Lula: conheça a história do ex-presidente que ganhou as eleições e retorna para o terceiro mandato

Veja os principais fatos de sua trajetória

3 de junho de 2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião Ministerial. Palácio do Planalto – Brasília-DF. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Nome completo:Luiz Inácio Lula da Silva
Data de nascimento:27 de outubro de 1945
Local de nascimento:Caetés, Pernambuco
Formação:Torneiro mecânico pelo Senai
Profissão: Metalúrgico, sindicalista, político
Partido:Partido dos Trabalhadores (PT)
Cargo de destaque:Presidente da República de 2003 a 2011 e de 2022 a 2026

Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao cargo de presidente da República para o seu terceiro mandado após vencer Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições 2022. Seus dois primeiros mandatos aconteceram de 2003 a 2007 e de 2008 a 2011.

Lula tem uma longa trajetória na política brasileira. Metalúrgico, tornou-se o líder sindical que comandou as greves no ABC Paulista de 1978 a 1980; fundou um dos principais partidos do país e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Foi deputado, eterno candidato e, finalmente, presidente da República.

Elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), que sofreu um impeachment no meio do mandato. Ao deixar o governo, Lula tinha aprovação positiva: segundo levantamento CNI-Ibope, 80% dos brasileiros avaliavam o governo como ótimo ou bom em dezembro de 2010.

Lula só se elegeu presidente na quarta tentativa. Perdeu para Fernando Collor no segundo turno em 1989, e para Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, ambas as vezes no primeiro turno. Foi finalmente vitorioso em 2002, sobre José Serra (PSDB), e em 2006, contra Geraldo Alckmin (PSDB), as duas vezes em segundo turno.

Anos depois, foi investigado e condenado no âmbito da Operação Lava Jato, desencadeada em 2014 inicialmente para investigar suspeitas de corrupção na Petrobras.

Na disputa de 2018, preso no âmbito da Operação Lava Jato, chegou a lançar sua candidatura ao Palácio do Planalto, rejeitada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa. Agora livre de sentenças, o petista se prepara para disputar pela sexta vez em 2022.

Foi preso por ordem do então juiz federal Sergio Moro, que o havia condenado no caso envolvendo um apartamento tríplex no Guarujá (SP). O início do cumprimento da pena ocorreu após confirmação da condenação pela 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) negou pedido de habeas corpus preventivo apresentado pela defesa.

Assistiu da cadeia em Curitiba (PR) a ascensão de Jair Bolsonaro (PL) e sua vitória sobre Fernando Haddad (PT). Permaneceu preso por 580 dias, até que o STF decidiu mudar seu entendimento sobre prisão em segunda instância e, posteriormente, anular todos os processos contra ele na Justiça Federal da capital paranaense.

Com seus direitos políticos restituídos, Lula voltou ao jogo.

Quem é Luiz Inácio Lula da SIlva

Luiz Inácio da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945 em Caetés, então distrito de Garanhuns, Pernambuco, sétimo filho de Eurídice Ferreira de Melo, a Dona Lindu, e de Aristides Inácio da Silva, um casal de camponeses.

Com o sertão castigado pela seca, o pai migrou para São Paulo em busca de trabalho quando a mãe estava grávida do futuro presidente. Arrumou emprego de carregador num armazém de café em Santos, no litoral paulista.

Lula só conheceu o pai com cinco anos, em 1950, quando Aristides voltou a Pernambuco para visitar a família. Nessa época, o pai vivia em Vicente de Carvalho, no Guarujá, com Mocinha, uma prima de Dona Lindu com quem teve outros filhos. Ao todo, o pai de Lula teve 24 filhos conhecidos.

Em 1952, a mãe, Lula e os irmãos embarcaram num pau-de-arara rumo a São Paulo. A família se estabeleceu em Vicente de Carvalho. Com sete anos, Lula começou a trabalhar como ambulante em Santos junto com o irmão mais velho, José Ferreira da Silva, o Frei Chico. Trabalhou também como engraxate.

Dona Lindu deixou o marido em 1955 e, no ano seguinte, mudou-se com os filhos para a capital paulista. Foram morar na Vila Carioca, no Ipiranga. Quando menino, Lula trabalhou ainda como office boy, auxiliar numa tinturaria e nos Armazéns Gerais Columbia, seu primeiro emprego com carteira assinada.

Com 14 anos, em 1960, terminou o ginásio, hoje ensino fundamental. Entrou no curso técnico de torneiro mecânico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Arrumou seu primeiro emprego como metalúrgico na Fábrica de Parafusos Marte.

Aos 18, em 1963, formou-se no Senai. Como funcionário da Metalúrgica Independência, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda num acidente de trabalho. Saiu da empresa em 1964, ano do golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil, e arrumou emprego na metalúrgica Fris Moldu Car.

Segundo a biografia do ex-presidente publicada pelo Instituto Lula, ele foi demitido da Metalúrgica Independência em meio a uma discussão por aumento de salario, depois de 11 meses na empresa; e da Fris Moldu Car, após seis meses apenas, “por não comparecer ao serviço num sábado, preferindo passar o fim de semana na praia”.

Como operário das Indústrias Villares, em São Bernardo do Campo, em 1967, Lula começou a frequentar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, sob influência do irmão Frei Chico, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O “Partidão” era clandestino a época.

“Eu queria só ser um bom profissional, ganhar meu salário, viver minha vida. Ter filhos. Nada disso de ser liderança sindical me passava pela cabeça”, afirmou Lula, de acordo com o site do instituto.

Não foi o que aconteceu. Em 1969, ele foi eleito para a diretoria do sindicato como segundo suplente, dando início a uma longa trajetória no movimento trabalhista que o alçaria a personalidade nacional.

Família de Lula

Atualmente, Lula é casado com Janja Silva. Antes disso, ele viveu alguns relacionamentos que lhe renderam seis filhos.

Em 1969, se casou com a namorada, Maria de Lourdes. Dois anos depois, em 1971, ela morreu após adoecer. Como estava grávida de sete meses, o bebê passou por um parto prematuro, mas também não resistiu. O atestado de óbito diz que Lourdes morreu de “coma hepático, provável hepatite” e que o filho teve morte intrauterina. Lula julga que as mortes ocorreram por negligência.

Viúvo, em 1972 Lula mudou-se para São Bernardo, onde passou a ocupar o cargo de primeiro secretário do sindicato e a se dedicar cada vez mais à atividade. No ano seguinte, o então sindicalista namorou a enfermeira Miriam Cordeiro, que engravidou e, em 1974, deu a luz Lurian, primeira filha do futuro presidente.

Ainda em 1974, ele se casou com Marisa Letícia, também viúva e mãe do menino Marcos, com dois anos na época. Posteriormente, Lula adotou o garoto. O casal teve mais três filhos: Fábio Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio. Marisa morreu em fevereiro de 2017, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Trajetória no sindicato

Lula foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos pela primeira vez em 1975. Sua fama era de negociador. Circulava do chão de fábrica aos salões da então poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Não era militante político-partidário, mas fortaleceu sua oposição à ditadura quando Frei Chico foi preso e torturado no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).

Foi reeleito presidente do sindicato em 1978, ano em que começaram as grandes greves no ABC que o tornariam nacionalmente conhecido. Os operários da fábrica de caminhões Scania foram os primeiros a cruzar os braços, reivindicando reajuste salarial, seguidos pelos funcionários de outras montadoras. Segundo o site do Instituto Lula, mais de 150 mil trabalhadores aderiram às paralizações.

Ainda em 1978, Lula apoiou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso ao Senado pelo MDB. FHC foi eleito suplente do correligionário André Franco Montoro, futuro governador de São Paulo.

No ano seguinte, o sindicato convocou uma greve geral. A adesão foi grande e o estádio de futebol da Vila Euclides, em São Bernardo, teve de ser utilizado para a realização de assembleias. As greves continuaram em 1980. Este foi um período em que a inflação estava em franca expansão no Brasil, corroendo os salários de forma significativa e, ao longo do tempo, as reivindicações por reajustes foram se tornando cada vez mais frequentes.

Apesar de a Lei da Anistia ter entrado em vigor em 1979, Lula e outros lideres sindicais foram presos com base na Lei de Segurança Nacional. Ele ficou preso por 31 dias. Neste período, sua mãe morreu. O então diretor do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), Romeu Tuma, futuro senador, autorizou a saída do prisioneiro para o enterro. Em 1981, Lula foi condenado à revelia pela Justiça Militar a três anos e seis meses de prisão, mas o processo foi posteriormente anulado pelo Superior Tribunal Militar (STM).

A relação de Lula com PT

O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 10 de fevereiro de 1980, em ato no tradicional Colégio Sion, em Higienópolis, em São Paulo. Três meses depois, em maio, Lula foi eleito o primeiro presidente da legenda.

O PT estreou na eleição de 1982, a primeira para governos estaduais desde o golpe de 1964. O voto era vinculado, ou seja, o eleitor tinha de selecionar candidatos do mesmo partido para todos os cargos (governador, senador, deputado federal e deputado estadual). Houve também escolha de vereadores e, fora das capitais, de prefeitos.

Lula foi candidato a governador e ficou em quarto lugar, atrás de Franco Montoro (PMDB), Reynaldo de Barros (PDS) e Jânio Quadros (PTB). Naquela época, ele incorporou o apelido, e seu nome completo passou a ser Luiz Inácio Lula da Silva ‒ uma estratégia para ser mais facilmente localizado por seus apoiadores na cédula eleitoral.

Em 1984, Lula e o PT se engajaram na campanha Diretas Já, que reivindicava a imediata realização de eleições diretas. Os comícios das Diretas reuniram milhões de pessoas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 1986, Lula foi eleito deputado e participou da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição Federal de 1988. Ele recebeu o maior número de votos para o cargo, 651.763 no total.

Tentativas de Lula para chegar à Presidência

A primeira tentativa de Lula para chegar à Presidência foi em 1989, após a tão esperada eleição direta. Foi o primeiro pleito depois da ditadura e teve 22 postulantes, entre os quais Fernando Collor (PRN, hoje no PROS), Mario Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT), Ulysses Guimarães (PMDB), Maluf (PDS, hoje PP), Guilherme Afif Domingos (PL, hoje no PSD), Ronaldo Caiado (PSD, hoje no União Brasil), Aureliano Chaves (PFL, atual União Brasil), Roberto Freire (PCB, hoje Cidadania), Fernando Gabeira (PV) e o folclórico Enéas Carneiro (Prona). Até o apresentador Silvio Santos tentou se lançar quando a campanha já estava em andamento.

Lula e Collor foram ao segundo turno, e Collor venceu. Em 1992, porém, em meio ao escândalo do “esquema PC”, em referência ao tesoureiro de sua campanha, Paulo César Farias, Collor sofreu impeachment e foi substituído pelo vice Itamar Franco.

O PT foi convidado a integrar o governo Itamar, mas recusou, com exceção da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, que assumiu o posto de ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal.

Eleições em 1994 e 1998

Para a eleição de 1994, Lula chegava com força. Houve até a tentativa de costurar uma aliança com o hoje senador Tasso Jereissati e o PSDB. Mas a ascensão de Fernando Henrique Cardoso frustrou qualquer tentativa de composição. Sentindo os reflexos do lançamento do Plano Real e controle da inflação, enquanto ministro da Fazenda de Itamar, FHC foi eleito no primeiro turno.

Em 1997, foi aprovada a emenda constitucional que permitia a reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos, com acusações de compra de votos de deputados. Em 1998, FHC levou de novo no primeiro turno. Lula ficou em segundo e Ciro Gomes (PPS, hoje no PDT), em terceiro.

Mesmo com as seguidas derrotas de Lula, o PT foi ganhando força e tornou-se o partido mais votado nas eleições municipais de 2000, conquistando capitais como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Belém, Aracaju e Recife, além de outras cidades de grande porte.

Vitória em 2002

Para as eleições de 2002, foi realizada uma prévia para escolha do candidato do PT à Presidência, entre Lula e o então senador Eduard Suplicy (SP). Lula venceu e impôs ao partido uma ampliação de seu leque de alianças, tradicionalmente limitado a legendas de esquerda.

Buscou para vice um representante do empresariado, o então senador José Alencar (MG), fundador da Coteminas e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), e firmou aliança com o PL.

Antes de a campanha ganhar as ruas, o então prefeito de Santo André, Celso Daniel, que havia sido escolhido como coordenador do programa de governo de Lula, foi assassinado. Daniel foi sequestrado ao sair do restaurante Rubaiyat, em São Paulo, ao lado do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. Foi encontrado morto dois dias depois. O posto de Daniel na campanha foi assumido por Antonio Palocci, na época prefeito de Ribeirão Preto.

O crescimento de Lula nas pesquisas de intenção de voto em 2002 provocou uma crise nos mercados, em meio às dúvidas sobre qual seria a política econômica de seu governo. A Bolsa caiu 32% entre janeiro e agosto e encerrou o ano com desvalorização de 17%. O dólar subiu mais de 50% e chegou perto de R$ 4 em outubro, mês da eleição. Havia dúvidas sobre a política econômica de seu governo.

Em campanhas anteriores, Lula havia feito discursos radicais propondo a suspensão do pagamento da dívida externa e a contenção dos lucros das empresas por meio de controle de preços. Em 1994, o PT votou contra a medida provisória do Plano Real.

Ao longo dos dois mandatos de FHC, Lula e o PT mantiveram postura crítica à política econômica do governo. Na campanha de 1998, o então candidato chegou a propor que o governo controlasse importações e o câmbio para evitar fuga de capitais e permitir a redução dos juros.

Com o passar dos anos, Lula foi amenizando seu discurso e buscou tornar-se mais palatável para eleitores de outros espectros, mas não conseguia apagar a imagem de radical nutrida por parcela significativa do empresariado. Suas relações com sindicatos e movimentos como o MST também não o ajudavam a conquistar votos mais à direita. O banco Goldman Sachs chegou a criar em 2002 o “lulômetro”, que pretendia prever como a vitória do petista afetaria o câmbio.

Mas o Lula de 2002 tinha uma visão diferente do candidato que tentara chegar à Presidência no passado. Em 10 de julho, ele lançou a Carta ao Povo Brasileiro, em que se comprometia a cumprir contratos, honrar a dívida externa, os acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e manter o controle da inflação.

“Lulinha Paz e Amor”

Embora crítico da política econômica do governo FHC, Lula manteve sua base, o chamado “tripé macroeconômico”, composto por câmbio flutuante, metas de inflação e meta fiscal. Nascia aí o “Lulinha Paz e Amor”, tentativa do candidato de romper com a fama de radical. Isso ia além da área econômica. Passava pela própria postura do político, seu tom de voz e a maneira como expunha sua ideias.

A questão da imagem foi muito importante e a paternidade do “Lulinha Paz e Amor” é atribuída ao publicitário baiano Duda Mendonça, marqueteiro da campanha. Ele havia sido responsável pelo marketing das campanhas vitoriosas de Paulo Maluf à Prefeitura de São Paulo, em 1992, e de seu sucessor, Celso Pitta, em 1996.

Durante o escândalo do mensalão, Duda admitiu na CPI dos Correios ter recebido dinheiro de caixa dois do PT no exterior como pagamento pelo trabalho. Ele foi absolvido pelo STF em 2012.

Anos depois, em 2017, o marqueteiro firmou acordo de delação premiada na operação Lava Jato em que admitia ter recebido dinheiro de caixa dois da Odebrecht por sua atuação na campanha de Paulo Skaf (MDB) ao governo de São Paulo em 2014.

Lula eleito presidente

Na quarta tentativa, Lula venceu uma eleição para presidente. Derrotou o tucano José Serra no segundo turno com mais de 61% dos votos válidos e assumiu o posto em 2003 .

Palocci foi nomeado ministro da Fazenda, e o ex-presidente do Bank Boston, Henrique Meirelles, eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás, foi escolhido para presidir o Banco Central. Palocci apontou uma equipe de técnicos para compor a pasta: Bernard Appy, secretário executivo; Marcos Lisboa, secretário de Política Econômica; e Joaquim Levy, secretário do Tesouro. Meirelles manteve no BC diretores indicados por seu antecessor, Armínio Fraga.

As escolhas para a área econômica agradaram o empresariado e o mercado financeiro, e Palocci e Meirelles rapidamente ganharam popularidade nesses segmentos. Paralelamente à política de austeridade fiscal, Lula lançou uma série de programas para atender a população de baixa renda, como o Fome Zero, depois integrado com outras iniciativas e transformado no Bolsa Família (hoje substituído pelo Auxílio Brasil por Jair Bolsonaro); o Luz para Todos e o Programa Universidade para Todos (Prouni).

Beneficiado pelo ciclo de alta das commodities e o aumento das exportações, o governo quitou a dívida brasileira com o FMI e o país passou por um longo período de bonança econômica. Lula lançou mão ainda de uma política externa expansionista, buscando fortalecer o multilateralismo e dar ao Brasil uma posição de liderança entre as nações emergentes.

Crises não afetaram reeleição

O primeiro mandato de Lula foi marcado também pelo Mensalão. Em 2005, em entrevista à Folha de S. Paulo, o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), acuado por denúncias de irregularidades nos Correios, acusou o governo de pagar uma mesada a deputados para aprovar projetos.

O presidente não foi diretamente implicado, mas as denúncias derrubaram o ministro da Casa Civil da época, José Dirceu, poderoso articulador político do Planalto. Ele foi substituído por Dilma Rousseff, que ocupava o cargo de ministra das Minas e Energia. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Dirceu.

As crises não pararam por aí. No ano seguinte, 2006, Palocci foi acusado de quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa que, por sua vez, havia denunciado o ministro por frequentar uma casa em Brasília onde ocorriam encontros com lobistas. Palocci caiu e foi substituído pelo economista Guido Mantega, que permaneceu no cargo até o final do primeiro mandato de Dilma, tornando-se o mais longevo ocupante da pasta.

Apesar das denúncias, o bom desempenho do governo em outras áreas, principalmente na economia, garantiu a reeleição de Lula em 2006. Ele derrotou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) com mais de 60% dos votos válidos.

Em 2007, Lula foi empossado em seu segundo mandato e lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que deveria ser um dos principais marcos do governo. Muitas obras, no entanto, sofreram atrasos, custam bem mais que o previsto inicialmente ou foram envolvidas em anúncios de irregularidades. Algumas não saíram do papel. Posteriormente, Dilma seria apontada pelo presidente como “mãe do PAC”, responsável pela gestão da iniciativa.

Ainda em 2007, foi anunciada a descoberta de petróleo na camada pré-sal das bacias de Santos e Campos, e atualmente é uma das áreas de produção mais rentáveis do mundo.

No exterior, o cenário de bonança que perdurou por anos estava prestes a acabar. Em 2008, veio a crise financeira internacional, na esteira do estouro da bolha das hipotecas subprime nos Estados Unidos. Em 2009, o mundo entrou em recessão. O Brasil, no entanto, sofreu menos.

Guido Mantega, Luiz Inácio Lula da Silva e Henrique Meirelles
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, durante abertura oficial da reunião dos representantes dos países que fazem parte do G-20 no Hotel Hilton, zona sul da capital paulista. (Crédito: Patrícia Santos/ Agência Estado)

Embora o Produto Interno Bruto (PIB) do país tenha recuado 0,2% em 2009, a resposta veio com um avanço significativo de 7,5% em 2010. Ainda em 2009, foi lançado o programa Minha Casa, Minha Vida, agora transformado em Casa Verde e Amarela pelo presidente Jair Bolsonaro.

Lula chegou ao fim de seu segundo mandato com enorme popularidade no Brasil e fora dele. Nos oito ano de governo Lula, quase 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza e o presidente tinha a aprovação de 87% da população ao deixar o cargo, segundo o Ibope. A taxa de desemprego estava em 5,3% em dezembro de 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O salario mínimo teve um aumento real de 53,6%. Em 2010, as exportações brasileiras superaram US$ 200 bilhões, um recorde na época. As reservas internacionais amentaram quase oito vezes nos dois mandatos.

Com este histórico, Lula fez sua sucessora. Dilma Rousseff venceu o tucano José Serra com mais de 56% dos votos válidos. O ex-presidente passou a se dedicar ao seu Instituto Lula, novo nome da ONG Instituto Cidadania; deu início a uma carreira de palestrante e seguiu atuante na promoção das relações entre países em desenvolvimento.

Lula acompanha a cerimônia de posse de Dilma Rousseff no seu segundo mandato.

Câncer e Operação Lava Jato

Em 2011, Lula foi diagnosticado com um câncer na laringe. Naquele mesmo ano, o ex-vice José Alencar havia morrido de câncer. Lula passou por cinco meses de um bem sucedido tratamento com quimioterapia e radioterapia. Houve remissão completa do tumor. Em 2012, o ex-presidente se engajou como cabo eleitoral do PT nas eleições municipais e usou seu prestígio ainda em alta para beneficiar candidatos como seu ex-ministro da Educação Fernando Haddad, que naquele ano venceu a disputa em São Paulo.

Em 2014, foi lançada a Operação Lava Jato, capitaneada por uma força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba (PR). As decisões sobre as investigações de corrupção na Petrobras ficaram a cargo do então juiz Sérgio Moro, titular da 13a Vara da Justiça Federal da capital paranaense. A devassa atingiu rapidamente diretores da estatal, políticos e empresários de peso, empreiteiros principalmente. O PT ficou mais uma vez na berlinda.

Em 2016, Lula foi levado a prestar depoimento à Polícia Federal sob condução coercitiva, por ordem de Moro. No mesmo ano, o presidente foi denunciado no caso do tríplex no Guarujá. A Procuradoria alegava que a reserva e a reforma do apartamento pela empreiteira OAS era uma propina dissimulada para Lula.

Moro divulgou o grampo de uma conversa entre ele e Dilma, após a mandatária nomear o correligionário como ministro da Casa Civil. O áudio foi usado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como uma das justificativas para suspender a nomeação de Lula.

Moro condenou Lula no caso do tríplex, sentença que foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal (TRF), e o STF rejeitou habeas corpus de Lula.

Prisão de Lula

Em abril de 2018, Lula foi preso por ordem de Moro e permaneceu na carceragem da PF em Curitiba por 580 dias. A condenação, a prisão e a inelegibilidade decorrente da Lei da Ficha Limpa tiraram Lula do páreo nas eleições presidenciais de 2018. Até aquele momento, ele liderava as pesquisas de intenção de voto.

O ex-prefeito Fernando Haddad substituiu Lula na chapa petista e foi para o segundo turno contra Jair Bolsonaro. Entre uma fase e outra da eleição, Moro vazou depoimento do ex-ministro Palocci em que ele fazia mais acusações contra Lula. Com a vitória de Bolsonaro, o juiz aceitou convite do eleito para ser seu ministro da Justiça.

(JASON SILVA/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO)

Desde o início, Lula, sua defesa e o PT acusaram Moro o os procuradores da Lava Jato de perseguição, ou “lawfare”, o incorreto uso da lei como arma contra alguma pessoa ou instituição. O ex-presidente sempre negou as acusações contra si e afirmou que a operação tinha fins políticos.

Em novembro de 2019, o STF voltou atrás em sua decisão de autorizar a prisão de condenados em segunda instância, o caso de Lula, e o ex-presidente saiu da cadeia. Naquele ano, vieram a público as revelações do The Intercept Brasil, conhecido como Vaza Jato, série de reportagens sobre mensagens trocadas entre procuradores da operação e Sergio Moro, que mostraram relação próxima entre acusação e o então juiz.

Em março de 2021, o ministro do STF Edson Fachin decidiu anular todos os quatro processos contra Lula que tramitaram ou tramitavam na Justiça Federal de Curitiba, por entender que aquele não era o juízo competente para julgar os casos. Posteriormente, a decisão foi ratificada pelo plenário do tribunal. Os ministros avaliaram que os casos não tinham conexão com a Petrobras e, portanto, não podiam ser julgados na capital paranaense.

Em junho, o STF ainda jugou Moro suspeito no caso do tríplex, anulando todos os atos praticados pelo ex-juiz no processo. O plenário ratificou decisão da Segunda Turma. O ministro Gilmar Mendes, responsável pelo voto vencedor, ainda estendeu a suspeição para o processo que diz respeito ao sítio em Atibaia usado por Lula e para ação que tratava de imóvel para o Instituto Lula.

Governo Lula 3

Em 2022, Lula venceu o então presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno, com um programa de governo que prometia “proteger o patrimônio do país” e recompor o papel indutor e coordenador do Estado e das empresas estatais no desenvolvimento econômico, social, produtivo e ambiental do Brasil.

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o vice, Geraldo Alckmin (PSB), após a vitória nas urnas (Foto: Ricardo Stuckert)

Conhecido como “Lula 3”, o novo mandato de Lula à frente da Presidência do Brasil acumula entraves com o Congresso. Apesar das dificuldades, foram aprovadas a política do teto de gastos e novo arcabouço fiscal, reforma tributária, ampliação da isenção do Imposto de Renda e aumento do salário mínimo acima da inflação.

Socialmente, o governo Lula conseguiu diminuir em 85% a insegurança alimentar, segundo Relatório das Nações Unidas sobre o Estado da Insegurança Alimentar Mundial (SOFI, 2024).

Lula também avançou com políticas como a tarifa social na conta de luz e o Pé-de-Meia, uma poupança para estudantes encampada pela então adversária Simone Tebet (MDB) na campanha e incorporada pelo petista. Em 2026, o governo Lula decidiu abraçar a PEC do fim da escala 6×1, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP). O esforço colou no presidente o crédito pela aprovação da proposta na Câmara.