Risco de dominância fiscal nos EUA está crescendo, diz Janet Yellen

Ex-secretária do Tesouro afirma que o risco aumentou, embora o Fed siga decidindo sem interferência, e cita ameaças judiciais e políticas ao banco central americano

Paulo Barros

Janet Yellen (Arte: Leo Albertino/InfoMoney)
Janet Yellen (Arte: Leo Albertino/InfoMoney)

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As condições que costumam levar à dominância fiscal estão aumentando nos Estados Unidos, afirmou Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro americano e ex-presidente do Federal Reserve, em conversa com jornalistas nesta quinta-feira (23), durante a Expert XP 2026.

Segundo ela, o mecanismo já está exposto no discurso do presidente Donald Trump, que defende publicamente juros mais baixos e afirmou de forma explícita estar preocupado com o custo de servir a dívida americana. “Manter os juros baixos é, essencialmente, a forma como ocorre a dominância fiscal”, afirmou Yellen.

A ex-secretária ponderou que a tentativa não teve sucesso até agora e que o Fed segue tomando decisões de forma adequada. “Neste momento, é apenas um risco. Mas eu diria que o risco aumentou”, afirmou.

Yellen avaliou que a situação fiscal americana é administrável no momento, mas destacou que a despesa com juros se tornou um gasto muito substancial com a alta das taxas e, na avaliação dela, já se aproxima do orçamento de defesa americano. A preocupação maior, disse, está na trajetória futura do endividamento.

O país opera com déficit primário em torno de 3% do PIB e déficit total, incluindo juros, perto de 6% do PIB, patamar que, segundo ela, os EUA não registram fora de períodos de recessão ou guerra. Caso nada seja feito, lembrou, o Congressional Budget Office (CBO) projeta que a relação entre dívida e PIB chegue a algo próximo de 120% em meados da década de 2030.

Os vetores desse avanço são conhecidos há tempos, na avaliação dela, e passam pelo envelhecimento populacional, pela menor quantidade de trabalhadores para sustentar aposentados e pela alta dos custos de saúde por habitante, o que amplia a fatia do Medicare e da Previdência em relação ao PIB. Sem elevação de receitas ou corte nesses gastos, os déficits tendem a crescer.

Ela ressalvou que considera possível lidar com o problema, desde que os EUA comecem logo a colocar as contas em trajetória sustentável. O obstáculo, na leitura dela, é político, já que não existe solução fácil e nem republicanos nem democratas apresentam propostas relevantes de redução de déficit.

Yellen observou ainda que uma razão dívida/PIB de 100% não gerava desconforto quando os juros longos estavam muito baixos, situação que mudou com o encarecimento do serviço da dívida e pode gerar um problema fiscal em escalada. “São essas as condições em que surgem pressões sobre bancos centrais”, falou.

O Tesouro americano aposta atualmente suas fichas na capacidade de aumento de produtividade que a Inteligência Artificial promete proporcionar, como meio de enfrentar a inflação. Mas Yellen ainda diz que é muito cedo para dizer se esse efeito será confirmado.

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Tudo depende do horizonte de tempo. Até agora, parece que a IA está impactando alguns setores específicos, aqueles muito expostos à tecnologia, e influenciando as contratações, mas ainda não se observa um impacto agregado em nível nacional na produtividade da economia dos EUA”, ponderou. “Poderá acontecer no futuro, mas normalmente esses efeitos demoram a aparecer”.

Ameaça à independência do Fed

Questionada sobre o cerco ao Federal Reserve, Yellen respondeu que a instituição continua atuando como um banco central independente e que não há evidência, no comportamento da política monetária, de que tenha sido danificada. Ainda assim, foi enfática sobre a intenção do governo. “Estou extremamente preocupada com o que Trump está fazendo, e acho que ele está realmente tentando destruir a independência do Federal Reserve”, declarou.

Ela citou a decisão mais recente da Suprema Corte no caso Slaughter, que na prática encerrou a autonomia das agências reguladoras independentes americanas, desfecho que classificou como muito grave. O Fed, nessa mesma decisão, foi tratado como instituição única e ficou de fora do alcance do entendimento.

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Yellen mencionou ainda a tentativa do presidente de remover a diretora do Fed Lisa Cook por justa causa. Ela segue no cargo enquanto a disputa é julgada, mas Yellen ressalta que ameaça de usar o Departamento de Justiça segue presente. Se episódios assim forem tolerados, avaliou, o conjunto pode se transformar em ameaça significativa.

Por ora, na leitura dela, o Fed preserva credibilidade. A ex-secretária disse esperar que o Congresso cumpra papel relevante no reforço da independência do banco central americano.

Paulo Barros

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos