Análise

Alta de 10% da Cielo foi exagero? Morgan Stanley sugere cautela com ações após presidente do BB falar em “destrinchar” operações

Analistas apontam diversas questões para que o BB venda sua parte na Cielo para o Bradesco

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Prédio da Cielo
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SÃO PAULO – As ações da Cielo (CIEL3) dispararam mais de 10% na quinta-feira (6) em meio às declarações do presidente do Banco do Brasil (BBAS3) , Rubem Novaes, de que existem discussões com o Bradesco sobe a divisão de ativos no setor de cartões. Os dois bancos dividem o controle da empresa de meios de pagamentos.

Durante teleconferência, o executivo afirmou que uma consultoria foi contratada para “destrinchar” as operações de cartões do banco. Vale ressaltar que Novaes pediu demissão do cargo recentemente e deve deixar o comando do BB em breve.

“Não vou poder adiantar detalhes. No mundo Elopar e Cielo existe muita coisa, muitos negócios. Em alguns, o Bradesco tem mais interesse que nós. Em outros, nós temos mais interesse que o Bradesco. Mas há uma conversa com ajuda de assessoria externa para a gente encontrar os melhores caminhos”, disse. Com isso, cresceu a expectativa de que o Banco do Brasil venda a sua participação para o banco privado.

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Apesar da forte reação positiva do mercado ontem, os analistas do Morgan Stanley apontaram em relatório que esta mudança tem diversos desafios para as empresas envolvidas. Com isso, eles ressaltam que os investidores deveriam ser mais cautelosos em relação ao otimismo que tomou conta no último pregão.

Para começar as questões, os analistas explicam que parte significativa do valor da Cielo depende do acesso à rede de distribuição do Bradesco e do Banco do Brasil. “Os dois bancos combinados possuem, de longe, a maior rede de agências bancárias de varejo do Brasil, dando à Cielo um acesso exclusivo e de baixo custo a milhões de clientes [dos dois bancos]”, afirma o Morgan.

“Se a Cielo acabasse sendo de propriedade exclusiva do Bradesco ou do Banco do Brasil, ela poderia perder o acesso exclusivo a metade da rede. E, embora um contrato de exclusividade possa ser assinado entre os dois bancos, o custo desse contrato pode ser altamente oneroso para uma empresa que mal está lucrando agora”, continuam os analistas.

Neste cenário, eles ainda destacam que, quando esse possível contrato de exclusividade expirar ou se houver uma divisão da propriedade conjunta sem exclusividade, a parte que acabar cedendo a Cielo poderia se virar e iniciar uma nova empresa de pagamentos, por conta própria ou com uma joint venture, o que aumentaria a competição.

Outro ponto destacado pelo Morgan é que um fator por trás dessa discussão de separação seria para dar para a Cielo uma chance maior de disputar mercado com suas concorrentes. “De fato, achamos que a propriedade da Cielo inibe a capacidade da empresa de competir com a Rede e a Getnet”, explicam os analistas.

“Tanto o Itaú quanto o Santander pensam na lucratividade do cliente de maneira holística, não em produto por produto. Sacrificar receitas de aquisição para manter os clientes bancários é algo que eles podem fazer, pois seus negócios de aquisição estão dentro do banco e não precisam necessariamente ser lucrativos por si mesmos. As agressivas campanhas de preços lançadas pela Rede e pela Getnet no ano passado são uma prova disso”, continuam.

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Segundo eles, neste sentido, a Cielo precisa ser lucrativa como veículo independente de capital aberto. “Seria um conflito de interesse significativo com os minoritários da empresa se o Banco do Brasil e o Bradesco sacrificassem os lucros da Cielo para manter os clientes bancários”, diz o banco.

Neste cenário, os analistas destacam que uma solução seria realmente eliminar o controle duplo da Cielo, transferir o poder para apenas um banco e abrir a porta para o novo controlador único comprar de volta as ações e fechar o capital da companhia. “Provavelmente, é por isso que as ações da Cielo negociaram em alta”, avaliam.

Por outro lado, o Morgan lembra que, caso isso aconteça, o controlador iria querer recomprar a Cielo a uma preço baixo, o que poderia gerar um conflito de interesses com os acionistas minoritários e afetar as ações. “Lembramos de uma situação muito semelhante que já ocorria nesse setor quando o Itaú privatizou a Rede (Redecard naquela época) com uma avaliação altamente contestada pelos acionistas minoritários”, afirma.

Diante de todo o debate e as questões complicadas que envolvem uma eventual separação da Cielo, os analistas do Morgan ressaltam cautela neste momento, evitando a empolgação vista com as ações ontem por conta não só das incertezas, mas dos desafios que a companhia já tem tido dificuldade de enfrentar.

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