Mercado aquecido

2020: o ano das pequenas empresas na Bolsa?

Especialistas afirmam que cenário de juros baixos pode servir para destravar IPOs menores que B3 tenta fomentar há anos

SÃO PAULO – Do lado do investidor, uma busca por maiores retornos em um cenário de juros baixos. Do lado das empresas, a necessidade de se capitalizar para crescer.

É por conta desse cenário que bancos, fundos e a Bolsa acreditam que empresas menores vão, enfim, conseguir acessar o mercado de capitais e ofertar suas ações.

“Temos sido procurados por muitas empresas pequenas que querem entender como podem acessar o mercado e hoje há uma conjuntura favorável para que essas ofertas aconteçam”, afirma Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes da B3, a Bolsa brasileira.

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Atualmente, o mercado brasileiro tem um volume médio de US$ 600 milhões em suas ofertas de ações — valor quatro vezes maior que a média global, de US$139,8 milhões.

“Comparando com os mercados internacionais, vemos que existe um espaço muito grande para o segmento de pequenas e médias empresas crescer”, afirma Paiva.

A B3 está estruturando um programa para oferecer treinamento e palestras para os executivos de companhias interessadas em abrir capital.

“É um programa que envolve treinamentos e encontros, inclusive com executivos de empresas que já estão listadas. Queremos promover a trocar de experiências em diversos âmbitos como jurídico, relação com investidores, diretoria financeira”, afirma Paiva. Segundo ele, o programa deve ser lançado até o fim do primeiro semestre de 2020.

Historicamente, um dos impeditivos ao acesso de pequenas e médias empresas ao mercado de capitais, segundo especialistas, era o desinteresse das instituições financeiras em preparar essas companhias para suas ofertas.

Mas esse cenário também parece estar mudando. O Banco ABC lançou recentemente uma plataforma para atrair o que chamou de “empresas emergentes” — companhias regionais com faturamento anual a partir de R$ 250 milhões — para realizar uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).

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“O Brasil hoje tem um número muito pequeno de empresas listadas, são cerca de 330, enquanto nos Estados Unidos há mais de 5.000. Já temos um relacionamento próximo com essas empresas e hoje é possível prepara-las para uma abertura de capital”, afirmou José José Eduardo Laloni, vice-presidente do Banco ABC e responsável por coordenar a iniciativa, durante o lançamento do projeto.

Segundo o executivo, a expectativa é que as primeiras ofertas aconteçam já em 2020.

“Há outros bancos médios se preparando para seguir o mesmo caminho do ABC. Além disso, bancos maiores e instituições como a XP Investimentos estão com uma equipe de mercado de capitais maior do que tinham em outros anos e, com isso, podem se dedicar tanto às grandes quanto às pequenas ofertas”, afirma Alvaro Gonçalves, sócio da gestora Stratus, que estuda levar algumas empresas de seu portfolio ao mercado acionário em 2020.

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Um novo Bovespa Mais?

O aquecimento do mercado colocou novamente sob os holofotes o programa Bovespa Mais, criado há 15 anos para atrair empresas menores ao mercado.

Ao longo dos anos, a B3 – companhia criada em 2017 com a fusão entre a BM&F Bovespa e a Cetip – fez algumas alterações para melhorar os incentivos, mas nada funcionou. Hoje, as opiniões sobre o programa divergem.

“Nós sempre discutimos como melhorar o Bovespa Mais, mas nada surtia efeito porque não havia demanda por parte do investidor. Hoje essa demanda existe por conta da queda dos juros”, diz Jean Arakawa, sócio da área de Mercado de Capitais do escritório de advocacia Mattos Filho.

“Eventualmente, podem ser discutidos alguns incentivos financeiros no programa, mas ele está bem estruturado”, acrescenta Arakawa.

“O programa acabou não pegando e é difícil imaginar que vai funcionar agora. É muito mais fácil para uma empresa, mesmo que menor, se preparar para acessar diretamente o Novo Mercado, que tem mais liquidez e atrai mais investidores, do que entrar no Bovespa Mais”, afirma Guilherme Sampaio Monteiro, sócio do Pinheiro Neto Advogados.

Juntos, Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e B3 têm discutido possíveis mudanças na legislação para atrair pequenas e médias empresas para a Bolsa por meio da “Iniciativa Mercado de Capitais”, que foi lançada em maio deste ano.

“Estamos realizando uma revisão nas nossas regras de oferta e  queremos contemplar alguns benefícios para empresas de porte intermediário”, afirma Antonio Berwanger, superintendente de desenvolvimento de mercado da CVM, sem detalhar quais seriam as medidas.

“O próprio resultado do Bovespa Mais nos levou a pensar mudanças no mercado de acesso. Não temos uma ‘bala de prata’, mas estamos discutindo medidas que podem incentivar as empresas. Essas medidas devem ser lançadas já no próximo ano”, afirma Paiva, da B3.

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Com todas essas iniciativas sendo tomadas, a maioria dos especialistas acredita que 2020 será um ano em que alguns IPOs menores devem acontecer e, dependendo do apetite do investidor por eles, podem estimular mais ofertas para os próximos anos.

O risco é o início de uma recessão global no fim do próximo ano, como preveem alguns economistas. A crise atrapalharia o mercado acionário e, mais uma vez, enterraria o sonho de empresas menores na Bolsa.

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