Futebol quer o dinheiro, governo quer o voto e as bets assistem de camarote

Clubes e governo concentraram o alcance, mas contas pequenas impulsionaram a circulação do debate sobre as bets nas redes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Clubes e governo tinham o microfone. Entre 14 e 16 de setembro, o X/Twitter registrou, em média 2,1 milhões de impactos por dia sobre bets em português, no monitoramento do Claritor.

Em 17 de setembro foram 33 milhões, 16 vezes essa média. No dia 18, 13,1 milhões, mais de 6 vezes.

Somados, os dois dias chegam a 46 milhões de impactos, o equivalente a 22 dias dessa média e a 88% do total da semana. Por dia, foi mais de 11 vezes o ritmo anterior.

Continua depois da publicidade

No intervalo, clubes das séries A e B publicaram uma nota com a frase “O fim do futebol brasileiro” contra as mudanças que o governo preparava.

O volume de menções subiu ainda mais, de 479 por dia para 13.492 em 17 de setembro, mas conta menos, porque é o impacto que mostra quantas telas o assunto atravessou. O dado mais revelador está em quem fez a briga circular.

Duas ignições em 24 horas

Na noite de quarta-feira (16), entre 21h e 3h no horário de Brasília, saíram 10 dos 100 posts de maior impacto do mês, todos de contas verificadas, com 7,5 milhões de impactos. A imprensa noticiava, um dia antes da nota, que o governo finalizava o texto de uma medida provisória.

Na noite seguinte, entre 18h de quinta e 1h de sexta, foram 53 dos 100 posts e 15,7 milhões de impactos. A hora mais densa, das 19h às 20h, reuniu 18 deles, o horário em que os clubes publicaram a nota ao mesmo tempo.

Continua depois da publicidade

A primeira noite foi de anúncio, com poucos posts, todos de perfis verificados.

A segunda foi de reação, com mais que o quíntuplo de posts, 22 deles de contas sem selo. Em junho, a coluna sobre a maioridade penal mostrou um debate que só acendeu depois da votação. Aqui a ordem se inverteu: a briga começou antes de o texto existir.

O impacto e o volume não chegaram juntos. O pico de impacto veio em 17 de setembro, com 33 milhões, mas o pico de menções veio no dia 18, com 15.521.

Continua depois da publicidade

Antes do pico, cada menção rendia em média 4.321 impactos, contra 2.445 no dia 17 e 846 no dia 18. As menções cresceram 28 e 32 vezes, e o impacto, 16 e 6 vezes: a segunda onda ganhou volume porque muitos posts pequenos se somaram, cada um com alcance menor.

Quem carregou a briga

O impacto mede quem viu, e o retweet mede quem repassou. Entre os 20 posts de maior impacto, 15 vieram de contas verificadas. Entre os 20 mais retweetados, apenas 5.

O perfil oficial de Lula, com 10,7 milhões de seguidores, teve dois posts entre os 100 de maior impacto, com 118 mil e 153 mil. A conta @acervogarrito, com 1.103 seguidores, alcançou 910 mil, quase seis vezes o melhor post do presidente.

Continua depois da publicidade

O padrão acompanha as colunas sobre a Ypê, a convocação de Neymar e a escala 6×1: quando o tema mexe com emoção, contas pequenas superam gigantes. Nenhum dos dois lados controla essa moeda.

O que cada lado disse

Treze dos 20 clubes da Série A têm uma casa de apostas como patrocinadora máster, e os clubes estimam em cerca de R$ 1 bilhão o impacto de uma proibição.

A nota fala em risco de insolvência e defende combater a ilegalidade e reforçar a fiscalização, com o argumento de que a proibição empurraria o apostador para o mercado ilegal.

O governo aponta o endividamento das famílias e os efeitos sobre a saúde mental. Lula chamou de “balela” a ideia de que restringir as bets acabaria com o futebol e, em ato de campanha, avisou: “Se preparem que eu compro essa briga”.

Segundo reportagens, a medida provisória proíbe cassinos online e endurece a publicidade, mas mantém liberadas as apostas esportivas. O texto final ainda não foi divulgado, e a assinatura está prevista para a próxima quarta-feira (23).

O recorte do Claritor mede alcance e repasse, não posição. Quem ficou a favor ou contra cada lado não aparece nesses números.

As bets, fora da conversa que geraram

Contas do próprio mercado de apostas, como portais e tipsters, respondem por cerca de 3% do impacto dos posts de maior alcance sobre o tema.

A conversa foi carregada por perfis de futebol e por contas minúsculas, não por elas. Em julho, a coluna “A Copa que as bets já ganharam” mostrou um único perfil esportivo, o @futebol_info, em 16 dos 20 posts de maior impacto sobre o tema.

Em setembro o roteiro se repete com outro elenco: o DataFutebol aparece em 5 dos 20.

Na quarta-feira, a medida deve ser assinada, e o debate já terá acontecido antes dela. Clubes e governo têm audiência de estádio, o que garante que o assunto seja visto. Fazê-lo circular depende de quem está na calçada, com 1.103 seguidores e um celular na mão. A reputação de qualquer causa, nas redes de 2026, se decide menos por quem a assina e mais por quem escolhe repassá-la.


Márcio Apolinário é jornalista, especialista em marketing e fundador da Claritor, plataforma de inteligência digital e percepção de marcas. Atua como Head of Marketing Science na Squid, liderando iniciativas de inteligência, dados e mensuração para o mercado de influência. Também é consultor da Análise Editorial e desenvolve estudos e análises sobre comportamento digital, reputação, marcas e comunicação.