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O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, em 17 de agosto, declarou dívidas de R$ 17,3 bilhões, dez empresas do grupo e o fechamento de 298 lojas. Em menos de 48 horas, o caso virou discurso de campanha. Em comício em Belo Horizonte, Flávio Bolsonaro citou a Casas Bahia nominalmente como prova de que o governo quebrou a economia do país, generalizando o caso para milhares de outras empresas na mesma situação. Lula, por sua vez, discursou antes de estourar o caso e ainda não se pronunciou sobre o assunto.
O gancho que virou palanque
O pedido de RJ caiu exatamente no fim de semana em que a campanha eleitoral de 2026 abriu oficialmente, com Lula em São Bernardo e Flávio Bolsonaro estreando em Copacabana antes de seguir para Belo Horizonte. Não é a primeira vez que uma dívida de varejo vira munição de campanha, e provavelmente não será a última. O que muda o peso do argumento não é a dívida em si, é o calendário: a mesma notícia, publicada num mês sem eleição, provavelmente não teria saído da editoria de economia.
Quem gritou mais alto
O painel Claritor registrou 645 menções ao caso em 30 dias, das quais 209, mais de um terço, vieram de contas verificadas. Mais de 80% de toda essa conversa aconteceu em três dias, entre 16 e 18 de agosto. Olhando os posts de maior impacto, a cobertura de imprensa financeira e geral (G1, Folha, Estadão, O Globo, Valor Econômico, InfoMoney) domina o topo do ranking, tratando o caso como notícia de mercado. Contas político-partidárias aparecem, mas como uma fração visivelmente menor da conversa mais amplificada.
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O cemitério que atravessou seis presidentes
A Mesbla nasceu em 1912 e dominou o varejo brasileiro por décadas. Faliu em 1999, sob Fernando Henrique Cardoso, depois de um declínio que começou ainda no início dos anos 1990. A Mappin seguiu o mesmo destino no mesmo ano, depois de comprar a Sears Brasil e afundar em descontrole contábil. A Arapuã bateu faturamento bilionário em 1996, mas a inadimplência do crediário já corroía suas contas havia anos, entrou em concordata em 1998 e só teve a falência definitivamente decretada em 2020, atravessando FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro pelo caminho. A Ultralar faliu em 2000 e suas lojas foram compradas por quem hoje está do outro lado do balcão: a própria Casas Bahia.
O que está afundando o varejo de verdade
Juros altos e crédito caro pesam, isso é real. Há também uma variável menos discutida: segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio, contestado pelo setor de apostas quanto à metodologia, o gasto mensal dos brasileiros com apostas online saltou de R$ 4 bilhões para R$ 29 bilhões entre 2023 e 2026, concentrado nas classes C, D e E, o mesmo público de Casas Bahia, Marabraz e Pernambucanas. Tok&Stok e Mobly, do Grupo Toky, pediram recuperação judicial em maio e somaram R$ 232,7 milhões de prejuízo só no segundo trimestre.
A Marabraz entrou com o mesmo pedido para cinco empresas do grupo, e a Pernambucanas já tem, desde março, um alerta formal de auditoria sobre sua continuidade operacional.
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Quem mais está no mesmo barco
A Casa & Vídeo, fundida com a Le Biscuit no Grupo CVLB, entrou em recuperação judicial em abril, com uma dívida de R$ 1,7 bilhão. As lojas seguem abertas e funcionando normalmente, o processo não é sobre operação parada, é sobre caixa. A Americanas, símbolo da última grande crise do setor, ainda está encerrando a própria recuperação judicial aberta em 2023, com previsão de conclusão só agora em 2026.
A prova de que não é sobre política
Do outro lado do mesmo cenário, sob a mesma Selic e a mesma eleição, a MadeiraMadeira cresceu 21% em receita em 2025, num setor de móveis que encolheu quase 8%, com Ebitda 208% maior. A Riachuelo segue lucrativa desde 1947, sobrevivendo ao mesmo tipo de varejo que matou a Mesbla e a Mappin.
O que separa quem quebra de quem sobrevive não está na Esplanada dos Ministérios. Está na gestão de estoque, na velocidade de adaptação ao consumidor digital e na disciplina de caixa. A Casas Bahia entrou para uma lista que existe desde antes da redemocratização. O Brasil só ainda não aprendeu a lê-la sem procurar um culpado de plantão.