O que nove eleições ensinam sobre ler uma pesquisa

O placar mais repetido de uma pesquisa eleitoral é também o menos confiável dos três números que ela traz. A história de nove eleições presidenciais explica por quê

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Toda pesquisa eleitoral pode trazer diferentes números, mas a imprensa costuma repetir um deles. Na rodada do Datafolha divulgada nesta quinta-feira (24), a distância entre eles conta uma história que o placar de confronto direto esconde.

Lula tem 36% na pesquisa espontânea e 40% na estimulada, uma distância de 4 pontos. Flávio Bolsonaro tem 27% e 36%, distância de 9 pontos. É mais que o dobro.

Essa diferença, o gap entre espontânea e estimulada, é um dos indicadores que a série de nove eleições presidenciais desde 1989 permite observar. E é sistematicamente ignorada.

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Lição 1: reconhecer não é o mesmo que escolher

Na pesquisa espontânea, o entrevistado responde sem ver nenhuma lista de nomes. Ele precisa lembrar sozinho em quem votaria. Não há sugestão, não há lembrete, só o que já está consolidado na cabeça do eleitor.

Na estimulada, o entrevistador lê uma cartela com os nomes dos candidatos. Isso muda tudo.

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Um nome pouco lembrado ganha um piso artificial só por estar na lista, o que os pesquisadores chamam de efeito de lista. É reconhecimento induzido, não preferência espontânea.

A espontânea é o piso real de um candidato. A estimulada é o teto do que ele pode alcançar se conseguir converter reconhecimento em voto. A distância entre os dois números mede exatamente isso, quanto do teto ainda não virou piso.

Lição 2: a regra só vale perto da eleição

Essa distinção atravessa nove ciclos eleitorais sem exceção, mas com um limite importante. Desde 1989, todos os candidatos que lideraram a pesquisa estimulada do Datafolha a um mês do primeiro turno venceram a eleição.

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O problema é usar essa regra cedo demais. Seis meses antes da eleição, a liderança na estimulada já se inverteu pelo menos três vezes, em 1994, 2010 e 2018. A estimulada de longo prazo mede recall, não voto. Só nas semanas finais ela vira preditiva de fato, e é exatamente nessa janela que estamos agora, a dez dias do primeiro turno.

Lição 3: reconhecimento pode ser reconstruído, mas tem velocidade própria

O exemplo mais didático da série histórica é 2018. Lula liderava com folga até ser preso em abril daquele ano. Fernando Haddad, seu substituto, tinha 2% de estimulada quando ainda era vice na chapa. Depois de registrado oficialmente como candidato, em 11 de setembro, sua trajetória foi:

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Em cerca de 17 dias, Haddad absorveu mais da metade do capital estimulado que Lula tinha em agosto. Mas nem tudo migrou. Parte do eleitorado de Lula simplesmente não seguiu para Haddad, ficou indecisa ou foi para outro nome.

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Nove eleições ensinam que reconhecimento e preferência não são a mesma coisa, e que a conversão de um para o outro tem velocidade própria, nem sempre linear.

O que a nona eleição permite observar agora

O gap de Flávio, mais que o dobro do de Lula, sugere que uma fatia relevante do voto estimulado dele ainda depende de estar na cartela, não de ter sido buscado pela cabeça do eleitor. É voto mais volátil, mais sujeito a se desfazer sob pressão de campanha.

Vale uma ressalva sobre o momento em que essa rodada foi a campo.

A coleta aconteceu entre os dias 22 e 23 de setembro, na mesma janela em que uma nova camada do caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro ganhava repercussão. É possível que o efeito completo dessa revelação ainda não esteja capturado nesse número, e só a próxima rodada vai mostrar isso.

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O mesmo raciocínio vale para o segundo turno simulado, hoje empate técnico de 47% a 45%.

Nove eleições também ensinam desconfiar desse número: ele mede um cenário que ainda não existe, porque pressupõe uma consolidação de voto útil que só acontece de verdade depois que o primeiro turno elimina os demais candidatos.

Nove eleições presidenciais deixaram a mesma lição repetida de formas diferentes: o número mais barulhento de uma pesquisa raramente é o mais confiável.

A próxima vez que uma rodada sair, vale menos tempo olhando para o confronto direto e mais tempo olhando para a distância entre os dois primeiros números. É aí que mora a diferença entre um candidato com terreno sólido e um candidato ainda construindo o próprio nome.


Márcio Apolinário é jornalista, especialista em marketing e fundador da Claritor, plataforma de inteligência digital e percepção de marcas. Atua como Head of Marketing Science na Squid, liderando iniciativas de inteligência, dados e mensuração para o mercado de influência. Também é consultor da Análise Editorial e desenvolve estudos e análises sobre comportamento digital, reputação, marcas e comunicação.