Opinião CoinDesk

As criptomoedas podem acabar com as guerras?

Não importa como a guerra na Ucrânia vai acabar: as criptomoedas vão ter um papel muito mais importante no panorama mundial

Por  CoinDesk -

*Por Paul Jossey

A invasão da Ucrânia pela Rússia é a primeira guerra do universo cripto. A importância do ativo digital só não perde em tamanho pela batalha em si.

As criptomoedas estão em evidência ao longo dos eventos da guerra, desde os pedidos do governo ucraniano por Bitcoin (BTC) e Ethereum (ETH), até a organização autônoma descentralizada (DAO, na sigla em inglês) da Ucrânia, e o uso de stablecoins (moedas estáveis, em tradução livre) por ambos os lados como refúgio financeiro – isso sem falar na dor de cabeça nos EUA e na Europa pelo uso de criptomoedas para contornar sanções.

Não importa como a guerra na Ucrânia vai acabar. As criptomoedas vão ganhar um papel central nos assuntos mundiais a partir daqui. A autonomia individual que elas trazem pode levar a um mundo mais pacífico, contanto que agências governamentais e globais não destruam essa promessa com regulações excessivas e criptos governamentais forçadas goela abaixo.

As criptomoedas podem dar aos cidadãos de países invasores um veto informal da população contra a guerra. Se as pessoas correm para as stablecoins no meio a um conflito e a sanções internacionais, a capacidade do país de entrar em guerra com outra diminui. Esse veto já está acontecendo, com os russos trocando os rublos por stablecoins, talvez impedindo que a Rússia financie suas operações de guerra.

Conflitos antecipados

A invasão russa pode ser um presságio do retorno dos conflitos mais limitados pré-Primeira Guerra Mundial, na era do padrão ouro. No livro “O Padrão Bitcoin”, o professor da Universidade de Columbia Saifedean Ammous explica que, antes da Primeira Guerra Mundial (também conhecida como a Grande Guerra), a capacidade de países que utilizavam o padrão-ouro de travar guerras estava limitada, além do sentimento da população, por seus próprios tesouros.

Quando as reservas nacionais acabaram, os governos tiveram que aumentar os impostos ou vender títulos para continuar na guerra. Mas, na Primeira Guerra Mundial, conforme o conflito local foi se espalhando, a disciplina fiscal foi um fracasso. Segundo Ammous, logo no primeiro mês, “todas as grandes nações beligerantes suspenderam a conversão para o ouro, efetivamente dando fim o padrão-ouro e instituindo a moeda fiduciária para a população”.

Ao sair do padrão-ouro, os países imprimiram dinheiro até que, por conta da inflação, toda a riqueza da população havia sido desperdiçada antes mesmo da vitória ou da rendição. O resultado disso foi desolador. Um “veto da população”, com os cidadãos abandonando a moeda fiduciária da nação, diminuiria ou evitaria por completo os conflitos.

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No entanto, os governos podem impedir esse futuro mais pacífico de duas maneiras. A primeira é forçar todas as criptomoedas a fazer parte dos regimes de combate à lavagem de dinheiro e do terrorismo. A segunda, ainda pior, é exigir que todos utilizem moedas digitais de banco central multi-jurisdicionais (m-CBDCs), banindo demais criptomoedas.

Dizer que lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo são a principal preocupação de reguladoras financeiros globais não é um eufemismo. A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) é de que criminosos e terroristas lavem até US$ 2 trilhões todo ano.

Segundo Nic Carter, colunista da CoinDesk, as stablecoins operam, ao menos parcialmente, fora da jurisdição dessas iniciativas.

“Emissores de stablecoins tratam os IOUs [sigla em inglês para “I owe you”, documento informal de reconhecimento de dívida] como instrumentos ao portador e geralmente não policiam o comportamento do usuário quando uma transação não envolve o emissor. Ao conceder uma medida de privacidade transacional e não inserir condições políticas nas transações, as stablecoins são o mais próximo que temos de um dinheiro digital”.

Algumas pessoas podem dizer que isso atrai os criminosos — e talvez isso aconteça no começo. Mas é estranho pensar que o crime recorreria a registros públicos e rastreáveis da blockchain, características usadas facilitadoras de transações pela maioria das criptomoedas.

Os riscos de registros públicos e permanentes são muito maiores do que os benefícios de remover as limitações físicas do dinheiro em espécie. Algumas pessoas descobriram isso da forma mais difícil, como o casal de Nova York que supostamente tem bilhões de dólares, mas não consegue gastá-los. Segundo relatos, até o famoso hacker que quase trouxe o fim da Ethereum em 2016 e forçou uma atualização forçada na rede, foi descoberto.

A troco da privacidade

É claro que criminosos vão encontrar novas maneiras para esconder as transações e podem até conseguir, temporariamente. Mas o povo, através de meios democráticos — e não de bancos centrais não eleitos ou burocratas financeiros globais —, deveria decidir quanto monitoramento vai tolerar a troco da privacidade.

Uma m-CBDC seria pior. A título de exemplo, o futuro modelo chinês força todo cidadão a utilizar o yuan digital e toda transação é monitorada e registrada, além de influenciar no score de crédito de cada um.

Nenhum desses modelos permite o veto da população em tempos de guerra ou paz. Como sugerido pelo comentarista Vivek Ramaswamy, podemos já estar lutando em outra guerra: a guerra entre o Great Reset, com imposição de cima para baixo, e a Grande Revolta, que viria de baixo para cima.

Se esse for o caso, as criptomoedas — que prometem autonomia individual, controle sobre os próprios dados e transações e potencial para contornar instituições enraizadas — serão o campo de batalha principal. Se vencerem, a primeira guerra do mundo cripto pode trazer um mundo mais pacífico.

*Paul Jossey é conselheiro-adjunto na Competitive Enterprise. Ele também é o fundador da thecrowdfundinglawyers.com, que fornece conselhos jurídicos sobre criptomoedas, financiamento coletivo e a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC).

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