Inflação

Após salto na véspera, bolsas têm derrocada com Federal Reserve: o que mudou na visão do mercado?

Para analistas, mercado interpretou nesta quinta-feira que altas mais suaves das taxas de juros também podem sinalizar ciclos mais longos

Por  Vitor Azevedo -

Após o Federal Reserve anunciar na última quarta-feira (5) uma alta de 0,5 ponto percentual na taxa de juros americana e deixar de lado uma possível alta de 0,75 ponto (ou 75 pontos-base) na próxima reunião, o mercado entrou em euforia, com os principais índices disparando. Nesta quinta, porém, o otimismo parece ter ficado de lado.

A sinalização do presidente do Fed, Jerome Powell, de que não haveria uma aceleração da alta das taxas de juros e que isso não é algo “ativamente considerado” trouxe ânimo a investidores. Antes da fala, o mercado precificava com 90,3% de chance de uma elevação de 75 pontos-base da Fed Funds no encontro de junho.

À primeira vista, segundo especialistas, o que justificou as fortes altas da véspera foi a perspectiva de que uma alta mais devagar da taxa de juros americana poderia manter a liquidez dos mercados maior por mais tempo – o que tende a ser benéfico para ativos de risco, como as ações.

Hoje, contudo, a interpretação parece ter mudado. O Ibovespa, que ontem avançou 1,7%, hoje fechou em baixa de 2,81%. Nos Estados Unidos, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq – que subiram ontem respectivamente, 2,82%, 2,99% e 3,19% – caíram, na sequência, 3,12%, 3,56% e 4,99%.

Apesar de tom do Fed mais dovish (mais brando), o problema da inflação está aí e a instituição terá de resolver isso uma hora ou outra”, diz Ian Caó, CIO da Gama Investimentos. “Está ficando cada vez menos provável que o Fed irá conseguir resolver a alta dos preços sem gerar um impacto grande na demanda”.

Segundo o especialista da Gama Investimentos, a resistência do Federal Reserve em acelerar a alta da taxa acaba por empurrar a curva de juros para cima em sua cauda longa. Hoje, a taxa do treasury (título do Tesouro dos EUA) com vencimento em dez anos fechou precificada a 3,037%, em seu nível mais alto desde novembro de 2018.

Isso acaba tendo impacto direto sobre os ativos de risco e sobre as perspectivas para a economia no longo prazo. Ao invés de uma alta abrupta, se a inflação perdurar, o juros deve ser elevado de maneira mais vagarosa, mas ficando em patamares mais elevados por mais tempo.

“Uma sinalização mais dovish acaba inclinando a curva de juros e é na parte longa da curva que as decisões de investimentos são feitas. Ela impacta também a demanda e o consumo por conta dos financiamentos imobiliários”, comentou Caó.

É também pela pressão na ponta longa da curva de juros que, segundo o especialista, a Nasdaq foi a bolsa que mais sofreu no pregão de hoje. Companhias de tecnologia costumam ter boa parte dos seus valuations atrelada à perspectiva de crescimento e, além disso, tendem também a serem mais alavancadas. Com o disparo dos juros da ponta longa, essas empresas encaram uma perspectiva de crescimento menor e ainda um gasto maior com juros maior no longo prazo.

Mercado “cai na real” a respeito de inflação

Bruno Madruga, sócio e Head de Renda Variável da Monte Bravo Investimentos, vai na mesma linha: “O mercado ‘caiu na real’ hoje, essa é a grande verdade. A inflação não para de subir, principalmente com commodities. Não vai ser essa diferença de 25 ponto-base, de alta de 0,50 ou 0,75 ponto percentual, que vai conter o ciclo da taxa em meio a maior inflação americana dos últimos 40 anos”.

Nos Estados Unidos, o índice de preços do consumo (PCE) trouxe na última semana que os preços no país avançaram 6,6% em março frente ao ano anterior, maior nível desde 1978.

De acordo com Madruga, a possibilidade da reabertura da China, frente aos lockdowns impostos atualmente, aumenta a chance dos preços dos produtos não manufaturados voltarem a avançar, com a segunda maior economia do mundo normalizando seu consumo.

Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, interpreta ainda que, cada vez mais, a inflação pode não desacelerar de forma tão rápida. “A injeção de renda artificial na economia gerou uma discrepância muito grande. Podemos notar isso no último relatório de vagas de emprego em aberto dos Estados Unidos. Há demanda por trabalhadores e não há oferta de empregados, o que vai aumentando as faixas salariais, pressionando a inflação”, comenta.

Luiz Adriano Martinez, portfólio manager da Kilima Asset, destaca justamente a divulgação dos dados de auxílio desemprego nos Estados Unidos, que somaram 200 mil na última semana e superaram projeções, apesar da oferta de trabalho alta. “Um número que normalmente não influencia tanto o mercado, hoje teve mais peso”, pontua. “O Federal Reserve ontem não foi tão hawkish (duro sobre a inflação), mas o Powell deixou claro que se as condições mudarem, o plano de voo pode mudar. Uma aceleração inflacionária oriunda do custo de trabalho é um grande risco de pressão”, disse.

Mais cedo, houve ainda a divulgação de dados da produtividade do setor não agrícola, que caiu 7,5% no primeiro trimestre, frente consenso de queda de 5,4% – e a produtividade, em um momento de inflação alta, é algo que ajuda a conter os preços. Do outro lado, o custo unitário da mão de obra avançou 11,6%, ante consenso de crescimento de 9,9%.

Além disso, os analistas apontam que a inflação tende ainda a seguir pressionada por conta da guerra na Ucrânia, com o possível embargo do petróleo russo piorando o panorama geral e tirando a perspectiva de queda no curto prazo.

No Brasil, Copom e dólar ajudam pressionar curva

No cenário interno, a curva de juros também fechou estressada. Além da pressão vindo de fora, a sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) de que haverá outra alta na próxima reunião, apesar de não na mesma magnitude de ontem (1 ponto percentual), também traz resultados.

“O mercado acaba desafiando o Banco Central pelo mesmo motivo que há lá fora: inflação elevada”, explica Bruno Madruga. “Não esperamos que a inflação tenha um arrefecimento no Brasil”.

Cada vez mais instituições financeiras tem aumentado suas perspectivas para a inflação brasileira em 2022. Nesta semana, o BNP Paribas elevou a sua projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 8,5% para 10%. O Credit Suisse, semana passada, aumentou sua projeção para de 7,8% para 8,3%.

Por fim, com o juros nos Estados Unidos avançando, cresce a busca de investidores por títulos do tesouro americano, considerados sem risco. “No mundo todo, o dólar está se valorizando frente a outras moedas. O DXY avança quase 1%”, comenta Marcelo Oliveira, CFA e fundador da Quantzed. ” O real sempre tem movimentos mais exagerados por ser moeda com grande liquidez”.

Esse movimento de fortalecimento do dólar, por sua vez, acaba pressionando de forma direta a perspectiva de alta para a inflação brasileira – um real mais fraco impacta o poder de compra dos habitantes do país, com produtos importados mais caros e também com o preço das commodities seguindo a paridade internacional.

Por volta das 17h30, no aftermarket, os DIs com vencimento em janeiro de 2023 viam suas taxas subirem 24 pontos-base, para 13,24%. Os DIs para 2025 tinham o rendimento subindo 37 pontos-base, para 12,34%. Os para 2027 e 2029, por sua vez, tinham os yields com altas de 35 e 30 pontos, indo a 12,16% e 12,24%.

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