Quem é Flávio Bolsonaro: de herdeiro político de Jair a candidato do PL ao Planalto

Senador chega à primeira disputa pela Presidência após mais de duas décadas na política, com a missão de unificar o bolsonarismo, ampliar seu eleitorado e enfrentar uma campanha marcada por crises e pela comparação permanente com o pai

O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) em Grapevine, Texas – 28/03/2026 (Foto: REUTERS/Callaghan O’Hare)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) oficializou neste sábado (25) sua candidatura pelo Partido Liberal à Presidência da República. Aos 45 anos, o parlamentar disputa pela primeira vez o Palácio do Planalto e assume o papel de sucessor político do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado e inelegível após a participação na tentativa de golpe de Estado de 2022.

A candidatura marca a sétima eleição da carreira de Flávio e representa uma mudança de posição dentro do grupo bolsonarista. Durante o governo do pai, ele atuou principalmente nos bastidores das negociações políticas. Agora, passa a ocupar o centro da estratégia eleitoral do PL em 2026.

Nascido em Resende (RJ), em 1981, Flávio Nantes Bolsonaro é formado em Direito pela Universidade Candido Mendes e possui especialização em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entrou na vida pública em 2002, aos 21 anos, quando foi eleito deputado estadual pelo então PP para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Permaneceu na Alerj por quatro mandatos consecutivos, migrando entre partidos que mais tarde integrariam o campo político do bolsonarismo. Em 2016, tentou chegar à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSC, mas acabou derrotado no primeiro turno.

A ascensão nacional ocorreu em 2018, no mesmo pleito em que Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial. Disputando o Senado pelo PSL, Flávio recebeu mais de quatro milhões de votos no Rio de Janeiro e conquistou uma das vagas da bancada fluminense. Ao longo do mandato, consolidou-se como um dos principais porta-vozes do pai no Congresso. Após a condenação de Jair Bolsonaro e a impossibilidade de disputar a Presidência, foi escolhido pelo ex-presidente para representar o grupo na corrida eleitoral de 2026.

A difícil missão de substituir Jair Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) levanta quadro com fotografia do pai, Jair Bolsonaro (PL), em evento do PL, no Rio de Janeiro – Vittor Sales/Divulgação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro

Embora tenha herdado o apoio formal do pai, Flávio enfrenta um desafio diferente daquele vivido por Jair Bolsonaro em 2018. Além de disputar votos fora da base bolsonarista, precisa manter unido um movimento que passou a conviver com disputas internas desde que o ex-presidente deixou o cenário eleitoral.

Em entrevistas, o senador costuma definir-se como um “Bolsonaro mais moderado”, mas também afirma que Jair continua sendo sua “bússola” política. Na prática, sua campanha tenta equilibrar a preservação da identidade do bolsonarismo sem ficar restrita ao eleitorado mais fiel ao ex-presidente.

Esse esforço, porém, esbarra em uma dificuldade recorrente. Enquanto Jair Bolsonaro exercia liderança praticamente incontestável sobre seus aliados, Flávio ainda busca consolidar essa autoridade dentro do próprio grupo. A necessidade de reforçar constantemente os pedidos de unidade tornou-se uma das marcas da pré-campanha.

Desde o fim de 2025, o senador tem repetido discursos defendendo respeito às decisões do pai, lealdade ao grupo e o fim das disputas públicas entre aliados.

Pré-campanha sob sucessivas crises

Flávio e Michelle Bolsonaro – Reprodução/Redes sociais

Mesmo antes da oficialização da candidatura, Flávio atravessou uma série de episódios que repercutiram na campanha. Um dos principais desgastes ocorreu dentro da própria família. O conflito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro começou após divergências sobre alianças eleitorais no Ceará e ganhou dimensão nacional quando ela afirmou publicamente ter sido desrespeitada pelo enteado.

Flávio respondeu negando qualquer intenção de ofendê-la e pediu desculpas caso isso tivesse ocorrido. Às vésperas da convenção do PL, os dois anunciaram uma reconciliação nas redes sociais e afirmaram que voltariam a caminhar juntos. Apesar da trégua, ainda não está definido qual será o papel de Michelle na campanha presidencial.

Outro foco de desgaste envolveu o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. Mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil mostraram conversas sobre um possível aporte de US$ 24 milhões para financiar o filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro. A produtora negou ter recebido recursos da instituição financeira.

Após o episódio, Flávio confirmou que procurou Vorcaro em busca de patrocínio para o projeto e afirmou que os recursos discutidos estavam relacionados exclusivamente ao filme. O episódio, entretanto, levou à abertura de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), aumentando a pressão sobre a campanha.

O confronto com Lula

A política externa também colocou o senador no centro do debate eleitoral. Durante a crise provocada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, Flávio viajou ao país para defender o adiamento das medidas até depois das eleições brasileiras.

Ao retornar, responsabilizou o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela deterioração da relação comercial com Washington e classificou a condução do Planalto como “inconsequente”.

Lula reagiu dizendo que o adversário cometia uma “traição à pátria” ao buscar apoio junto ao governo americano e afirmou que o senador tentava “entregar o Brasil a interesses estrangeiros”. O episódio ampliou a polarização entre os dois principais nomes da disputa.

Aposta na força do sobrenome

Apesar das turbulências, Flávio permaneceu como principal adversário de Lula nas pesquisas divulgadas durante o primeiro semestre de 2026. A estratégia da campanha parte do diagnóstico de que a polarização continuará organizando a disputa eleitoral e de que o eleitorado conservador tende a permanecer concentrado em torno do candidato apoiado por Jair Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, aliados reconhecem que o senador precisa ampliar sua exposição nacional e construir uma identidade própria. Até aqui, sua imagem permanece fortemente associada ao pai — tanto pelo discurso quanto pelo simbolismo da candidatura.

Pai de duas filhas e casado com a dentista Fernanda Bolsonaro, Flávio procura reforçar uma imagem de perfil familiar e moderado. Em vídeos de campanha, costuma aparecer ao lado da esposa e dos filhos, enquanto adota um tom menos confrontador do que o utilizado por Jair Bolsonaro.

Ainda assim, nos atos políticos, o principal personagem continua sendo o ex-presidente. Mesmo ausente, é o apelido de Jair — “Mito” — que segue predominando entre os apoiadores, evidenciando o principal desafio do candidato do PL de transformar a herança política do pai em uma candidatura capaz de caminhar com autonomia.