Coquetéis e toalhas

Esquecidos por anos, passageiros da classe econômica ganham comodidades

Delta Airlines vai oferecer mimos como mais opções de entradas e pratos principais e toalhinhas umedecidas. Mas o aperto entre as poltronas continua...

Filas de passageiros sentados em avião
(Shutterstock)

NOVA YORK – Poucas experiências da vida moderna testam os limites da dignidade humana como viajar de avião – especialmente se você, como a maioria dos mortais, voar na classe econômica.

A disputa pelo espaço dos compartimentos de bagagem; o nariz que quase toca no encosto da poltrona da frente; a comida irreconhecível: voar nada tem de glamouroso, por mais que as companhias aéreas tentem convencer do contrário com suas campanhas de marketing.

Mas há esperança. Algumas empresas aéreas estão voltando a prestar atenção nos passageiros da classe econômica.

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A partir desta semana, a americana Delta Air Lines vai começar a oferecer comodidades há muito tempo esquecidas em alguns de seus voos internacionais mais longos.

Quem viaja de econômica será recebido com coquetéis de boas-vindas a bordo e toalhinhas umedecidas e quentes. As refeições também foram reformuladas. As porções serão maiores, e o passageiro poderá combinar diferentes entradas e pratos principais.

Os pratos e talheres também vão receber um upgrade, e as mesinhas serão cobertas com toalhas. Pode não ser um jantar cinco estrelas, mas é uma melhoria considerável em relação ao “chicken or pasta?”.

“Não mudamos nosso serviço há 20 anos na classe econômica. Era uma oportunidade gritante”, disse Allison Ausband, vice-presidente sênior de serviços de bordo, numa entrevista recente.

A declaração resume uma realidade das companhias aéreas: embora os viajantes de classe executiva e primeira classe representem pouco mais de 10% do total de passageiros, eles são imensamente mais lucrativos.

Mas a Delta acredita que uma experiência melhorada na classe econômica possa ser um diferencial no hipercompetitivo mercado da aviação comercial.

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A empresa afirma estar investindo US$ 1 bilhão nos upgrades. Eles também incluem a instalação de telas: a Delta anunciou recentemente ter chegado a 700 aviões com sistemas de entretenimento individuais, um conforto que diversas outras companhias estão abandonando, já que muitos passageiros trazem consigo seus próprios computadores, tablets e celulares.

Além da comodidade, a companhia também vem se esforçando para reduzir cancelamentos e ser mais pontual.

No ano passado, menos de 1% dos voos da Delta foram cancelados; na American Airlines, maior empresa aérea dos Estados Unidos, o total foi três vezes maior.

Em relação aos atrasos superiores a 45 minutos, a empresa também obteve melhores resultados que as concorrentes, segundo um ranking anual publicado pelo The Wall Street Journal.

O serviço de bordo diferenciado será oferecido somente em voos internacionais que durem mais de seis horas e meia. Para distâncias mais curtas, com a competição acirrada de empresas low-cost, como Frontier, JetBlue e Southwest, não há alívio à vista, por enquanto.

Leia mais: Por que a Delta deixou a Gol e fechou uma parceria com a Latam

Desde a desregulamentação da aviação comercial nos Estados Unidos, há 40 anos, as empresas vêm tentando extrair cada centavo dos voos que operam.

Nas décadas de 1950 e 1960, a distância média do encosto de uma poltrona para a da frente era de 90 centímetros.

Nos anos 1980, ela encurtou cerca de 7 centímetros. Na virada do século, tinha perdido mais cerca de 3 centímetros.

A campeã do aperto é a low-cost Spirit, que oferece meros 70 centímetros entre as poltronas.

Na última década, outros serviços que eram gratuitos passaram a ser cobrados, um fenômeno chamado de “unbundling”.

Além da taxa para despachar bagagens em voos domésticos, em certas classes de tarifa as companhias cobram pela escolha do assento e vendem à parte o “privilégio” de embarcar antes dos outros passageiros.

Remarcar bilhetes também incorre em custo extra – a menos que o passageiro decida comprar um seguro extra para poder alterar a reserva sem multa.

Do ponto de vista financeiro, a tática parece dar resultado. Em 2007, as dez companhias aéreas americanas que mais registraram essas receitas adicionais faturaram US$ 2,1 bilhões com a venda de serviços à parte.

Em 2017, esse total passou para US$ 29,7 bilhões. Segundo o ministério dos Transportes americano, somente em 2017 as aéreas faturaram US$ 4,6 bilhões cobrando pelo despacho de bagagens.

Além dos custos escondidos nas letras pequenas, existe uma outra amargura associada às viagens de avião, que para muita gente é ainda mais sofrida que o preço ou a experiência a bordo: os aeroportos.

A Apple no mercado

Por isso, a notícia da semana passada de que a Apple está trabalhando em conjunto com a United Airlines para redesenhar um terminal do aeroporto de San Francisco foi recebida com esperança.

Funcionários da Apple estudaram as áreas de manuseio de bagagens, atendimento aos clientes e outras partes do aeroporto. Linda Jojo, responsável pela área digital da United, afirmou que a parceria pode “transformar a experiência do aeroporto”.

As conversas ainda são preliminares, e não há mais detalhes sobre o projeto. A Apple é a maior cliente individual da United: fotos vazadas no Twitter no começo deste ano mostram que a empresa compra US$ 150 milhões em passagens por ano, incluindo cerca de 50 assentos de classe executiva todos os dias nos voos entre San Francisco e Xangai.

Apple e United não estão estudando o tema só por compaixão com os viajantes, mas qualquer melhoria que facilite a vida dos outros passageiros sem dúvida será mais que bem vinda.

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