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André Brandão: quem é o novo presidente do Banco do Brasil – e o que esperar dele à frente da instituição

Analistas comemoram escolha do novo nome do BB, mas ressaltam grandes desafios que o executivo (vindo do HSBC) terá pela frente

André Brandão
André Brandão (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

SÃO PAULO – Três semanas após a saída repentina (para o mercado) de Rubem Novaes da presidência do Banco do Brasil (BBAS3), a instituição financeira oficializou o nome de André Guilherme Brandão como novo CEO da estatal. O seu nome já era dado como certo havia cerca de duas semanas e sua nomeação foi considerada uma vitória para a ala “pragmática” do governo pelo seu perfil considerado bastante técnico.

Cabe destacar que Novaes pediu demissão em meio a um desgaste e também por causa da pressão durante o seu período dirigindo o banco. Apesar de ser um nome com o aval de Guedes, o executivo era também ligado ao “guru” Olavo de Carvalho, que tem criado polêmicas e atrapalhado a pauta do governo no Congresso. Além disso, o desempenho do BB na área de crédito também foi considerada insatisfatória e, com isso, no último dia 24 de julho, Novaes anunciou a sua saída do banco.

Já André Brandão veio do HSBC, onde estava desde 2003; o novo CEO atuava como chefe global da instituição para as Américas. Desde que vendeu o banco de varejo para o Bradesco, em 2016, o HSBC atua no Brasil apenas como banco de investimento. Antes de chegar ao HSBC, ele permaneceu mais de dez anos no Citibank (outra instituição que, recentemente, saiu do segmento de varejo no País, ao ser adquirida pelo Itaú Unibanco).

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Vale destacar que, em 2015, o executivo depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava supostos crimes de evasão de divisas de brasileiros que tinham contas na agência de Genebra, na Suíça, do banco. Na época, ele negou que a instituição brasileira tivesse acesso a dados dos correntistas fora do País.

Brandão enfrentava, no HSBC, um movimento de redução de cargos executivos. De acordo com reportagem da Reuters publicada no mês de abril, ele permaneceria no cargo de dirigente para as Américas até o fim do ano, quando “novos anúncios seriam feitos”. Outros diretores regionais do banco foram demitidos desde o início de 2020.

Os desafios do novo CEO

Antes mesmo do seu nome ser oficializado como de novo presidente do BB, a notícia de sua indicação já havia repercutido bastante no mercado no início do mês, com os analistas que cobrem a ação do banco destacando os “velhos desafios” que o novo CEO deverá enfrentar, como o aumento da concorrência, a inovação e a regulamentação do setor, mas vendo com bons olhos o novo nome.

O Itaú BBA apontou ver como positiva a ida de Brandão ao comando do BB, reforçando que ele possui experiência na área de atacado. Atualmente, o executivo é o chefe de mercados globais das Américas no HSBC.

Conforme destacam os analistas do banco i) a decisão é técnica, não como resultado de qualquer intervenção política; e ii) o perfil e a experiência do novo CEO podem ajudar o BB a superar seus desafios.

“Em nossa opinião, Brandão pode ajudar a: i) acelerar as vendas dos ativos não-essenciais do banco; ii) reforçar a transformação no banco, dada sua experiência recente no HSBC e iii) trazer boas práticas em ESG [questões relacionadas a investimentos ambientais, sociais e de governança], uma vez que Brandão chefiou o Conselho de Negócios Climáticos do HSBC”, aponta o BBA.

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Para eles, Brandão deve buscar uma agenda positiva através da redução de ativos não-essenciais, destacando o potencial de venda de participações no BV (joint venture de 50% com a família Ermírio de Moraes), BB Americas, Banco Patagonia (na Argentina) e Cateno (de propriedade do BB e da Cielo). “Também seria possível encontrar uma solução para a Cielo”, avaliam; não é de hoje, por sinal, que especula-se a venda da participação do BB na companhia de maquininhas. O tema foi abordado, inclusive, na última teleconferência de resultados de Novaes como presidente do BB, no último dia 6 de agosto (veja mais clicando aqui).

“Além de reorientar o BB para o negócio principal, Brandão provavelmente buscará uma agenda de eficiência, colocando o banco estatal em sintonia com seus pares: o Bradesco, por exemplo, acaba de anunciar suas metas de redução dos custos nominais nos exercícios de 2020 e 2021. Destacamos que esses esforços de corte de custos serão essenciais para sustentar a lucratividade também do BB, dados os desafios que o setor bancário está enfrentando atualmente”, avaliam.

O BBA ainda aponta que, conforme destacado por Novaes, ex-CEO, o banco precisa de uma reforma para enfrentar os crescentes desafios no setor bancário. São eles: i) intensificação da concorrência de fintechs e players de outras indústrias, como varejistas; ii) a necessidade de melhorar constantemente
a qualidade dos produtos e serviços oferecidos, principalmente por meio de inovação e parcerias; e iii) a pressão regulatória para abrir o sistema bancário, o que facilita o surgimento de novos fornecedores de serviços.

“O Banco do Brasil possui vantagens competitivas decorrentes de sua exposição histórica no setor de agronegócio e de sua base de clientes relativamente rígida de servidores públicos. O BB precisa garantir um ambiente favorável para eficiência e transformação, a fim de evitar perder essas vantagens – e, portanto, valor – ao longo do tempo. Na nossa visão , a liderança e as fortes habilidades de pessoas de Brandão podem ajudar o banco a enfrentar esses desafios futuros”, apontam os analistas, que possuem recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ativos BBAS3.

O Bradesco BBI também destaca que, como profissional do mercado, o nome de André Brandão é bem visto, reduzindo as preocupações com possíveis interferências políticas no Banco do Brasil. “Observamos que seu histórico no banco de atacado deve fornecer suporte para aqueles que esperam que o banco se envolva em determinadas vendas de ativos”, avaliam.

Porém, eles fazem uma ponderação: “qualquer mudança na administração exige tempo e, nesse caso, não deve ser diferente”, afirmam, destacando esperar que alguns ajustes sejam implementados por ele nos próximos três a seis meses. “Enquanto isso, o setor deve continuar passando por desenvolvimentos importantes, como discussões sobre pagamentos instantâneos, bancos abertos e reforma tributária”, complementam.

Entre os pontos a serem monitorados, a XP Investimentos também aponta que, como um executivo de tesouraria/atacado, Brandão possui experiência limitada no varejo, cujo entendimento é vital para o futuro do Banco do Brasil. Além disso, ele possui, aparentemente, pouca ligação com operações de tecnologia/fintechs, cuja maior agressividade pode se tornar o obstáculo para bancos incumbentes no longo prazo. Por fim, ele nunca gerenciou tantas pessoas, uma vez que trabalhou em posições específicas dentro de bancos estrangeiros com menor número de funcionários, contra os quase 100 mil funcionários do Banco do Brasil.

Por outro lado, a grande experiência no mercado financeiro, não ter posições ou vínculos políticos aparentes, as indicações de não parecer ser uma pessoa que cede fácil a pressão e possuir elevado nível ético (considerações importantes para quem vai assumir o maior banco controlado pelo governo) são fatos positivos, avalia Marcel Campos, analista da XP. Além disso, ele possui perfil de mercado, que pode otimizar corte de custos e utilizar força externa e sua experiência em bancos de investimentos pode agregar ao atacado do banco.

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Desta forma, o nome de Brandão foi bastante bem recebido pelo mercado – contudo, os investidores seguem atentos aos grandes desafios que o novo executivo terá que enfrentar.

(Com informações de Agência Estado e Bloomberg)

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