A disputa pela Copa de 2030 revela uma nova precificação para os direitos esportivos

Com Netflix, Disney e YouTube ensaiando uma entrada daqui quatro anos, a corrida pelos direitos ajuda a consolidar uma mudança de mentalidade em que transmissão, descoberta, distribuição e monetização passam a compor o valor econômico de um mesmo ativo

Eduardo Mendes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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O próximo ciclo de direitos para a Copa do Mundo poderá custar entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões somente nos Estados Unidos.

A estimativa feita por executivos de mídia do país também considera a possibilidade de a FIFA negociar conjuntamente os pacotes em inglês e espanhol para as edições de 2030 e 2034.

Se confirmada a projeção mais alta, o valor superaria em mais de duas vezes os US$ 485 milhões pagos pela Fox (inglês) e os US$ 600 milhões desembolsados pela Telemundo (espanhol) para o torneio deste ano.

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O movimento acompanha uma escalada global do valor comercial dos direitos da FIFA. Um salto de US$ 2,4 bilhões, em 2010, para US$ 4 bilhões este ano.

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Muito além da televisão

É possível que essa disputa também ganhe uma configuração diferente. Segundo Alex Sherman, da CNBC, Netflix, Disney e YouTube estão interessados em desafiar a Fox pelos direitos de transmissão nos EUA. A Amazon, que já possui os direitos da Champions League no Reino Unido, também pode entrar na concorrência.

A movimentação revela uma mudança relevante na geografia dos direitos esportivos.

A disputa deixa de envolver apenas empresas tradicionalmente associadas à televisão e passa a incluir plataformas cujo negócio depende da expansão de ecossistemas digitais, dados e relacionamento direto com usuários.

Quando a CNBC publicou a informação, os recordes de audiência registrados nas fases decisivas da Copa ainda não haviam sido incorporados à equação bilionária.

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Nos Estados Unidos, 19,48 milhões de telespectadores acompanharam pela Fox Jude Bellingham despachar a Noruega, com pico próximo de 25 milhões durante a prorrogação.

O número ficou próximo dos 18 milhões de britânicos que viram a classificação inglesa pela ITV.

Na semifinal contra a Argentina, a audiência da BBC atingiu 24 milhões de telespectadores, garantindo ao canal uma participação de 85% entre todos os espectadores de televisão que assistiam à partida no Reino Unido.

No Brasil, a CazéTV estabeleceu uma nova marca para uma live do YouTube ao registrar mais de 24,2 milhões de aparelhos conectados durante a vitória da Espanha sobre a França na primeira semifinal.

Os números ajudam a explicar por que o Financial Times apontou, recentemente, que a audiência “excepcional” desta Copa envia um recado da FIFA ao mercado: não haverá mais descontos nos próximos ciclos de direitos.

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Durante o torneio, Fox e Telemundo viram suas audiências crescerem 150% e 154%, respectivamente, em comparação com a competição de quatro anos atrás.

O FT, porém, faz uma ponderação: embora uma disputa entre serviços de streaming possa elevar ainda mais o preço, o valor final dos direitos americanos continua “difícil de projetar.”

A narrativa em torno do principal mercado da Copa deste ano aponta para um movimento das plataformas digitais em direção ao território historicamente dominado pela televisão.

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Por aqui, o movimento aconteceu em direção oposta

A CazéTV desafiou o reinado da Globo, mostrando que a reconfiguração da economia do esporte ao vivo determina múltiplos pontos de controle distribuídos entre plataformas, com monetizações independentes, porém conectadas.

Não por acaso, a FIFA considera uma venda aberta ao mercado brasileiro para o próximo ciclo, sem exclusividade, conforme noticiou a Folha de S.Paulo nesta semana.

Apesar de partirem de posições diferentes, os dois mercados convergem em uma mesma transformação. O fracionamento da audiência tornou mais difícil imaginar que um único player consiga explorar sozinho todas as possibilidades de um grande evento esportivo.

Foi justamente esse um dos pontos da conversa com André Barros, publicada nesta semana. Na visão do Co-CEO da N Sports, a nova dinâmica deve considerar a fragmentação como um fenômeno inevitável e cada vez mais será custoso para um detentor produzir seu evento.

“Cada janela tem seu público. E eles não competem, necessariamente.”

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Na prévia de a Argentina prolongar para pelo menos mais 64 anos o jejum inglês na segunda semifinal, trouxe a visão de Barros em relação ao consórcio firmado entre N Sports e SBT e sua leitura sobre a transformação dos direitos, distribuição e modelos de negócio.

Agora, antes de saber se a Espanha impedirá ou não o bicampeonato de Messi & cia neste domingo, retomo a discussão para uma pergunta que estará no centro do próximo ciclo: por que os direitos esportivos passaram a ser tratados por empresas globais como ativos estratégicos capazes de movimentar ecossistemas inteiros?

O dilema entre custo e ativo

Projeções feitas pela Moffatt Nathanson no primeiro semestre deste ano sugerem que os direitos esportivos corresponderão a 20% e 40% ou mais dos gastos com conteúdo das grandes empresas tradicionais de mídia.

Antes da Copa começar, o analista Simon Lane mostrou que Disney e Fox estão entre as companhias mais expostas ao custo dos direitos, representando 41% e 63% de seus gastos com conteúdo, respectivamente.

Créditos: Reprodução / Moffatt Nathanson

O balanço divulgado pela Disney em maio ajuda a dimensionar essa pressão. Os custos com direitos da ESPN, estimados entre US$ 10,8 bilhões e US$ 11 bilhões por ano, equivalem a aproximadamente 75% das despesas operacionais da empresa.

Esse cenário abriu uma discussão que trouxe recentemente ao analisar os desafios da ESPN: afinal, direitos esportivos devem ser tratados como uma despesa operacional ou como um ativo estratégico capaz de gerar valor ao longo do tempo?

Na ocasião, o analista Nick Meacham provocou uma mudança de perspectiva ao afirmar que deter direitos é menos importante do que entender quem merece ocupar a atenção do usuário na tela inicial.

A reflexão conversa com a tese apresentada por Josh Stein em um longo ensaio sobre a economia dos direitos esportivos. Para o especialista, esses ativos deveriam ser avaliados mais próximos de títulos financeiros do que como um custo tradicional de marketing ou mídia.

Sob essa perspectiva, contratos de direitos representam fluxos de caixa futuros que poderiam ser estruturados como ativos financeiros, com seu valor associado à capacidade de gerar atenção, relacionamento e receita ao longo do tempo, e não apenas ao desembolso inicial realizado pela aquisição.

Levei essa provocação a Barros para entender como a indústria tem tratado os direitos esportivos: ainda como custo de mídia ou como ativos capazes de funcionar como plataformas para gerar diferentes linhas de receita.

“Essa é uma discussão frequente que temos aqui. Onde alocar o investimento em direitos? Como um custo ou como ativo no CAPEX?”

Na visão do executivo, o desafio está justamente em conectar essas receitas adicionais à aquisição do direito, especialmente em ativos de ciclo curto como uma Copa do Mundo.

Em projetos mais longos, como “um contrato de Libertadores de três anos”, essa relação se torna mais evidente pela possibilidade de construir audiência, fortalecer marca e explorar uma cauda longa de conteúdo.

Mais do que o retorno direto da transmissão, Barros defende que o valor precisa ser analisado pelo potencial de aproveitamento do ativo em diferentes frentes.

“Direitos são muito mais um ativo do que uma linha de custo. A mentalidade precisa ser que o direito não é só 90 minutos.”

O direito como porta de entrada para plataformas

Nesta semana, a Netflix divulgou os resultados do terceiro trimestre, sinalizando que sua receita publicitária deve alcançar US$ 3 bilhões até o fim do ano.

A Forbes destacou que a expansão desse negócio passa diretamente pela estratégia de programação ao vivo, especialmente eventos esportivos.

Dois dias antes, o Sportico informou que a empresa teria pago cerca de US$ 50 milhões anuais pelo Home Run Derby, além de outros eventos da MLB.

A primeira transmissão do evento registrou 5,3 milhões de espectadores, a menor audiência da competição desde 2003.

O dado, aparentemente contraditório, ajuda a explicar a mudança de estratégia.

A Netflix não foi ao shopping comprar eventos esportivos apenas pelo tamanho imediato da audiência. O movimento está relacionado à capacidade desses ativos de gerar novos pontos de contato com usuários, ampliar inventário comercial e fortalecer uma estratégia de publicidade ainda em construção.

Pesquisa da Ampere Analysis do primeiro semestre projeta que os serviços de streaming investirão US$ 14,2 bilhões em direitos esportivos em 2026, crescimento de 7% em relação ao ano anterior.

Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos

O Prime Video, o menos cotado entre esses players para disputar a próxima Copa, segundo a CNBC, deve se tornar o maior investidor global em direitos esportivos entre as plataformas, com US$ 3,8 bilhões, superando a DAZN.

No total, os serviços de streaming generalistas representarão 44% dos investimentos em direitos esportivos no próximo ano, contra 31% em 2025.

A disputa, porém, não significa que a televisão tradicional perdeu relevância.

Como analisou Lane ao discutir a evolução desse mercado, os modelos seguem coexistindo: a transmissão linear permanece dominante em muitos centros, o DTC atende esportes mais específicos, o YouTube amplia alcance incremental e os conteúdos derivados, como highlights, ganham valor dentro da disputa pela atenção.

É uma leitura que ajuda a entender a observação feita por Barros durante nossa conversa.

Na avaliação do executivo, o retorno de um direito esportivo passa cada vez menos pelo resultado isolado da transmissão e mais pela capacidade de irradiar valor para outras frentes do negócio.

Crescimento da base de inscritos, fortalecimento de marca, comunidades digitais e presença em diferentes plataformas passam a integrar a conta do investimento.

“Em diversas plataformas fica mais fácil transformar essa ferramenta em uma grande alavanca de negócios do que olhar somente para o resultado do direito específico.”

Essa premissa também altera a forma de medir risco.

Barros observa que operações digitais carregam uma estrutura significativamente mais leve do que grupos tradicionais de mídia.

O peso da infraestrutura, das equipes e da produção deixa de concentrar toda a equação econômica do direito, permitindo distribuir o retorno esperado por diferentes ativos construídos ao redor do evento.

No fim, a mudança ajuda a explicar por que empresas com modelos de negócio tão distintos passaram a olhar para o mesmo ativo.

A nova geografia dos direitos

As transformações discutidas ao longo destes dois artigos publicados na semana derradeira da Copa não apontam para a substituição de um modelo por outro, mas para uma reorganização da própria função dos direitos esportivos.

François Godard, analista da Enders Analysis, avalia que ainda não existe um conflito direto entre emissoras responsáveis pelas transmissões integrais e plataformas dedicadas à distribuição de clipes.

Ele, porém, enxerga nesse processo um passo importante para o futuro. “É fácil imaginar o YouTube disputando direitos ao vivo. Esse é um sinal de alerta para a televisão tradicional.”

Quase um mês depois, vale retomar a pergunta que abriu esta cobertura, quando provoquei aqui que a Copa do ciclo de US$ 13 bilhões colocaria à prova algumas das principais teses sobre o futuro da mídia esportiva.

A principal delas, talvez, seja a de que a ascensão das plataformas globais eliminaria a importância das estruturas locais de distribuição.

O que este Mundial mostrou foi justamente o contrário. A pulverização dos direitos permanece uma necessidade econômica para maximizar receitas e atender às particularidades de cada mercado.

Ao mesmo tempo, plataformas como YouTube, TikTok e, cada vez mais, os próprios criadores deixam de ser vistas apenas como canais complementares para assumir um papel estratégico na descoberta, circulação e valorização do conteúdo.

Leia mais: A sobreposição entre FIFA e YouTube redefine a Copa como produto de mídia e distribuição

Essa leitura também aparece em uma análise publicada neste ano pelo blog Disruptive Play. Em vez de substituir os acordos locais de transmissão, os direitos passam a incorporar novas camadas de descoberta e distribuição.

A monetização continua concentrada nas janelas tradicionais, mas a circulação do conteúdo se expande por feeds, criadores, plataformas sociais e diferentes formatos de vídeo.

Foi exatamente essa a provocação feita por Meacham no primeiro artigo desta série. A pergunta já não é se essas plataformas devem fazer parte da estratégia dos detentores de direitos.

A questão passa a ser se elas competem pela audiência das transmissões ou ampliam o alcance e o valor do próprio ativo.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.