplicadas a qualquer tipo de barra, seja diária, semanal ou mensal no lado comprado, ou barras de meia potência, como de cinco minutos ou um minuto, no lado curto.

A única coisa importante é que haja dados suficientes em cada barra para que você possa ver o mecanismo de formação de preços em funcionamento. Essa é a chave. 

Para algumas ações enormes como o Google ou semelhantes, onde você têm milhares e milhares de pessoas negociando a cada segundo, há tanto fluxo de dados que você pode chegar a prazos muito, muito curtos, talvez até barras de 10 segundos – algo para mim até ridículo. Mas para uma ação pequena na qual ninguém está interessado, talvez até as barras diárias sejam questionáveis. 

Você tem que olhar as barras semanais para ter atividade suficiente dentro de cada barra para tornar possível o processo analítico.

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InfoMoney: O senhor considera as Bandas de Bollinger uma ferramenta suficiente para as análises de ativos ou sugere a complementação com outras? 

Bollinger: Já vi as Bandas de Bollinger sendo usadas em todos os tipos de aplicações. Na Europa, são usadas ​​para analisar dados de segurança da aviação. Na China, elas são usadas ​​para o controle de qualidade em fabricantes de vidro.

Portanto, a ferramenta tem uma aplicação bastante ampla. E penso que os indicadores que os acompanham também deveriam ter uma aplicação bastante ampla. Então, adoro o termo análise racional, que se refere à ideia de combinar, sabe, análise fundamentalista, técnica e quantitativa.

Ao mesmo tempo, apenas pegamos as melhores ferramentas de cada disciplina e as utilizamos. Então, acho que é uma ótima ideia, digamos, usar as Bandas de Bollinger em gráficos semanais, com dados fundamentalistas sobre as empresas. Isso poderia funcionar muito bem.

Ou melhor ainda, usar as Bandas de Bollinger nos próprios dados fundamentalistas para chegar aos sinais de compra e de venda, que você pode então combinar com o preço da ação no mercado. 

Um dos primeiros indicadores que usei, na época, não era considerado técnico. Foi um indicador de oferta e demanda, de intensidade intradiária. Era um indicador interessante, que analisava o volume de acordo com o preço da ação, dentro da barra. Ele nos dava uma ideia da oferta e da demanda de uma determinada ação, por um determinado período.

Essa é uma ótima maneira de pensar em como combinar vários tipos de indicadores com as informações geradas pelas bandas de negociação.

InfoMoney: Como o senhor vê a aplicação das Bandas de Bollinger no mercado de criptomoedas?

Bollinger: Me tornei um dos primeiros usuários das Bandas de Bollinger no mercado de criptografia e, sabe, elas funcionaram muito bem. Olhei para o mercado e coloquei alguns indicadores básicos [derivados das Bandas de Bollinger], como o %b (Bollinger b%) e o BandWidth (Bollinger Band Width). E tive uma taxa de sucesso muito boa. 

Demorei um pouco para descobrir, mas acho que havia uma lição ali, uma lição muito importante, porque naquela época o mercado criptográfico era relativamente pouco sofisticado.

Os índices futuros estavam sendo apenas introduzidos e havia, principalmente, um mercado à vista, com pouca participação profissional. Havia muito pouca arbitragem, não havia arbitragem de índices, não tínhamos futuros e opções. Então, era um mercado muito limpo, com uma relação sinal-ruído muito alta. Isso ainda é verdade [atualmente] para o mercado de criptoativos, mas não é tão bom como antes.

InfoMoney: E como é para outros mercados?

Bollinger: Todos querem negociar no mercado mais difícil do mundo, que é provavelmente o E-minis (minicontratos), os contratos futuros baseados no S&P 500, aqui nos EUA. Mas você tem uma vantagem natural nos mercados menores, onde há menos atividade profissional, menos arbitragem e menos negociações de alta frequência, criando ruído. 

Aprendi sobre isso anos atrás na Itália, quando conheci um trader italiano que tinha operações fantasticamente bem-sucedidas, com os recém introduzidos futuros no MIB, a Bolsa de Milão. E perguntei a ele o que estava fazendo, e a resposta foi muito simples: ‘ah, é simplesmente porque somos apenas eu e algumas outras pessoas negociando. Não há arbitragem, há relativamente pouco ruído, é mais fácil.’ 

Então, eu acho que isso é verdade em todo o mundo. Todo mundo quer negociar nos mercados gigantes, mas acho que os traders ficariam mais felizes se concentrando nos seus mercados locais, onde têm conhecimento especializado e podem ter uma vantagem natural, com uma melhor relação sinal-ruído.

InfoMoney: O senhor enxerga o lançamento de “Novas Bandas de Bollinger?”… Alguma ferramenta que possa ser tão eficaz e utilizada pelos traders, por exemplo, daqui a 10, 20 ou 40 anos?

Bollinger: Bem, acho que há duas perguntas aí, certo? Eu acho que as Bandas de Bollinger continuarão a funcionar no futuro? Sim. Porque, novamente, essa é a ideia dos primeiros princípios. Você tem que alterar o funcionamento do mercado para quebrar as Bandas de Bollinger. 

Não estou dizendo que o funcionamento dos mercados não será alterado. É perfeitamente possível. Mas acho que as próprias Bandas de Bollinger continuarão úteis. E uma das razões para isso é porque não são um sistema de negociação, mas uma ferramenta analítica. 

Se fosse um sistema de trading com regras rígidas e rápidas, penso que a utilidade seria arbitrada. Mas as pessoas usam as Bandas de Bollinger de diferentes maneiras, com todos os tipos de abordagens, e em diversos intervalos de tempo e valores mobiliários. 

Portanto, penso que são seguras, mas também penso que há um enorme espaço nestes mercados para inovação, para novas ideias. Só porque criei algo há 40 anos em que todos se interessaram e que se tornou bastante popular não significa que não possa ser feito novamente. 

Eu acho que as pessoas podem criar novos sistemas e novas abordagens, novas ideias de tradings que correspondam às regras e aos problemas a resolver dos mercados atuais. 

Tive muita sorte porque inicialmente tive a ideia de colocar as Bandas de Bollinger em domínio público, com código aberto. Todo mundo dizia, ‘ah, você não pode fazer isso, elas não vão funcionar mais’. 

Bem, 40 anos depois elas ainda funcionam. Eu acho que compartilhar com outros traders, coisas assim, é simplesmente uma grande ideia.

InfoMoney: Atualmente, Salas Ao Vivo e Comunidades, com diversos traders, dos mais diversos níveis de conhecimento, replicam estratégias em grupo. O que o senhor poderia aconselhar para que esses traders deixem de ser “expectadores”, “acompanhando” as ordens das salas, e virem traders independentes e de sucesso? 

Bollinger: Ótima pergunta. Tornar-se um trader por conta própria exige muito trabalho. Isso é o que as pessoas parecem não entender. Este é um negócio, como qualquer outro, certo? Então, é preciso trabalhar duro para ter sucesso.

E acho que as pessoas acreditam que podem entrar nessas salas de negociação e seguir o conselho de outra pessoa e aproveitar seu sucesso. Bem, na minha experiência, isso simplesmente não é verdade. 

Não estou dizendo que não exista em algum lugar, algumas salas de negociação que sejam ótimas. Provavelmente existem, mas o ponto principal é que este é um negócio, é um negócio difícil. Você tem que trabalhar duro para isso. 

E quanto mais você trabalha nisso, mais você será recompensado. Essa é a grande vantagem disso, de negociar e investir. O que recompensa é o esforço e a disciplina. 

Portanto, para aquelas pessoas que estão sentadas nessas salas de negociação recebendo conselhos de outras pessoas, sugiro que vocês tentem se livrar delas.

Use-as cada vez menos e use sua própria inteligência, suas próprias ideias, sua própria criatividade, cada vez mais. Eu sei que elas podem fazer isso, porque eu fiz isso.

Entenda o que são as Bandas de Bollinger

As Bandas de Bollinger foram criadas no início dos anos de 80, sendo, atualmente, um dos mais populares indicadores de análise técnica, utilizado por traders de todo o mundo.

Essencialmente, é um indicador de volatilidade, ou seja, que mede a variação de preço de um ativo durante um determinado tempo, indicando se este está com uma alta ou uma baixa volatilidade.

Além de indicar a volatilidade, se usarmos as Bandas com uma leitura mais apurada, em conjunto com outros indicadores de análise, é possível identificar se ele entrou em uma tendência de alta ou de baixa.

John Bollinger; exclusive interview; Bollinger Bands
Na imagem acima observe como funciona na prática: são três bandas, com a inferior abaixo dos preços e a superior acima dos preços; a central, por sua vez, é a média móvel aritmética (MMA) de 20 períodos, mas que pode ser de 10 ou 50, por exemplo, desde que aplicados os desvios padrões. Imagem: Nelogica

Como interpretar?

Com seu desenvolvimento a partir do desvio padrão, o ativo tende a permanecer, na maior parte do tempo (aproximadamente em 90%), dentro dos limites da banda inferior (preços mínimos) e da banda superior (preços máximos).

Entretanto, nos momentos em que há alta volatidade, o preço do ativo tende a ultrapassar a banda inferior ou superior.

Isso, consequentemente, afasta o ativo da banda central, sinalizando uma força compradora ou vendedora.

Bandas de Bollinger aplicadas
No gráfico acima estão destacados os pontos de alta volatidade, que, em um determinado momento, fizeram com que o preço rompesse a banda inferior ou superasse a banda superior do indicador, podendo sinalizar momentos para compra ou venda do ativo. Imagem: Nelogica

Mais informações sobre as Bandas de Bollinger podem ser encontradas neste guia, que o InfoMoney preparou, que pode ajudá-lo a entender e a colocar em prática a ferramenta.

Diariamente, o InfoMoney publica também uma seção com as perspectivas para os minicontratos negociados na B3.

Para mais conteúdos sobre day trade, mercados futuros e análise técnica acompanhe o IM Trader, canal do InfoMoney.