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“Ataque da Rússia à Ucrânia fez Ocidente e Otan se fortalecerem”, diz Theresa May, ex-primeira-ministra do Reino Unido

Mundo, no entanto, deve encarar dificuldades momentâneas no que tange as cadeias de produções globais

Por  Vitor Azevedo -

Theresa May, política britânica que serviu como Primeira-ministra do Reino Unido e Líder do Partido Conservador de 2016 a 2019, defendeu nesta quinta-feira (4), em fala na Expert XP, que apesar das dificuldades, o Ocidente e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) saem mais forte da guerra da Ucrânia do que quando entraram.

De acordo com a política, a Rússia, ao invadir o país governado por Volodymyr Zelensky há cerca de 160 dias, buscava muito mais do que territórios. Há, segundo ela, toda uma nova disputa mundial por zonas de influência.

“A Rússia e o seu presidente Vladimir Putin são oportunistas. Mas os países do Ocidente têm os seus valores”, pontua May, mencionando que o líder russo esperou o momento certo, de maior dependência energética da Europa, para agir como agiu. “A invasão da Ucrânia causou, no entanto, justamente o oposto do que a Rússia esperava. Eles esperavam afastar a Europa dos Estado Unidos, e o movimento foi o contrário. Queriam dividir a Otan, e a Otan apenas se fortaleceu. Buscavam tirar soldados da Otan das fronteiras russas, e o número apenas aumentou”, afirmou.

Essa contestação no âmbito mundial da “ordem global” não é vista apenas no governo de Putin. Segundo ela, a China, com seu modelo de sociedade diferente, “nunca gostou da economia americana e da presença americana no mundo”, e também está “tentando mudar a balança do poder” – ao que as democracias ocidentais têm de ficar atentas.

Mais do que divergências políticas, todo esse cenário de disputa por poder, combinado ainda com a pandemia da Covid-19, deve trazer uma mudança, ao menos pontual, da economia mundial como conhecemos.

“A pandemia e a guerra tiveram impacto nas cadeias de suprimento globais. O mundo como conhecemos, em que companhias não tinham de ter grandes estoques, com facilidade de comprar produtos, pode ter mudado”, indaga a política.

No Reino Unido, de acordo com a ex-líder britânica, cada vez mais empresas estão se perguntando como manufaturar produtos básicos “em casa”, ou ao menos nas proximidades. Mas isso não necessariamente quer dizer que todo o sistema mundial de produção está ameaçado.

“Não acredito, porém, que chegaremos ao fim total da globalização. O livre comércio é um poder para o bem. Ele ajuda as economias e traz benefícios para os países, reduz a pobreza”, defende. “Eu espero muito que voltaremos ao livre comércio quando as pessoas se derem conta de como ele é positivo. Mas, certamente, estamos entrando em um período em que as companhias estão contestando a eficiência das cadeias de suprimentos globais”.

De qualquer forma, May elogiou a maneira como EUA e Europa estão, até então, lidando com a questão – tanto em relação ao cuidado com os refugiados ucranianos, quanto às sanções impostas pela Europa em relação à Rússia, mesmo com essas causando importantes impactos para a economia dos países europeus no curto e médio prazo.

Na frente energética, May afirma que os problemas já existiam antes da guerra, apesar de terem sido exacerbados pelo conflito. Países do Velho Continente têm, para ela, de enfrentar o problema, mas sem esquecer das mudanças climáticas.

“Acho que não há mais dúvidas sobre a necessidade do uso de energia nuclear na Europa”, comentou May. “Sempre achei que a energia nuclear devia ser parte da nossa matriz energética, bem como em países como a França e a Alemanha”.

A questão energética, fala a política, é um problema que tem de ser encarado seriamente, bem como o aquecimento global. É necessário, segundo, para ela, “fornecer energia mais barata aos indivíduos mas também achar formas de diminuir as emissões de gases”.

A inflação, fruto dos preços mais caros da energia e dos alimentos, vem fazendo os britânicos sofrerem. “Nós prevemos que a inflação vai chegar a 13% até o final do ano]. O Bank of England [banco central inglês] aumentou a taxa de juros em 0,5 ponto percentual, como uma medida para tentar controlar a inflação”, explicou. “São tempos difíceis e a vida está muito difícil para muitas pessoas do Reino Unido. Não podemos falar que as coisas vão melhorar amanhã, mas temos de fazer algo pensando no longo prazo”.

A ex-primeira ministra não nega que o seu país, e outros tantos pelo mundo, enfrentam dificuldades econômicas. A saída, ao seu ver, além dos investimentos em energia, é também garantir um ambiente que permita os negócios crescerem.

“Temos de gerar receita mas também crescimento, com empregos que levem as pessoas tenham salários melhores, mais qualificados”, afirmou. “Atualmente vemos que o número de pessoas que estão ativas economicamente aumentou, mas também temos o problema que boa parte dos trabalhos não são tão qualificados”.

Para May, o Reino Unido tem o diferencial do setor financeiro, podendo crescer nele (através, por exemplo, da diminuição de regulações), mas também deve avançar na economia verde e em outras áreas, como na de inteligência artificial. “Temos tempos difíceis à frente, mas há uma série de coisas que podemos fazer para impulsionar nossas economias”.

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