A educação que queremos

A pandemia aprofundou as lacunas que já existiam. Precisamos repensar as práticas e agir agora para superar os novos desafios

“A pandemia de covid-19 acentuou as desigualdades e aprofundou ainda mais as lacunas educacionais que já existiam. Desde o início da crise, em 2020, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) tem alertado que o distanciamento entre a escola e os estudantes provocou uma catástrofe de aprendizagem, com perdas cognitivas que vão impactar toda uma geração e que exigirão décadas para se recompor.

No Brasil, as escolas permaneceram fechadas por cerca de 53 semanas, em média. Mais de 40 milhões de estudantes da educação básica enfrentaram consequências profundas, tanto na aprendizagem quanto na proteção contra as mais diversas formas de violência, o trabalho infantil e a fome.

Isso porque, em muitos casos, a merenda escolar é a principal e, por vezes, a única refeição diária dos estudantes em situação de extrema pobreza. Além disso, muitos perderam o vínculo diário com os professores e os colegas, o que afetou sua sociabilidade e saúde mental.

Nesse contexto, o momento é de atenção aos estudantes e de valorização daqueles que estão mais próximos física e emocionalmente deles: os docentes.

Uma rede de apoio é fundamental para que ambos, estudante e docente, tenham acesso a serviços de saúde mental e psicossocial, a fim de reduzir o estresse provocado pela pandemia e promover o bem-estar.

Outro desafio enfrentado não somente pelos professores mas também pelos estudantes foi o abismo tecnológico existente em decorrência das disparidades socioeconômicas. Em casa, sem ter os recursos adequados para aprender, como computador e acesso rápido à internet, meninos e meninas em situação de vulnerabilidade não foram capazes de acompanhar as aulas remotas durante a pandemia.

A garantia de uma ampla conectividade é essencial para que tenhamos um sistema de aprendizagem mais equitativo

Muitas famílias tiveram de lidar com pacotes de dados insuficientes, com a ausência de equipamentos adequados e, muitas vezes, precisaram dividir um único aparelho celular para conseguir acompanhar as aulas. A falta de dispositivos como computador e celular e de acesso à internet no domicílio dos estudantes foi apontada pelos gestores escolares como um dos grandes desafios para o ensino remoto, conforme os dados divulgados em 2021 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic).

A garantia de uma ampla conectividade é essencial para que tenhamos um sistema de aprendizagem mais equitativo. Esse é um direito de todos, reconhecido pela ONU desde 2012. A exclusão digital é também uma barreira para a implementação das novas formas de ensino a distância, que estarão cada vez mais presentes no cotidiano das escolas.

Mais do que nunca, é importante desenvolver iniciativas nos âmbitos municipal, estadual e nacional que promovam o acesso de todos os estudantes aos atuais modelos de educação remota. É igualmente relevante adaptar os materiais didáticos, adquirir equipamentos modernos e capacitar os professores para o uso das novas plataformas.

Por último, é preciso repensar a estrutura física das escolas. É crucial que sejam adotados e seguidos todos os protocolos de prevenção à covid-19, os quais devem abranger a limpeza e a desinfecção dos ambientes, o distanciamento e a organização das turmas nas salas de aula, a higienização das mãos e o uso de máscaras, além da elaboração e da divulgação de informações confiáveis para lidarmos com a pandemia e suas consequências.

Volta às aulas no segundo semestre no Colégio Porto Seguro, no bairro do Morumbi, na zona sul da capital paulista. (ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE)
Sala de aulaapós a retomada:esforço pararecuperar o atraso (Alex Silva/Estadão Conteúdo/AE)

Em conjunto com outras agências do Sistema ONU, a Unesco coordenou a divulgação de publicações e relatórios que auxiliaram nas estratégias e nos protocolos para o processo de retorno às aulas com segurança. No Brasil, alguns estados estão mais avançados do que outros em relação à reabertura das escolas, o que torna imperativo um monitoramento contínuo para que não tenhamos uma realidade ainda mais desigual do que aquela que conhecíamos antes da pandemia.

Além do acompanhamento na atual fase de retorno às atividades presenciais, a Unesco acredita que é chegada a hora de reinventar a educação e acelerar as mudanças nos sistemas de ensino.

O primeiro passo dado pela organização para lidar com essa interrupção educacional súbita e sem precedentes foi o lançamento, no ano passado, da Coalizão Global de Educação, uma plataforma de colaboração e intercâmbio para proteger o direito à educação de crianças, adolescentes e jovens ao redor do mundo. A coalizão reúne mais de 140 membros da família da ONU, da sociedade civil, de universidades e do setor privado para garantir que a aprendizagem nunca pare.

Também desempenha um papel fundamental no acompanhamento da situação da educação no mundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação (Relatório GEM), elaborado por um grupo de especialistas independentes e lançado anualmente pela Unesco.

Uma educação transformadora será imprescindível para que as próximas gerações sejam capazes de enfrentar crises igualmente desafiadoras no futuro

Em 2020, o Relatório GEM apontou que 258 milhões de crianças e jovens de 209 países ficaram longe da escola devido à pandemia; outra conclusão é que a covid-19 expôs não apenas as fragilidades dos sistemas de ensino mas também a necessidade de uma ação conjunta e urgente para promovermos uma educação de qualidade para todos.

Uma dessas ações foi o recente lançamento do relatório global que propõe um novo contrato social para a educação, elaborado pela Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação da Unesco. Trata-se de um ambicioso projeto que mobilizou vários especialistas e pensadores de todo o mundo para refletir e debater sobre como a educação deve ser repensada para enfrentar os desafios da atualidade.

O documento, que segue a tradição do relatório de 1972 da Comissão Faure (“Aprendendo a ser: o mundo da educação hoje e amanhã”) e do Relatório Delors de 1996 (“Educação: um tesouro a descobrir”), contou com a colaboração de mais de 1 milhão de pessoas do mundo inteiro, as quais participaram do processo de consultas globais, e tem como horizonte o ano de 2050.

Destacando práticas que devem ser mantidas e outras que podem ser abandonadas, esse novo relatório da Unesco propõe que seja construída uma visão compartilhada de propósitos públicos da educação a serviço do bem comum, por meio de princípios coletivos com base em direitos humanos fundamentais, como a inclusão e a equidade, a cooperação e a solidariedade.

Precisamos agir agora para superarmos os desafios educacionais trazidos pela pandemia de covid-19. Isso somente poderá ser alcançado se priorizarmos uma educação de qualidade para todos e se nos comprometermos a colocar em prática o novo contrato social para a educação.

A Unesco acredita que essa educação transformadora será imprescindível não apenas para nos recuperarmos da crise que assolou e assola o mundo mas também para que as próximas gerações sejam capazes de enfrentar, de maneira consciente, crises igualmente desafiadoras no futuro.”

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