Aumento elogiado pelo mercado

Bradesco, BofA e XP ajustam projeções para ciclo de alta da Selic após decisão do BC

UBS estima nova elevação dos juros básicos em 2022, com a taxa Selic no patamar de 5,25% em dezembro no próximo ano

SÃO PAULO – Com a decisão de subir os juros básicos em 0,75 ponto percentual, para 2,75% ao ano, um ritmo mais forte que o previsto pela maior parte do mercado, e já indicar a continuação na reunião de maio, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central provocou revisões de cenários pelas equipes de grandes instituições financeiras.

Seja com um aumento da projeção para a Selic ao fim de 2021 ou com alterações no ritmo do ajuste a ser feito, o tom mais “hawkish” do BC no comunicado, indicando uma defesa de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte, foi bem recebido pelo mercado financeiro.

A equipe do Bank of America (Bofa) aumentou a previsão para a taxa Selic ao fim de 2021 de 4% para 5% ao ano, e de 5,25% para 5,75%, em dezembro de 2022.

No grupo majoritário, a equipe do Bradesco também esperava um aumento de meio ponto da Selic na reunião do Copom de março e viu na decisão uma mudança significativa.

Em relatório assinado por Dalton Gardimam, Ricardo Mauad e Bernardo Keiserman, o banco classifica a elevação dos juros como uma medida adequada para lidar com o cenário atual de crescentes riscos e incertezas, levando a um real mais fraco, e com dados de inflação acima dos esperados.

Com uma visão de um Banco Central cada vez mais agressivo, o Bradesco espera agora que a taxa Selic atinja 5,0% ao fim de 2021, com nova alta de 0,75 ponto, em maio, e três aumentos de meio ponto cada.

A previsão anterior apontava para quatro altas seguidas de meio ponto da Selic, levando a taxa para 4,0% ao fim do ano.

Ajuste mais rápido para subir menos

Na visão da XP, ao elevar a taxa Selic em 0,75 ponto, o Copom optou pela implementação de um “ajuste mais rápido”. E, ao sinalizar que vai manter o ritmo da alta em maio, poderá ajudar a evitar especulações de uma aceleração mais forte mais adiante.

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Embora considere a decisão em linha com seu cenário de Selic a 5% ao fim do ano, a XP ajustou a previsão em relação ao ritmo do processo do aperto monetário. Segundo o economista-chefe Caio Megale, o Copom deverá promover mais uma elevação da Selic de 0,75 ponto percentual, seguida por três aumentos de meio ponto cada. A previsão anterior presumia seis aumentos dos juros básicos de meio ponto.

“Essa projeção pode parecer diferente da sinalizada pelo Copom, mas entendemos que seria o movimento mais seguro para garantir que a inflação cumpra a meta em 2022 sem a necessidade de novas altas em 2022”, diz Megale, em relatório.

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O economista menciona três razões principais que embasam a avaliação de que o comunicado pós-reunião sugeriu que o plano de voo inicial do BC não aponta para uma taxa Selic muito mais alta.

A primeira é a visão de que o Copom continua avaliando que a alta da inflação corrente se deve a choques “temporários”; a segunda reside sobre as simulações do modelo proprietário do BC, que mostram a inflação exatamente na meta em 2022 (3,5%), ao considerar a taxa Selic em 4,5%, neste ano, e 5,5%, no próximo; e a terceira é a menção de que o Copom “antevê a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário”.

“O que significa ‘parcial’? Normalização total pode ser entendida como aquela que traz a taxa de juros real ao seu nível neutro. Em comunicações anteriores, o Copom indicava que esse nível ficaria em torno de 3,0%, em termos reais – consistente com a taxa Selic nominal em torno de 6,5%. Assim, a normalização parcial deve trazer a taxa abaixo desse nível”, disse Megale, em relatório.

Assim, a estratégia do Copom aponta para um ajuste mais rápido, para que possa fazer menos, resumiu o economista.

Nova elevação da Selic em 2022

O UBS também manteve a projeção para a taxa Selic ao fim do ano em 4%, com elevações de 0,75 ponto percentual na reunião do Copom de maio, e de 0,50 ponto, em junho. Para 2022, o banco estima nova subida dos juros, com a taxa básica no patamar de 5,25% em dezembro.

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Apesar de um tom tido como “hawkish” do BC no comunicado, o UBS disse acreditar que também há pontos sugerindo que o ajuste total da Selic este ano poderá ser menos intenso do que o mercado espera.

“O comitê observou que as perspectivas atuais não pedem mais estímulos monetários ‘extraordinários’. Mas, ao mesmo tempo, o Copom disse que se trata de um ‘processo de normalização parcial’ e que o ‘ajuste mais rápido’ foi necessário para ajudar a conter as expectativas do consenso para o IPCA em 2021 e manter o alinhamento com a meta em 2022, especialmente se as novas restrições de mobilidade se mostrarem temporárias”, assinalaram o economista Fabio Ramos e o estrategista Roque Montero, em relatório.

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Na visão do UBS, o desenrolar da pandemia e as consequências econômicas e políticas determinarão os próximos passos.

Por ora, o banco vê a atividade econômica brasileira em forte deterioração nos números de março, com a expectativa de queda do PIB no primeiro trimestre do ano e com a possibilidade de um maior hiato do produto – definido como a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial de um país – nos próximos meses, devido às amplas restrições.

Por isso, mesmo com a alta da Selic mais forte que o esperado pelo mercado nesta quarta-feira, o UBS vê a moeda brasileira ainda pressionada, enquanto a pandemia não arrefecer. “Quando o macroambiente geral melhorar, o Banco Central poderá promover uma segunda etapa no ajuste da política, possivelmente no primeiro trimestre de 2022.”

Para a equipe do banco, o real deve se beneficiar dos resultados das reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Copom em março, mas “ainda não saiu de perigo”. A perspectiva fiscal e a agenda de reformas são apontadas como fatores-chave para que a pressão sobre a moeda brasileira diminua.

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