Crise real: o paywall das finais europeias chegou à monarquia britânica

A decisão da TNT de fechar as finais para assinantes expõe o choque entre tradição cultural e economia das plataformas, justamente quando mercado global redesenha o papel da distribuição gratuita dos esportes

Eduardo Mendes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Há seis anos, o governo britânico rejeitou uma proposta de uma comissão parlamentar da Câmara dos Lordes para adicionar a final da Liga dos Campeões à lista de eventos considerados “joias da coroa”, o que garantiria a transmissão gratuita em todos os canais.

Por ora, não há planos de os atuais governantes reconsiderarem a medida, informou a BBC Sport. Mas desde a decisão da TNT Sports de colocar Arsenal x PSG atrás de um paywall, o tema ultrapassou a esfera esportiva e atingiu o coração político da monarquia parlamentarista britânica.

Legítimo torcedor dos Gooners, o primeiro-ministro Sir Keir Starmer endereçou uma carta ao canal por meio da qual “insiste veementemente que reconsiderem” a decisão de disponibilizar a final deste sábado apenas para assinantes.

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É a primeira vez que os fãs ingleses precisarão pagar para assistir à final desde que a competição foi renomeada em 1992.

A escolha da TNT de não colocar o jogo em Budapeste ao vivo no YouTube ou via qualquer outro meio gratuito (free-to-air) não inclui apenas a “maior competição de clubes de futebol do mundo”, conforme o próprio Starmer definiu a Champions.

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O título da Liga Europa conquistado pelo Aston Villa na quarta passada exigiu uma assinatura do HBO Max por £ 4,99/mês ou de um pacote completo da TNT Sports por £ 31,99. A mesma regra se aplicará ao duelo desta quarta entre Crystal Palace e Rayo Vallecano, que decidirão a Liga Conferência.

A controvérsia também abriu questionamentos sobre o próprio “espírito do acordo” firmado com a UEFA.

A TNT paga cerca de £ 1 bilhão por ano pelos direitos da entidade. O The Guardian revelou que o contrato contém uma cláusula de “melhores esforços” (best endeavours), exigindo que o detentor dos direitos torne as finais disponíveis gratuitamente. Fontes da UEFA disseram ao jornal que a emissora teria quebrado o compromisso.

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A tal “lógica comercial” alegada por Simon Lane para explicar a determinação da TNT/Warner Bros Discovery remonta a uma estratégia clássica de exclusividade e escassez. Ou, nas palavras de Carlos De Marchis, o canal precisa recuperar o que desembolsa pelos direitos por meio da receita de assinaturas.

Atenção para o detalhe sórdido que traz mais contexto ao episódio do triplete inglês atrás de um paywall: daqui a 18 meses, a audiência da TNT migra para Paramount e Sky. Não faria sentido usar as finais europeias como ferramenta promocional para uma propriedade que não será mais sua em breve, certo?

O questionamento colocado por De Marchis nos lembra que resta, agora, a conversão de assinaturas na janela que a emissora ainda controla. Pelo menos na teoria, a decisão é comercialmente coerente.

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O fim de uma tradição de 33 anos

A ruptura não é apenas comercial, e encerrará um modelo histórico de distribuição esportiva no Reino Unido. A exibição das finais da Champions League foi gratuita por mais de três décadas. A manutenção desse privilégio passou por rearranjos e negociações entre canais, como mostrou De Marchis ao resgatar o histórico do torneio na televisão.

Entre 1993 e 2015, a ITV deteve os direitos e transmitiu a competição na ITV1, inicialmente sozinha e, depois, dividindo espaço com a Sky Sports. A BT Sport assumiu o pacote a partir da temporada 2015/16 e manteve a final gratuita por meio do BT Sport Showcase, canal digital aberto disponível na Freeview, além de transmissões no YouTube.

O Showcase foi encerrado em 2019, mas o streaming gratuito no YouTube permaneceu. Quando a BT Sport foi renomeada para TNT Sports, em 2023, a rota gratuita migrou para o Discovery+, mediante cadastro. Desde março, porém, o Discovery+ foi substituído pelo HBO Max.

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Para De Marchis, a leitura do setor sobre a decisão da TNT é “mais simples do que a moral”. E a próxima reconfiguração indica uma nova transferência de poder: a TNT perde os direitos da UEFA no final de 2026/27, a Paramount assume a Champions League a partir de 2027/28 e a Sky herda a Europa League e a Conference League.

O movimento paralelo da BBC e o modelo FIFA

O paradoxo é que, enquanto a TNT endurece o acesso às finais europeias, parte da indústria global caminha na direção oposta: utilizar distribuição gratuita e social como ferramenta de escala, descoberta e aquisição.

Recentemente, a BBC anunciou que a prévia e os primeiros dez minutos de cada partida das seleções britânicas e dos principais confrontos da Copa do Mundo serão transmitidos gratuitamente nos novos canais BBC Football no YouTube e no TikTok.

Ao fazer um paralelo entre os dois casos, De Marchis é taxativo: “finais gratuitas no YouTube funcionariam contra isso (…) finais atrás de paywall empurram os telespectadores para o HBO Max, que a Warner Bros Discovery continuará operando quando os direitos mudarem.”

Na mesma linha, Simon Lane lembra que a própria FIFA passou a alavancar pacotes gratuitos e digitais para jogos da Copa do Mundo. Ele cita o caso de Portugal, onde a LiveMode detém direitos de um subconjunto de partidas para distribuição digital via YouTube.

Para o analista, modelos que combinam distribuição gratuita e paga (como acontecia historicamente com ITV e Sky) tendem a criar uma proposta mais sustentável e, no limite, mais valiosa para o próprio ecossistema.

O último movimento da própria TNT no Brasil reforça os pilares desse formato híbrido. No início deste mês, a emissora renovou seu pacote da UEFA ao superar propostas da Globo e da CazéTV.

A novidade será a distribuição de 57 partidas no YouTube, com parte relevante da primeira fase aberta gratuitamente ao público. Enquanto ESPN/Disney+ deterá 100% dos direitos da UEFA Europa League e da UEFA Conference League em toda a América Latina.

Leia mais: UEFA amplia novo ciclo de direitos, e o jogo econômico do esporte segue concentrado

No fim do ano passado, em meio às indefinições envolvendo Paramount, Warner Bros Discovery e Netflix, a BBC Sport tentava projetar o futuro da transmissão esportiva no Reino Unido. A análise indicava que a consolidação entre emissoras e streamers provavelmente resultaria em um número menor de compradores para os direitos esportivos.

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Ao repercutir o artigo, Lane argumentava que, sob a ótica dos detentores dos direitos, talvez fosse mais interessante trabalhar com menos players, desde que eles sejam altamente capitalizados e possuam plataformas de distribuição e modelos de negócios diversificados. “Bastam dois players sérios para gerar tensão competitiva”, escreveu citando a disputa pela Warner.

Em novembro, relatei movimentos semelhantes na Europa que sinalizavam uma concentração crescente da mídia esportiva em poucos grupos capazes de operar toda a cadeia de distribuição. Isso seria o prenúncio de mudanças no equilíbrio entre TV aberta, TV paga e streaming e redefinir quem controla a relação com o público.

A economia das plataformas

A TNT calculou que o custo de queimar 33 anos de camaradagem com o torcedor inglês é menor do que o ganho imediato em assinaturas do HBO Max. Então, De Marchis pergunta:

“O HBO Max teve um aumento mensurável de assinaturas em torno das três finais? Se sim, a decisão da TNT foi comercialmente sólida, mesmo que tenha custado à marca. Se não, o paywall sacrificou um momento cultural sem qualquer retorno relevante.”

Durante décadas, finais europeias funcionaram como eventos nacionais de massa. Agora, o caso britânico expõe o dilema da indústria: eventos usados para maximizar alcance cultural ou propriedades operadas como ferramentas de aquisição e retenção dentro de ecossistemas fechados.

No fim, a verdadeira ruptura revelada pelo episódio é que o futebol continua global, mas sua lógica de circulação se torna cada vez mais orientada pela economia das plataformas.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.