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Quando eu comecei a empreender, em meados de 2012, me orgulhava em dizer aos quatro ventos que ninguém no mundo estava — supostamente — fazendo a mesma coisa que eu.
Por pura inocência, eu acreditava que a inovação (e, por consequência, o atalho para o sucesso) era sinônimo de inventar algo totalmente inédito, que nenhuma mente humana até então havia pensado em criar.
Doce e perigosa ilusão.
Tropeço após tropeço, comecei a entender que a grande maioria das inovações bem-sucedidas habitava justamente a ponta contrária da criação do “nunca antes visto”.
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A grande sacada estava em analisar criticamente o que alguém já fazia e encontrar uma fenda, uma lacuna tática, para executar aquela mesma jornada de um jeito disruptivamente melhor.
Existe, inclusive, uma linha conceitual sobre isso, desenhada por Thales Teixeira, brasileiro e ex-professor da Harvard Business School, batizada de Teoria do Decoupling (Desacoplamento).
Sua premissa é clara: a disrupção não é gerada necessariamente pelo advento de novas tecnologias, mas pela profunda mudança no comportamento do consumidor, que passa a buscar separar (ou desacoplar) elos de uma mesma cadeia de valor para obter resultados mais ágeis.
Na prática, ele defende que, quando uma solução tradicional de mercado se torna engessada, burocrática ou empacotada demais, alguém pode surgir, morder uma pequena fração daquela necessidade e entregar algo infinitamente superior.
Quem entendeu isso, não por ter sido aluno do Thales, mas por ter vivido essa teoria na pele, foi Daniel Prado, co-fundador da Turbi.
O problema de mobilidade que virou negócio
Daniel não era de São Paulo. Mas, ao se mudar para a capital paulista e começar a desenhar sua rotina, esbarrou em uma dor clássica: ele precisava de um carro apenas por algumas horas para resolver pendências rápidas.
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O problema? Nenhuma locadora tradicional oferecia essa solução de forma inteligente.
O mercado exigia diárias completas, papeladas intermináveis, filas em balcões e idas a agências distantes. Por que não desacoplar o tempo e permitir o aluguel fracionado por horas?
Junto com seu sócio, Diego Lira, ele fundou o que mudaria essa lógica. A marca nasceu justamente com o propósito de desburocratizar o processo de locação de veículos, trazendo frescor a um segmento dominado por estruturas tradicionais e carente de inovação.
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Pioneira no aluguel 100% digital, a Turbi posicionou-se como uma empresa de tecnologia aplicada à mobilidade.
Os dados de fechamento de 2025 atestam o valor dessa escolha: a companhia encerrou o ano com um faturamento consolidado de R$ 392 milhões, o que representa um crescimento expressivo de 45% em comparação a 2024.
Esse avanço foi amparado pela robustez de sua frota, que alcançou a marca de 7 mil veículos após a ativação de cerca de 3.500 novos carros ao longo do período.
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O poder do digital e da hiperconveniência
Mesmo com o aumento expressivo na oferta de automóveis, a proposta de valor da marca sustentou a demanda aquecida, elevando a taxa média de utilização (UTR) para 71,6% sob um modelo operacional de frota 100% própria.
Pelo lado do usuário, o grande diferencial reside na experiência inteiramente fluida.
Todo o fluxo — da contratação e retirada até a devolução do veículo — ocorre por meio do aplicativo, utilizando dispositivos conectados e internet das coisas (IoT).
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Para que essa jornada aconteça sem fricção ou contato humano, a frota é inteiramente monitorada por tecnologias proprietárias de telemetria e inteligência artificial, que ajudam a prever a demanda e otimizar a segurança.
Até mesmo a identificação de danos foi simplificada, sendo realizada de maneira autônoma com base em fotos enviadas pelos próprios clientes. Essa conveniência gerou marcos históricos de satisfação, simbolizados pela conquista do selo RA1000, pela nota 8,9 no Reclame Aqui e por um Net Promoter Score (NPS) recorde de 68.
Atualmente, com capilaridade em mais de 12 cidades e na região metropolitana de São Paulo, a Turbi elimina papeladas ao disponibilizar aproximadamente 300 estacionamentos parceiros que operam 24 horas.
Segundo Daniel, essa rede de proximidade, aliada a veículos sempre novos, completos de fábrica e de baixa quilometragem, é a principal fortaleza para competir com as estruturas físicas e engessadas das locadoras convencionais.
Eficiência no ecossistema e solidez financeira
O amadurecimento operacional de 2025 também se refletiu em patamares notáveis de rentabilidade.
A unidade de locação (RAC) registrou uma margem EBITDA de 55% — um salto expressivo de 33 pontos percentuais frente aos 22% de 2024 —, atingindo o ápice de 64% em dezembro, período sazonalmente favorável para o setor.
Daniel pondera que esse desempenho financeiro é fruto de uma estrutura de custos enxuta, baseada no uso intensivo de inteligência artificial e na diluição contínua de despesas administrativas à medida que o negócio ganha escala.
O modelo de frota própria provou sua resiliência, garantindo maior controle sobre a preservação dos ativos e atraindo a confiança do mercado de capitais para financiar os próximos passos.
Para sustentar essa trajetória de expansão com disciplina, a empresa desenhou uma intensa agenda de captações para fortalecer sua estrutura de capital.
No primeiro trimestre do ano, a Turbi acessou o mercado de crédito e captou R$ 188 milhões por meio de debêntures e linhas estruturadas, movimento que foi sucedido por um aumento de capital de R$ 80 milhões em julho.
Já no terceiro trimestre, a companhia consolidou a maior captação bancária de sua história ao levantar R$ 156 milhões junto ao Itaú.
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Para coroar o período, encerrou o ano assegurando novas linhas de capital de giro e dívida veicular com parceiros como Santander, C6 e Banco Rendimento, operações que diversificaram seu portfólio de credores e garantiram o fôlego financeiro necessário para a sustentação do crescimento operacional.
Essa visão ecossistêmica estende-se com inteligência para a vertical de Seminovos, utilizada como principal via de desmobilização dos ativos da companhia. Sob a marca Turbi Seminovos, a empresa comercializa automóveis de alta atratividade — modelos completos, com cerca de um ano e meio de uso e baixa quilometragem.
Em 2025, a venda cresceu 39% em relação ao ano anterior, totalizando 1.784 veículos comercializados, impulsionada pela inauguração de novas lojas físicas nas zonas Norte e Leste de São Paulo.
O plano para 2026 prevê dobrar o número de lojas para consolidar o varejo como o canal prioritário. Conforme explica o CRO da Turbi, Luiz Bonini, a venda direta ao consumidor final captura melhor o valor residual dos ativos, alcançando um preço médio de venda de R$ 93,9 mil (21% superior ao ano anterior), aproximando-se da tabela Fipe, enquanto os lotes B2B permanecem estratégicos para manter a liquidez volumétrica.
A busca contínua por novas fendas
Com as bases operacionais consolidadas, os planos futuros miram a ampliação de sua presença na cadeia de mobilidade. O planejamento estratégico desenha a evolução para um ecossistema integrado por soluções tecnológicas proprietárias.
Entre as inovações em desenvolvimento estão sistemas de inteligência artificial voltados à detecção autônoma de danos e sujidade nos veículos, além de pontos de retirada totalmente automatizados com reconhecimento facial.
No campo dos serviços financeiros, a empresa introduziu a Trato, um braço de financiamento veicular que utiliza dados de telemetria da própria operação para avaliar perfis de crédito e mitigar riscos de inadimplência de forma competitiva.
Para dar tração a essa nova fase, a Turbi planeja captar cerca de R$ 750 milhões focados exclusivamente no ganho de escala de sua frota. A estratégia engloba uma rodada global de equity assessorada pelo Santander Investment Banking, buscando otimizar custos financeiros e fortalecer o balanço diante de um cenário de flexibilização de juros.
Paralelamente, o ciclo de expansão geográfica prevê a estreia em capitais fora do estado de São Paulo, estabelecendo a meta de alcançar 12 mil veículos operantes.
Eduardo Portelada, Diretor de Relações com Investidores, reforça que o crescimento concilia a combinação saudável entre dívida e equity, preservando a disciplina financeira.
A Turbi não inventou a roda…
Nem os automóveis… E nem o conceito de alugá-los. O grande mérito de seus fundadores foi perceber que existia um elo analógico e desgastante em uma jornada longa.
Ao isolar essa dor, eles desacoplaram o tempo, transformaram horas em unidades de valor e entregaram conveniência por meio de linhas de código e dados em tempo real. O resultado é um modelo de negócios sólido que não precisou recriar o mundo do zero.
Fica a provocação para o seu próprio negócio: você continua gastando energia tentando criar uma solução inédita para o planeta, ou já começou a procurar a lacuna ideal para simplificar a vida de quem consome o seu mercado?
Pense nisso.