Sinais opostos

Banco Central está “hawkish” e o Fed está “dovish”, mas o que isso significa?

Autoridades monetárias optaram por caminhos diferentes: enquanto Copom eleva juros e indica aperto monetário, Fed deve manter juros perto do zero até 2023

SÃO PAULO – A última quarta-feira (17) foi movimentada para os mercados, principalmente em meio às recentes decisões de juros. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central surpreendeu os investidores ao elevar a Selic em 0,75 ponto percentual para 2,75% ao ano, a primeira alta de juros em quase seis anos. Além disso, já sinalizou uma nova alta de juros na mesma magnitude na próxima reunião.

No mesmo dia, horas antes nos Estados Unidos, o Fomc, o comitê de política monetária do Federal Reserve, manteve os juros a patamares baixos, entre 0% e 0,25%. Apesar de, num primeiro momento, não ter havido nenhuma novidade na decisão, o Fed, balizado também pelo discurso do seu presidente, Jerome Powell, deu muitas indicações sobre o futuro da política monetária americana, ao indicar que as taxas devem ser mantidas a esse patamar até 2023, apesar das projeções altistas para a atividade econômica e para a inflação.

No comunicado, o Fed destacou que a economia dos Estados Unidos deverá crescer 6,5% em 2021 (contra uma previsão anterior de 4,2%). Já a previsão para a inflação dos Estados Unidos medida pelo índice de preços para os gastos pessoais (PCE)  foi de 1,8% para 2,4% para 2021 enquanto que, para 2022, a previsão passou 1,9% para 2,0%, e para 2023 houve alta de 2,0% para 2,1%. No longo prazo, o Fed manteve a previsão em 2,0%. Como amplamente esperado, o Comitê também votou para manter as taxas de empréstimos de curto prazo estáveis perto de zero, enquanto continua um programa de compra de ativos no qual o banco central compra pelo menos US$ 120 bilhões em títulos por mês.

Em seu discurso, Powell sinalizou que a autoridade monetária deverá manter sua atitude mais tolerante com a inflação para não interromper o processo de recuperação econômica.

Com isso, a avaliação geral é de que o BC brasileiro está com uma postura mais “hawkish”, enquanto o Fed se mostra “dovish”. Mas você sabe a diferença entre esses dois termos?

O termo “dovish” é um neologismo que deriva da palavra pombo em inglês (dove), que reflete uma postura mais favorável a taxas de juros mais baixas e menor preocupação com a inflação. Já o termo “hawkish” é o contrário. Ele deriva do termo falcão em inglês (hawk) e define os defensores de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte.

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No caso brasileiro, mesmo ganhando espaço as projeções de que a atividade econômica possa perder força em meio às novas medidas de isolamento social com o agravamento da pandemia do novo coronavírus, a grande preocupação do Banco Central foi quanto à ancoragem das expectativas inflacionárias do próximo ano.

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O Copom argumentou que “o cenário atual já não prescreve um grau de estímulo extraordinário”, mencionando o crescimento forte do PIB no final do ano passado e as projeções de inflação “acima da meta no horizonte relevante de política monetária”.

De acordo com o Conselho Monetário Nacional (CMN), o centro da meta do governo para a inflação em 2021 é de 3,75%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 2,25% e o superior, 5,25%. Para 2022, o centro da meta é de 3,5%, também com a banda de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Na análise feita com a taxa de juros da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de R$ 5,70, as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 5,0% para 2021 (já perto do teto da meta) e de 3,5% para 2022.

As indicações do BC com o comunicado levaram muitos bancos e casas de análise a revisarem as suas projeções para a Selic em 2021, avaliando que os juros deverão subir mais do que estavam projetando antes da decisão (veja mais aqui). Já Caio Megale, economista-chefe da XP, manteve a sua projeção de que a taxa básica de juros terminará o ano a 5%:  para ele, o que irá mudar é o ritmo de cortes.

Na visão do economista, ao elevar a taxa Selic em 0,75 ponto, o Copom optou pela implementação de um “ajuste mais rápido”. E, ao sinalizar que vai manter o ritmo da alta em maio, poderá ajudar a evitar especulações de uma aceleração mais forte mais adiante.

Com a decisão de ontem, Megale ajustou a previsão em relação ao ritmo do processo do aperto monetário. A projeção agora é de que o Copom deverá promover mais uma elevação da Selic de 0,75 ponto percentual, seguida por três aumentos de meio ponto cada. A previsão anterior era de seis aumentos dos juros básicos de meio ponto. “Essa projeção pode parecer diferente da sinalizada pelo Copom, mas entendemos que seria o movimento mais seguro para garantir que a inflação cumpra a meta em 2022 sem a necessidade de novas altas em 2022”, aponta.

Já no caso do Federal Reserve, a decisão de manter os juros perto de zero pelo menos até 2023 mesmo em um cenário de aceleração da atividade e com maiores expectativas de inflação gerou alívio para os investidores na sessão da véspera.

O comunicado do Fed e a entrevista de Powell “claramente mostram um cenário mais calmo para os EUA em termos inflacionários, na contramão do contexto no Brasil. Sem juros altos no curto e médio prazo, com liquidez garantida”, afirmou à Reuters Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

Após um longo período de manutenção de juros perto do zero, a expectativa da XP é de que o Fed deva iniciar o processo de redução de compra de ativos (tapering) no terceiro trimestre de 2022 e de que o primeiro aumento nos juros deva vir no primeiro trimestre de 2024. Essa sinalização acaba também por pressionar o movimento dos títulos de longo prazo nos EUA. Assim, a decisão, contudo, deve significar altas maiores de juros mais à frente.

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Cabe destacar que, após a reação inicial na véspera com as declarações do Fed, os rendimentos de referência dos Treasuries atingiram novas máximas em 14 meses nesta quinta-feira, colocando nova pressão sobre as ações de tecnologia em Wall Street. O rendimento do Treasury de 10 anos chegou a subir nesta quinta-feira acima de 1,75% pela primeira vez em 14 meses.

Juros mais altos sobre título nos EUA em decorrência da retomada da economia e da inflação, podem levar uma parte dos investidores a migrar do mercado de ações para o de títulos, o que influencia no desempenho das bolsas. O mercado de títulos é visto como mais seguro por ser garantido pelo governo, que tem poder de elevar impostos para cobrir gastos, caso necessário. Assim, mesmo com uma perspectiva de alta bem mais lá na frente, a projeção de aumento da inflação segue impactando o mercado por lá.

“Dados os movimentos recentes, (…) o teste derradeiro tende a ocorrer nos Treasuries de 10 anos. Ainda assim, o sinal de que a liquidez, os juros e os estímulos continuarão demonstra que o custo fiscal, novamente, ficou para o futuro”, destaca Vieira, da Infinity Asset. Vale ressaltar que, na semana passada, o presidente Joe Biden assinou um pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão, enfatizando a importância da medida, no momento em que o país tenta se recuperar do choque da Covid-19.

No curto prazo, com a sinalização de juros perto do zero por um longo período de tempo nos EUA e com a alta de juros por aqui, a expectativa imediata é de que o real se valorize. Isso uma vez que, em meio ao diferencial bastante baixo entre as taxas dos EUA e daqui, muitos investidores estrangeiros saíram do Brasil, sendo um dos fatores para a apreciação do dólar.

Na sessão desta quinta-feira, às 14h48 (horário de Brasilia), o dólar comercial tinha baixa de 0,62%, a R$ 5,547 na compra e 5,548 na venda. Na véspera, após o Fomc, a divisa americana já havia registrado queda. Contudo, outros fatores devem seguir gerando impacto no câmbio, principalmente o doméstico, como o fiscal e o noticiário político.

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