Está cada vez mais fácil ficar endividado: o crédito aparece naturalmente no cheque especial, no empréstimo pelo app e até no momento de pagar uma conta. Em alguns bancos, você pode escolher entre quitar um boleto com o saldo da conta ou jogar aquele valor no cartão de crédito. Só que, ao pagar uma conta fazendo outra, o problema simplesmente sai da frente naquele momento para reaparecer na próxima fatura.
Com o cheque especial, o movimento é ainda mais silencioso. Você usa um pouco, não recompõe todo o saldo no mês seguinte, e quando percebe já incorporou aquele dinheiro à renda, pagando juros sobre juros ao longo do tempo.
Quando esse ciclo avança, limpar o nome não significa necessariamente pagar tudo à vista. Se não há dinheiro para resolver tudo de uma vez, o desafio é definir por onde começar e quanto do orçamento pode ser comprometido sem criar novas dívidas.
Para organizar esse caminho, o InfoMoney conversou com especialistas sobre as principais decisões de quem quer sair da inadimplência e organizar as finanças.
Quais dívidas pagar primeiro para limpar o nome?
“A dívida mais antiga ou de maior valor não é necessariamente a primeira que deve ser paga”, afirma Fátima Macedo, vice-presidente financeira da Aescon-SP. A prioridade, segundo ela, deve considerar os juros, os riscos envolvidos e a capacidade de pagamento.
Uma forma prática de definir a ordem é seguir esta sequência:
- Preserve as despesas essenciais: moradia, alimentação, água, energia, saúde e transporte vêm antes dos credores. Sem isso, qualquer acordo corre o risco de ser quebrado.
- Avalie dívidas com consequências mais graves: entram aqui débitos que podem levar à perda de um bem importante. No caso de empresários, também merecem atenção obrigações tributárias, trabalhistas e previdenciárias.
- Ataque as dívidas que crescem mais rápido: rotativo do cartão e cheque especial estão no topo da lista por causa dos juros elevados, que consomem uma parcela crescente do orçamento.
- Compare valor, juros, prazo e impacto no orçamento: esses critérios ajudam a definir e equilibrar prioridades.
Quanto do salário destinar para pagar dívidas?
Não existe um percentual que funcione para todo mundo. Fátima Macedo usa como referência uma faixa entre 20% e 30% da renda líquida, desde que as despesas essenciais estejam garantidas.
A regra 50/30/20 também pode servir como ponto de partida:
- 50% da renda: necessidades como moradia, alimentação, transporte e contas básicas;
- 30%: gastos não essenciais;
- 20%: objetivos financeiros, incluindo o pagamento de dívidas.
Para quem está endividado, parte dos 30% destinados aos gastos não essenciais pode ser redirecionada temporariamente para os débitos. Ainda assim, a divisão não deve virar uma regra rígida.
Leonardo Baldez Augusto, economista e fundador da ISF Crédito, chama atenção para a margem que precisa permanecer no orçamento. Se, depois das despesas básicas, sobram R$ 1 mil, comprometer os R$ 1 mil com uma parcela deixa a pessoa sem espaço para um remédio, um conserto ou outro gasto imprevisto.
“Negociar uma prestação menor e pagar até o fim é melhor do que aceitar uma condição aparentemente excelente e voltar à inadimplência dois ou três meses depois”, afirma.
Como negociar dívidas sem ajuda profissional?
Segundo Fátima Macedo, uma forma prática de conduzir a negociação é seguir estes passos:
- Procure canais oficiais: priorize o próprio credor e plataformas reconhecidas, como Serasa Limpa Nome, SPC Brasil e Consumidor.gov.br.
- Compare pagamento à vista e parcelado: para as dívidas mais antigas, vale pedir redução de juros e multas e verificar se o desconto à vista compensa em relação ao parcelamento.
- Confira o custo do acordo: antes de aceitar a proposta, veja o valor total a ser pago, número de parcelas, juros e encargos incluídos e condições em caso de atraso.
- Confirme os dados antes de pagar: verifique se a proposta veio de um canal oficial e confira nome, CPF ou CNPJ do beneficiário. Essa checagem ajuda a evitar fraudes.
- Guarde tudo por escrito: salve a proposta, o acordo e os comprovantes de pagamento.
Depois de cumprir as condições previstas, acompanhe a retirada da negativação e peça ao credor um comprovante de quitação.
Avalanche ou bola de neve: qual estratégia usar?
Os dois métodos organizam o pagamento das dívidas para limpar o nome, mas seguem lógicas diferentes. Na avalanche, a prioridade é a dívida com juros mais altos; na bola de neve, a quitação começa pelo menor saldo.
A avalanche tende a reduzir mais o custo financeiro porque concentra os recursos na dívida que cresce mais rápido. Já na bola de neve, a vantagem é comportamental: quitar uma pendência menor mais rapidamente dá sensação de avanço e pode ajudar a manter a disciplina.
Fátima Macedo lembra que também é possível combinar os dois métodos. A pessoa pode eliminar uma dívida pequena que esteja ao alcance e, depois, concentrar o dinheiro liberado nas dívidas mais caras, como rotativo do cartão e cheque especial.
“Assim, é possível unir economia financeira e motivação”, reforça a especialista.
Como aplicar cada método
| Estratégia | Ordem de pagamento | Quando faz mais sentido |
|---|---|---|
| Avalanche | Da maior para a menor taxa de juros | Quando o objetivo principal é reduzir o custo financeiro |
| Bola de neve | Do menor para o maior saldo | Quando enxergar resultados rápidos ajuda a manter a disciplina |
| Combinação | Quita uma dívida pequena e depois ataca as mais caras | Quando é preciso equilibrar motivação e economia de juros |
O que NÃO fazer quando se está endividado?
Os especialistas alertam que alguns erros podem prolongar o problema mesmo depois de uma renegociação. Entre os principais, estão:
- Aceitar um acordo apenas para interromper cobranças: a pressão para resolver logo pode levar a condições ruins ou difíceis de sustentar.
- Quitar o cartão com outro crédito e voltar a usar todo o limite: nesse caso, a pessoa troca uma dívida por outra e ainda corre o risco de acumular as duas.
- Usar todo o dinheiro disponível para aproveitar um desconto à vista: uma boa oferta perde o sentido se deixar a conta zerada e sem espaço para despesas inesperadas.
- Esconder a situação de quem divide o orçamento: quando a família compartilha despesas, todos precisam conhecer o plano para evitar novos compromissos durante a reorganização.
A renegociação precisa vir acompanhada de mudança de comportamento. Caso contrário, a dívida muda de formato, mas o problema permanece.
Como evitar um novo endividamento?
Depois de quitar ou renegociar as dívidas, o foco passa a ser criar espaço no orçamento para não repetir o ciclo. Fátima Macedo e Leonardo Baldez Augusto destacam algumas medidas práticas:
- Comece uma reserva de emergência: a meta pode ser construída aos poucos até alcançar o equivalente a três a seis meses das despesas essenciais.
- Revise gastos fixos periodicamente: assinaturas, aplicativos, planos e serviços pouco usados podem consumir uma parcela relevante da renda sem chamar atenção.
- Não transforme aumento de renda em aumento automático de padrão de vida: bônus, renda extra ou promoções podem reforçar a reserva ou acelerar metas financeiras.
- Use o cartão pela capacidade de pagamento, não pelo limite disponível: a referência deve ser quanto cabe integralmente no orçamento quando a fatura chegar.
- Acompanhe o orçamento todos os meses: registrar entradas e saídas ajuda a identificar excessos antes que eles virem novas dívidas.
- Corte despesas que já não cabem na renda: a reorganização exige rever hábitos e gastos recorrentes que continuam pressionando o orçamento mesmo depois da renegociação.
“Limpar o nome é importante, mas não pode ser tratado como linha de chegada”, afirma Leonardo. O objetivo é chegar ao fim do mês sem depender de crédito para completar despesas correntes e conseguir absorver imprevistos sem voltar à inadimplência.