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O Super El Niño, fenômeno climático que já bateu mais de 90% de probabilidade de escalar para um evento de força extrema no último trimestre deste ano, deve impactar o Produto Interno Bruto (PIB) do país, a logística no escoamento de produtos e o custo dos alimentos. Os riscos de alta na inflação estão no radar de diversas entidades econômicas, incluindo o Comitê de Política Monetária (Copom), o que pode afetar o ciclo de calibração de juros no país.
A projeção é que a temperatura do Oceano Pacífico subirá entre 2 °C e 2,5 °C acima da média.
Ao mesmo tempo, as temperaturas globais da terra ficarão até 1,2°C acima do normal nos próximos meses. O Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, projeta o risco de até 451 mil mortes em todo o mundo relacionadas ao calor.
“Esse ano a gente tem uma situação nunca antes vista, que é a combinação de um El Niño muito forte com um planeta muito quente e o próprio Atlântico muito quente”, afirma Alexandre Nascimento, meteorologista e sócio-diretor da Nottus Meteorologia.
Impacto em alimentos
No Brasil, o impacto econômico mais imediato recai sobre a inflação de alimentos frescos, como frutas, legumes e verduras. Por outro lado, o volume de chuvas pode favorecer o crescimento do pasto. Nos caso da produção agropecuária, isso pode reduzir a necessidade de confinar o gado e complementar com ração nas situações em que é possível fazer este manejo, pontua Nascimento.
Segundo o banco Itaú, a alta acumulada neste grupo pode atingir cerca de 25% em 12 meses, adicionando aproximadamente 0,30 ponto percentual ao IPCA de 2026.
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Para 2027, os riscos inflacionários se estendem para os grãos e proteínas animais. O Itaú afirma que, historicamente, a safra de milho é mais afetada pelo El Niño, porque o ciclo de chuvas reduz a janela para a segunda safra de plantio, conhecida como safrinha. A queda de produção estimada é de 17%, segundo o Itaú. No PIB agropecuário, a estimativa é de recuo de 1,3%.
Nascimento recomenda que, neste caso, os produtores iniciem o plantio imediatamente após o período de vazio sanitário, para antecipar a safra de verão e tentar mitigar os impactos do El Niño.
Seguro rural e perdas nas lavouras do Sul
A Região Sul enfrenta excesso de precipitação, tempestades severas e aumento na ocorrência de tornados, de acordo com Nascimento, da Nottus.
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Dados do Simepar apontam que, até o fim de agosto, o Paraná contabilizou 272 eventos climáticos extremos, incluindo vendavais, granizo, enxurradas e sete tornados das categorias F3 e F4.
A estimativa da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) é de prejuízos que somam R$ 860 milhões.
Os impactos nas lavouras do Sul variam conforme a cultura. Os cereais de inverno, como trigo e Cevada, são impactados pelo excesso de umidade, que deteriora a qualidade dos grãos e gera deságio no preço pago ao produtor.
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O quadro agrava o cenário de endividamento do setor agro, já que essas perdas de qualidade não são cobertas pelo seguro rural, voltado apenas para quebras de produtividade
Nas plantações de soja, as tempestades no início da época de plantio provocam erosão e exigem replantio, segundo a CNA, e a umidade contínua aumenta os casos de ferrugem asiática, encarecendo o manejo fitossanitário
O plantio de arroz irrigado no Rio Grande do Sul pode perder o rendimento médio devido à falta de incidência de luz solar e maior ocorrência de nuvens durante o El Niño.
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A CNA pediu urgência do apoio governamental à subvenção do seguro rural, destacando que as seguradoras estão restringindo apólices e elevando prêmios diante da frequência dos eventos severos.
Abastecimento dos reservatórios
O acúmulo de chuvas acima do normal estão garantindo a elevação dos níveis de grandes sistemas, como o Cantareira. De acordo com dados da Sabesp, em setembro, já choveu 355% acima da média histórica para o mês no sistema Cantareira.
Os reservatórios do interior Paulista também se beneficiam do volume de chuvas, afastando o fantasma dos racionamentos severos do passado recente. “A expectativa é de muita chuva ainda até o final do mês, e em outubro também, de muita água. Você acaba tendo algumas soluções, vamos dizer assim, em meio ao caos”, diz Nascimento.
Esse volume de água favorece as hidrelétricas. A recomposição dos reservatórios afasta o risco de disparada nas tarifas de energia elétrica, mantendo os preços estáveis ou em queda no curto prazo, pontua o meteorologista.
O alerta fica para as infraestruturas afetadas por vendavais, como as usinas solares do interior paulista.
Norte com seca e gargalo logístico no Tapajós
Enquanto as chuvas atingem o Sul e Sudeste, a estiagem prolongada deve afetar as vias de escoamento de produção na Região Norte.
A projeção é de um gargalo logístico no Arco Norte, corredor responsável pelo escoamento de 60 milhões das 312 milhões de toneladas da produção nacional de grãos, de acordo com Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, movimento que reúne os seis principais grupos de infraestrutura do país.
Na hidrovia do rio Tapajós, a projeção é de interrupção total da navegabilidade entre o final do ano e o início de 2027. A hidrovia é responsável pelo escoamento de 17 milhões de toneladas ao ano – 88% são de soja e milho vindos do Mato Grosso.
Essa interrupção impedirá o transporte de 5 milhões de toneladas de grãos, gerando um prejuízo direto estimado entre R$ 800 milhões e R$ 850 milhões para o agronegócio. Essa carga terá que ser escoada por outros caminhos, como a rota rodoviária, que encarece o transporte. A estimativa é que o custo do frete aumente de R$ 150 e R$ 250 o gasto por tonelada, um aumento de até 50% se comparado ao da hidrovia.
Além disso, haverá impacto de sobrecarga de caminhões nas estradas e nos portos do Sul e Sudeste, como os de Santos e Paranaguá, gerando filas e custos de demurrage [valor que o armador cobra por dia quando o importador extrapola o prazo para devolução do contêiner vazio].
“Há uma janela de redução de navegabilidade que já está acontecendo, e uma segunda janela de projeção de interrupção da navegação com reabertura de fluxo só a partir de meados de janeiro. Hoje, as estimativas do setor apontam um incremento no custo da navegação entre R$ 150 a R$ 250 por tonelada. Ou seja, além de reduzir a carga e perder impostos, há um custo elevado e perda de competitividade em commodities”, afirma Alex Carvalho, presidente da Fiepa (Federação das Indústrias do Estado do Pará).
Ele destaca que, do ponto de vista ambiental, o transporte rodoviário emite dez vezes mais carbono que o hidroviário, gerando 50 mil toneladas adicionais de CO₂ equivalente.
“Se não conseguir escoar pelo transporte hidroviário, esse caminhão vai seguir até Santarém ou Belém. São 400 km de estrada terrível, que é a Transamazônica, uma via não pavimentada, com lama, barro, poeira. Os caminhoneiros nem topam muito fazer essa rota porque é uma aventura no meio da selva”, diz Glanzmann.
Uma parte da solução passaria pela dragagem do leito, que esbarrou em pautas ambientais, da população indígena e de movimentos ribeirinhos.
Na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), responsável por cerca de 15% da safra nacional de grãos, a irregularidade e o atraso das chuvas ameaçam o calendário de plantio e elevam o risco de quebras de produtividade, alerta Nascimento.
Balança comercial
No comércio exterior, estimativas apontam que o choque de oferta pode reduzir a balança comercial brasileira em até US$ 3 bilhões, ainda segundo o Itaú, distribuídos entre perdas de US$ 1,4 bilhão nas exportações de milho e US$ 1,6 bilhão nas de soja.
Além dos grãos, análises do mercado global de commodities feitas pelo Goldman Sachs alertam para gargalos na oferta mundial de açúcar. Brasil, Índia e Tailândia, afetados pelo El Niño, concentram cerca de 70% das exportações globais.
Segundo o relatório da instituição, a projeção de tempo seco na região de produção no Brasil entre o fim de 2026 e o início de 2027 é o principal fator de risco para o mercado. A estiagem pode comprometer tanto a safra de cana-de-açúcar quanto a de milho no próximo ano. Esse duplo choque agrícola impulsionaria a demanda por etanol de cana, reduzindo a oferta brasileira de açúcar disponível para exportação.