Com o mundo em recessão, Brasil aparenta ser uma ilha

Enquanto EUA, Alemanha e China veem desaceleração, ou mesmo recessão, a economia brasileira tem o PIB revisado para cima
Por  Felippe Hermes
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“Ilha de Vera Cruz”, “Terra de Vera Cruz” e “Ilha dos Papagaios” são alguns dos nomes dados ao território brasileiro após seu descobrimento, em 1500. A origem do nome “Brasil”, tradicionalmente associada ao Pau-brasil, uma árvore de madeira com cor intensamente vermelha, viria apenas anos depois, em 1527.

Para além da árvore símbolo nacional, porém, há uma associação mítica do nome. Em mapas e cartas de navegação medievais, era comum retratar ao norte da Irlanda a “Ilha Brasil”, cujo nome fazia referência ao sulfureto de mercúrio (denominado de “Breazáil” na Irlanda). Trata-se de uma “ilha fantasma”, como a Avalon das lendas do Rei Arthur.

Etimologia à parte, a ideia de “ilha” é comumente citada na economia como um símbolo de isolacionismo. E, ao que tudo indica, pode refletir parte do cenário brasileiro neste ano.

Economias como a americana, alemã e inglesa já rondam uma recessão, ou “crescimento negativo”, como parece se referir a Casa Branca quando aborda o assunto. No Brasil, entretanto, vemos uma onda de revisões do PIB.

Previsto em -0,5% em outubro de 2021, o PIB brasileiro em 2022 deve terminar o ano ao redor de 2%. E há uma série de indicadores bastante favoráveis ao país.

A arrecadação de impostos, um termômetro da atividade econômica, mostra que, em 3 de maio deste ano, o país atingiu a marca de R$ 1 trilhão em impostos arrecadados, número atingido 16 dias mais cedo do que em 2021.

O desemprego, por sua vez, caiu para 9,8%, o menor patamar desde 2015.

Tradicionalmente, o emprego é o último a ser afetado por uma recessão e o último indicador a reagir em momentos de crescimento.

A esse número, soma-se uma estabilidade na renda, o que, se não é positivo em si, ao menos demonstra que a renda parou de cair, algo verificado após o fim dos auxílios durante a pandemia.

A maior surpresa nesse sentido veio do varejo, que registrou alta de 22,3% em suas vendas nominais (não descontada a inflação) entre março de 2021 e março de 2022.

Em relação ao PIB, o varejo acumula alta de 2,3% no ano.

A taxa de formação bruta de capital fixo, um nome pomposo para resumir “Investimentos”, segue em 18,7%, uma queda em relação a 2021 (19,2%), mas ainda acima dos níveis pré-pandemia e similar à taxa de 2014.

A diferença, entretanto, está na composição do investimento. Ao contrário de 2014, a maior parte do investimento em 2022 ocorre por meio de crédito livre, aquele que não é direcionado por políticas públicas, como o PSI, o Programa de Sustentação do Investimento, pelo qual o BNDES inflou a taxa de investimentos do país.

Essa situação colabora em uma certa folga fiscal. Após sete anos de déficits, o governo federal deve registrar um superávit primário neste ano, o que ocorre em função da elevação da carga tributária e da arrecadação.

O número, a despeito de indicar maior pagamento de impostos, colabora com uma previsão menos pessimista para as contas públicas, o que evita um cenário de dívida pública explodindo, conforme projetado em meio à pandemia.

Nem todos os números, porém, são positivos. A taxa de juros brasileira voltou a ser a maior do mundo, quando considerada a inflação.

Se pegarmos a projeção de inflação para os próximos 12 meses, o Brasil tem hoje uma taxa de juros de 7% ao ano, contra -4% dos Estados Unidos.

Essa diferença brutal tem sido uma das razões para impedir que o real siga o caminho de outras moedas frente ao dólar em 2022, como o euro, que, pela primeira vez na história, ficou cotado abaixo de US$ 1.

Na Europa, aliás, tivemos a primeira elevação de juros desde 2011. Ainda assim, os juros por lá seguem em 0%, contra 8,1% de inflação. Isso significa que, caso você compre 100 euros em um título de dívida pública europeu, irá receber 91,9 euros no ano seguinte.

O cenário brasileiro, em se tratando de juros, não é positivo a curto prazo, especialmente em ano de eleição e após o anúncio de gastos públicos além do planejado, para cumprir uma agenda eleitoral, como a “PEC Kamikaze”. Mas há de se mencionar que o Banco Central brasileiro se adiantou em relação aos pares internacionais. O que indica que pode voltar a baixar os juros também mais cedo.

O banco central americano, o FED, prevê subir os juros até 2023. No Brasil, a expectativa é que os juros comecem a cair em 2023.

A alta de juros, como se sabe, é um remédio contra a inflação. Na prática, consumir se torna mais caro (e investir também), o que reduz a demanda e, por sua vez, reduz a alta de preços.

No cenário atual, porém, há quem argumente que os juros podem fazer pouco ou nada, tendo em vista que a elevação de preços ocorre no setor de energia, pouco afetado por taxas de juros.

Os indicadores brasileiros apontam um cenário positivo em relação ao resto do mundo. Mas, de volta ao nosso tópico original, é importante ressaltar que o Brasil não é (apesar de já ter sido chamado assim) uma ilha.

A economia brasileira tem desafios pela frente, como a desaceleração da economia chinesa, por exemplo.

A China registrou em 2022 o menor crescimento desde o início da série histórica. Isso significa que os chineses demandarão menos produtos brasileiros como soja e minério de ferro.

A recessão nos EUA, ironicamente, implica que o capital internacional tende a ir para os próprios EUA, saindo de lugares mais arriscados, como os países emergentes.

Olhando para o cenário americano, porém, é difícil imaginar que o banco central consiga manter os juros elevados por muito tempo. A dívida pública americana hoje equivale a 130% do PIB. Para reduzir esse valor, o remédio é um só: inflação.

O governo americano, assim como o brasileiro, tem elevado sua arrecadação com a alta de preços, o que, por sua vez, reduz o déficit nas contas públicas e a dívida em relação ao PIB pelas duas vias. Reduz-se o déficit, com alta de arrecadação, e aumenta-se o PIB, uma vez que ele também é corrigido pela inflação.

É possível que o Brasil comece a sentir os efeitos dessa desaceleração global no segundo semestre, o que implicaria em um “carrego” menor para 2023, ou seja, começaremos o ano que vem, muito provavelmente, com uma tendência de crescer menos.

Investimentos contratados, como os R$ 828 bilhões frutos de concessões e privatizações, podem atenuar essa desaceleração, uma vez que são obrigatórios por contratos. Mas seu peso representa menos de 10% do total de investimentos do país na próxima década.

Dado o cenário de gastança atual, além da prevista, e independente de quem for eleito, também devemos esperar para 2023 alguma sinalização mais conservadora em termos de orçamento, ao menos até o novo governo sinalizar se e como vai reformar o teto de gastos.

Teremos o fim de uma redução forçada nas alíquotas de impostos, que muito provavelmente sofrerão pressões para continuar menor (ao menos em 2023, tendo em vista que o STF já decidiu pela obrigação da manutenção em 17% das alíquotas de 2024 em diante).

Os dados do momento ajudam a amenizar a situação da população, que ainda se adapta a perda brutal de poder de compra por meio da desvalorização do real, mas implicam cautela frente ao cenário externo e aos malabarismos orçamentários em ano de eleição.

 

 

 

 

 

 

Felippe Hermes Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com

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