A inovação que mora no óbvio: como o Klubi ressignificou o consórcio na era digital

Ao digitalizar uma modalidade tradicional, fintech mostra como inovação pode surgir da reinvenção de modelos já conhecidos

Filipe Callil

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Quanto mais acompanho o ciclo de vida das empresas, mais me convenço de um padrão comportamental nos negócios: as inovações mais sustentáveis e duradouras raramente nascem de ideias mirabolantes ou de invenções nunca antes concebidas.

Quase sempre, a disrupção se esconde exatamente dentro daquilo que já nos é familiar.

É como pegar um mapa antigo que todos já se cansaram de olhar, e ter a curiosidade de testar uma rota que sempre esteve lá, mas que a maioria ignorava. Ou seja, a velha e apurada arte de redesenhar o óbvio.

Recentemente, citei nesta coluna o caso da Turbi. Eles não precisaram inventar a roda, tampouco o carro. Apenas observaram um mercado dominado por locadoras tradicionais, entenderam que a forma de cobrar pelo aluguel havia envelhecido e, ao ajustar a lógica da cobrança, preencheram uma lacuna que o quase monopólio do setor mantinha ignorada (se você não leu, clique aqui para conferir o artigo).

Mas, se existe um terreno fértil para quem gosta de lapidar e modernizar o que já existe, esse lugar é o mercado financeiro. As fintechs provaram que inovar em algo que todos já conhecem é, na verdade, um excelente modelo de negócios.

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O Nubank, talvez no exemplo mais emblemático do país, não precisou inventar o pedaço de plástico chamado cartão de crédito; ele apenas tirou o peso da burocracia que os clientes carregavam nas costas.

A Caju, por sua vez, não criou o conceito de benefícios corporativos do zero; ela simplesmente olhou para um modelo engessado e deu a ele a liberdade que as novas dinâmicas de trabalho pediam.

Ambas pegaram ferramentas antigas e as afiaram para as necessidades do presente.

E foi aplicando essa mesma sensibilidade que o Klubi encontrou seu próprio oceano azul no mercado financeiro. A aposta da empresa concentrou-se em uma solução antiga e que, historicamente, sempre gerou uma desconfiança nos clientes: o consórcio.

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Como o Klubi reposicionou o consórcio

A inteligência do modelo desenhado por Eduardo Rocha, CEO e fundador da empresa, partiu do entendimento de que o produto não precisava ser descartado por parecer antiquado, mas sim repaginado.

E, para desenvolver tal receita, ele decidiu unir três ingredientes-base:

O resultado prático dessa reestruturação? A empresa não apenas se consolidou como a única instituição de tecnologia autorizada pelo Banco Central a operar nessa modalidade, mas hoje já responde por mais de 70% do expressivo crescimento do setor de consórcios de eletrônicos no país.

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O contexto econômico favorece o modelo

Para entender a dimensão desse salto, precisamos cruzar a solução com o momento econômico. Mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas atualmente, com quase metade de toda a renda da população já comprometida, segundo o Banco Central.

Em um cenário onde o cartão de crédito e o crédito pessoal operam frequentemente com taxas superiores a 50% ao ano, fica insustentável manter um padrão de consumo calcado no imediatismo.

É nesse exato vácuo que o consórcio ganha uma nova utilidade. O consumidor moderno compreendeu o peso dos juros no orçamento e começou a priorizar a previsibilidade.

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A modalidade, que antes era vista como um recurso alternativo para quem não conseguia aprovação em financiamentos, assumiu uma nova roupagem e passou a ser uma escolha estratégica para evitar o parcelamento impulsivo.

Os reflexos dessa mudança comportamental aparecem nos números. Segundo o Anuário do Sistema de Consórcios 2026, da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (ABAC), o segmento de eletroeletrônicos e bens móveis duráveis cresceu 141,3% apenas em 2025, marcando o segundo ano seguido de alta acima de 120%.

Olhando para o setor como um todo, a movimentação alcançou R$ 500,27 bilhões, abrigando um recorde histórico de mais de 12 milhões de participantes ativos.

A digitalização muda a experiência do consumidor

A principal força motriz por trás dessa expansão do Klubi está na digitalização da experiência. Historicamente associado a processos burocráticos e jornadas pouco claras, o consórcio ganhou uma interface de consumo fluida.

Após a contemplação, a aquisição do produto acontece diretamente pelo aplicativo, com pagamento via Pix em lojas online ou físicas. O sistema também é inteligente nas suas travas de segurança: se o eletrônico for mais caro que o crédito, o app calcula e pede a diferença; se o item fugir das regras, a operação é bloqueada na hora.

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Os smartphones lideram a procura. Como o próprio fundador pontua, o celular virou a nossa principal infraestrutura pessoal, concentrando trabalho, banco e entretenimento.

Nesse contexto, o consórcio de eletrônicos não é sobre simplesmente adiar o consumo, mas sobre estruturar uma troca de aparelhos com consciência e sustentabilidade financeira.

Isso explica por que o principal traço em comum dessa nova base de clientes não é demográfico, mas sim comportamental.

Há sim uma concentração na faixa dos 30 anos e um forte avanço da classe média, mas o que realmente conecta essas pessoas é o movimento de migração: elas estão trocando a gratificação imediata por um consumo planejado em meio a uma economia incerta.

A oportunidade pode estar no que já existe

A trajetória do Klubi nos deixa uma reflexão valiosa para qualquer setor: o óbvio continua sendo um território incrivelmente rentável, justamente porque poucos têm a humildade de explorá-lo.

Muitas vezes, nós esgotamos nossa energia tentando antecipar o futuro e criar uma categoria completamente nova para surpreender o mercado.

Mas e se o seu próximo grande diferencial competitivo não estiver em uma inovação radical, e sim em um produto do passado que apenas precisa ser polido para os tempos atuais?


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Filipe Callil

Jornalista, empreendedor e fundador da agência Made In Moon