Cristiano Ronaldo entre a velha e nova mídia

De sócio da Cofina a acionista da LiveMode, Cristiano Ronaldo atravessa a disputa entre mídia tradicional e creator-led

Eduardo Mendes

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Os resultados financeiros da Medialivre no primeiro ano após a aquisição foram publicados em julho do ano passado, mostrando lucro de 4,2 milhões de euros, abaixo dos 7,2 milhões de 2023, quando a empresa foi comprada por um consórcio de 11 investidores, incluindo Cristiano Ronaldo.

Há três anos, a Cofina, grupo que detinha títulos como CMTV, Correio da Manhã, Record e TV Guia, foi negociada por 70 milhões de euros. Ronaldo é o acionista individual de maior participação na holding Expressão Livre, com 30%.

A empresa de Ronaldo comprometeu-se com uma alocação de 13,095 milhões de euros, a título de ágio, em um capital social total que implicou entradas de 34,9 milhões de euros, segundo o portal Página Um.

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Assim, a CR7 suportou 37,52% do investimento, superando proporcionalmente a sua participação no capital.

Na época, o jogador e seus aliados disputaram a Cofina com a Media Capital, um dos maiores conglomerados de mídia de Portugal, detentor da TVI e CNN.

No fim de março, Pedro Morais Leitão, presidente executivo do grupo, revelou ao jornal Expresso que a FIFA pediu 430 mil euros pela transmissão televisiva de cada jogo da Copa do Mundo, tendo rejeitado todas as propostas da TVI para a aquisição dos direitos.

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Leitão criticou o Google por “apoiar o arranque da LiveMode no nosso país”, afirmando que a FIFA via no projeto uma forma de forçar televisões abertas a aceitar preços irreais.

Mal sabia Leitão que, menos de dois meses após seus disparates contra a LiveMode PT e seu projeto de transmissão de 34 jogos do Mundial no YouTube, ele teria Ronaldo novamente em seu caminho, desta vez vendo o jogador como o mais novo acionista da empresa.

Os modelos opostos dos negócios de mídia de Ronaldo

O atacante do Al-Nassr se junta a um quadro societário que inclui os fundadores Edgar Diniz e Sérgio Lopes, o sócio Leo Lenz Cesar e Thiago Tourinho, além da General Atlantic e de um fundo de private equity da XP Asset, que entraram no capital da empresa há dois anos.

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A LiveMode PT e sua narrativa digital-first apoiada por transmissões lideradas por creators e esportes gratuitos no YouTube, convergem para um modelo totalmente distinto da aposta feita por Ronaldo há três anos. Aqui temos o embate mais recorrente desta indústria entre a mídia tradicional e a mídia de criadores.

Segundo dados da Streams Charts, a CazéTV está entre os três principais canais do mundo em horas totais de conteúdo ao vivo em 2026, acumulando quase 230 milhões de horas assistidas. Ronaldo adiciona outros 672 milhões de seguidores no Instagram e 78 milhões de inscritos no YouTube.

Nas palavras de Tourinho, a entrada do super astro no negócio é “uma validação muito poderosa.”

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Em 2024, logo quando a General Atlantic adquiriu uma fatia minoritária da LiveMode, escrevi sobre como a empresa global de investimentos previu, dez anos antes, o futuro da mídia em um momento em que investidores evitavam criadores de conteúdo.

No fim do ano passado, foi a vez de a LiveMode assumir 100% da CazéTV após incorporar a fatia de 49% que estava com a CMiguel Produções. Analisei o novo momento, explicando por que o maior caso brasileiro de mídia de criador ratificava uma tese adotada por uma das mais influentes firmas de venture capital global, baseada no tripé conteúdo + comunidade + distribuição.

Na ocasião, argumentei que a mudança era um reflexo da exaustão do modelo de mídia financiado pelo venture capital na década passada.

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Leia mais: O fim da mídia como a conhecíamos: por que Casimiro virou tese de venture capital

Agora, com a entrada do jogador de futebol mais popular do mundo, pelo menos nos parâmetros sociais, o analista Simon Lane diz que existe “chance máxima” de Ronaldo recuperar seu investimento por meio de publicidade e patrocínio.

Conforme tenho falado, a sensação do conteúdo em qualquer lugar, desencadeada pela divisão dos direitos em múltiplos pacotes para diversas plataformas, demandará atenção dos detentores e distribuidores ao mesmo tempo em que a disputa pelos pacotes de propriedades esportivas abraça o movimento rumo ao streaming.

O impacto do ecossistema híbrido

Enquanto Ronaldo fortalece a LiveMode PT com sua presença social e investimento direto, os efeitos desse modelo começam a reverberar globalmente.

A equação direitos esportivos + criadores + atletas + plataformas digitais resulta em um ecossistema híbrido que desafia o status quo da mídia tradicional, como observa Lane.

Para os proprietários de IP, como FIFA e ligas europeias, a expansão desse modelo representa uma oportunidade de alcance adicional e monetização incremental, segundo Lane.

A durabilidade desse impacto, porém, depende do amadurecimento do ecossistema digital: se broadcasters tradicionais aceitarem o novo formato ou continuarem a resistir, a balança do valor comercial mudará radicalmente nos próximos anos.

Do lado dos radiodifusores, a situação é mais delicada. Atualmente, eles operam em faixas diferentes de público.

A CazéTV, por exemplo, tem 80% de audiência abaixo de 40 anos, mas essa segmentação não é sustentável indefinidamente.

Para Lane, há dois caminhos: ou focam apenas no público tradicional e aceitam um declínio no alcance jovem, ou passam a colaborar com criadores e participam do leilão por pacotes digitais, explorando novas formas de distribuição.

Para os criadores, os dias são de oportunidade, desde que consigam o investimento. Como frisou Lane, o dinheiro normalmente segue a oportunidade, mas o ecossistema de criadores é tão fragmentado que essa capitalização está demorando mais do que muitos imaginam.

Enquanto isso, há outros movimentos globais que sinalizam que o futuro da mídia esportiva ao vivo não passa mais por estúdios e grades lineares, mas por comunidades construídas no digital.

Céticos tornaram-se os novos compradores

Em abril, o ex-jogador Gary Neville, o mesmo que um dia chamou youtubers de “malditos” e disse que nunca convidaria Mark Goldbridge para seu podcast, anunciou que seu grupo de mídia, The Overlap, comprou dois dos maiores canais de fãs do YouTube: The United Stand e That’s Football, de Goldbridge, somando 3,7 milhões de inscritos.

O valor, não revelado, ficou na casa dos sete dígitos.

No início do ano, a Global, uma das maiores empresas de rádio comercial da Europa havia adquirido participação majoritária no The Overlap, sinalizando um novo olhar sobre os criadores no contexto dos direitos esportivos.

A ironia é perfeita para quem acompanha o setor. Neville passou anos desdenhando dos criadores. Em sua concepção, Goldbridge era o rosto do “fã emocionado que reagia a resultados”, exatamente o formato que a TV tradicional tratava como amador.

Como analisaram Paola Marinone e Bengü Atamer, grandes conglomerados de mídia (Global, The Chernin Group, Liberty Media) perceberam que é mais eficiente comprar uma comunidade do que construir uma.

“É fácil começar um podcast, mas escalar de um para mais de 1 milhão de assinantes está se tornando extraordinariamente difícil”, escreveram.

Os proprietários de ativos legados buscam saídas, e os construtores de rede procuram escala. O canal de fãs, uma vez desprezado pelas emissoras, sugerem as analistas, agora é um ativo de primeira linha.

A questão é: quão rápido esse modelo se expandirá para diferentes mercados e esportes, e quanto valor ele consegue gerar em um ambiente cada vez mais fragmentado e competitivo?

Durante o ciclo entre as Copas do Qatar e, agora, EUA-Canadá-México, CazéTV e LiveMode demonstraram que a distribuição orientada por creators remodelou a transmissão esportiva. A próxima transição será o efeito de rede, com ligas, plataformas e criadores operando dentro de um mesmo ecossistema.

A regra implícita é de que IPs que não combinam alcance multiplataforma, comunidade leal e formatos escaláveis tendem a ficar pelo caminho.

Tanto para os cases de Ronaldo e Gary Neville, vale a máxima de que talento converte atenção em valor corporativo. O IP de atletas-criadores deixa de ser um projeto de vaidade para tornar-se ativo.

Estamos saindo da lógica da taxa fixa de direitos para um modelo de monetização por ecossistema.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.