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O compromisso da Telemundo com sua audiência durante a Copa 2026 é de não exibir comerciais durante as pausas de hidratação.
Em entrevista ao Business Sports Journal na semana passada, Miguel Lorenzo, vice-presidente sênior de conteúdo da emissora de língua espanhola da Comcast/NBC Universal, destacou a importância de “criar uma experiência autêntica de assistir” ao torneio.
Até o fechamento desta coluna, não estava claro se a Fox Sports, a outra detentora norte-americana dos direitos do Mundial, seguiria a rival ou utilizaria as interrupções para ampliar sua receita publicitária.
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Daniel Cohen, responsável pelos direitos de mídia esportiva da consultoria Octagon, disse ao The Athletic que a Fox recuperaria todo o investimento apenas com publicidade.
Segundo suas estimativas, os anúncios representam entre 30% e 40% da receita gerada pelo Mundial, enquanto a maior parte vem das taxas de retransmissão. Ele calcula que os 30 jogos exibidos pelo Fox Sports 1 renderão cerca de US$ 70 milhões adicionais.
A Fox investiu US$ 485 milhões pelos direitos da Copa, valor que inclui um bônus relacionado à realização do torneio nos Estados Unidos. Esse número, porém, poderia ser muito maior.
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Especialistas ouvidos pelo The Athletic estimam que, se a FIFA abrisse uma nova licitação hoje, os direitos valeriam entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão.
O repórter Tariq Panja recuperou essa discussão ao revelar em maio uma negociação realizada nos bastidores entre 2014 e 2015. Na época, a FIFA concordou em estender o contrato da Fox até 2026 em troca de evitar um potencial litígio caso o Mundial de 2022 fosse transferido para o fim do ano por causa do Catar.
A Fox, que nunca havia transmitido uma Copa do Mundo, derrotou a ESPN na disputa pelos torneios de 2018 e 2022.
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Seu argumento era de que osUS$ 425 milhões pagos pelos direitos faziam sentido apenas se eles fossem disputados durante o verão americano, quando não acontecem jogos dos esportes das quatro principais ligas do país.
A decisão tomada 11 anos atrás também estendeu o privilégio à Telemundo e sua equivalente canadense.
O contexto mais amplo dessas histórias vai além da valorização dos direitos esportivos. Elas ajudam a explicar como a indústria tenta equilibrar crescimento de receita, acordos de distribuição cada vez mais fragmentados e novas formas de monetização da audiência.
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Sob essa perspectiva, a Copa de 2026 será um grande teste simultâneo das principais teses que hoje disputam o futuro da mídia esportiva: direitos, distribuição, plataformas, criadores e monetização.
Como observou Nick Meacham em conversa com Chris Stone no podcast Streamtime Sports, a discussão mais interessante não está nos US$ 13 bilhões que a FIFA projeta arrecadar neste ciclo, mas nas respostas que o torneio poderá oferecer sobre para onde a indústria está caminhando.
A ilusão dos números absolutos
Os direitos de mídia da FIFA quase dobraram de US$ 2,4 bilhões em 2010 para uma projeção superior a US$ 4 bilhões em 2026. Mas, quando se ajusta a curva pela inflação e se observa o crescimento ciclo a ciclo, ressalta Meacham, os números são “menos impressionantes do que os valores absolutos sugerem.”
Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos
Para 2026, o aumento nominal projetado é de 14,1% em relação a 2022. No ciclo anterior, entre Rússia e Catar, o salto havia sido de 24,1%. Voltando até 2010, a diferença é ainda mais evidente: depois de crescer apenas 0,8% entre África do Sul e Brasil, a receita avançou 13,7% no ciclo seguinte.
O analista aponta para uma “tendência mais ampla de estagnação”, semelhante ao que acontece com os direitos domésticos europeus. Ele cita os acordos tardios com China e Índia como outro ponto que reforça sua tese.
Leia mais: UEFA amplia novo ciclo de direitos, e o jogo econômico do esporte segue concentrado
A FIFA chegou a um entendimento com a Índia apenas na semana passada, quando anunciou a Zee Entertainment como transmissora do torneio. Segundo a Reuters, o contrato foi fechado por US$ 60 milhões, abaixo dos US$ 100 milhões pretendidos inicialmente.
Na China, o impasse terminou em 15 de maio. O China Media Group garantiu os direitos das próximas quatro Copas do Mundo (duas masculinas e duas femininas) até 2031 por US$ 60 milhões. A primeira expectativa da FIFA girava em torno de US$ 250 milhões.
Há um mês, trouxe aqui que um eventual blackout nesses países poderia afetar regiões que representaram 22,6% do alcance global de streaming da Copa em 2022.
O episódio também expõe uma questão mais ampla: a dependência da FIFA de parceiros externos para monetizar sua audiência em larga escala e as dúvidas sobre a capacidade do FIFA+ se transformar em um negócio relevante nesses mercados.
Leia mais: O risco de blackout da Copa na Ásia deflagra o dilema do FIFA+
Essa discussão ajuda a explicar outro dado destacado por Meacham: os 175 acordos individuais de transmissão fechados pela FIFA para a Copa de 2026.
A pulverização pode parecer contraditória em um ambiente dominado por plataformas globais, mas continua sendo parte fundamental da lógica econômica do torneio. Na avaliação do analista, não se trata de uma ineficiência do sistema, mas de uma “necessidade estrutural.”
Acordos globais tendem a gerar “vazamentos” de valor, enquanto a receita de patrocínio continua diretamente associada à capacidade de garantir alcance massivo em televisão aberta dentro de cada mercado.
O argumento desafia uma das premissas mais difundidas da economia digital: a de que escala global necessariamente substitui estruturas locais. No caso da Copa do Mundo, a dinâmica parece ser inversa.
Quanto mais global o evento, maior a necessidade de adaptações comerciais, regulatórias e de distribuição em cada território.
“Quem trabalha com propriedades esportivas globais precisa construir para essa complexidade, e não contorná-la”, resume Meacham.
O teste do ecossistema paralelo
A pulverização dos direitos ilustra a complexidade do ecossistema de mídia esportiva. Nesse cenário, a decisão da FIFA de transformar TikTok e YouTube em plataformas preferenciais de distribuição é um dos testes mais importantes do setor, ressalta Meacham.
O analista defende que a questão não é se devemos usar essas plataformas, mas como classificá-las. E então vem a pergunta: são concorrentes canibalizando sua audiência proprietária ou canais de distribuição ampliando seu alcance?
Essa é uma leitura que converge com a análise de Jean Baptiste Alliot trazida por mim, em março. Em vez de enxergar as plataformas como concorrentes diretas dos broadcasters, ele sugere interpretá-las como ecossistemas paralelos, com linguagens, produtos e dinâmicas próprias de consumo.
Sob essa ótica, a estratégia da FIFA deixa de parecer uma simples expansão de alcance e passa a ser vista como uma tentativa de construir novas camadas de audiência sem necessariamente substituir as antigas.
A janela de dez minutos ao vivo no YouTube demandará atenção especial. Como bem lembrou Carlo De Marchis em artigo publicado no fim de maio, esse é tempo suficiente para monetizar.
“Os anúncios do YouTube são executados pré-roll e mid-roll. Uma abertura de dez minutos de uma grande partida internacional pode suportar múltiplas colocações de anúncios com CPMs premium.
As emissoras ganham receita no próprio stream do YouTube, além de qualquer conversão de assinatura posterior.”
E esse período só funciona, explica De Marchis, porque que essas plataformas construíram mecanismos para concentrar a audiência antes mesmo do início da transmissão. O YouTube faz isso via notificações e página de exibição, enquanto o TikTok entrega algo equivalente com o GamePlan, adaptado ao seu formato.
Na visão de Meacham, o resultado dessa experimentação não será apenas uma métrica de audiência. A taxa de conversão entre espectadores e assinantes indicará o quanto a distribuição social-first consegue agregar valor real aos detentores de direitos, em mercados com modelos públicos ou pagos distintos.
Isso nos leva a uma última pergunta que a Copa de 2026 poderá responder: o “criador-como-emissora” é um caminho viável ou um ponto fora da curva?
Meacham separa o estrutural do circunstancial e cita a operação LiveMode/CazéTV como exemplo.
Segundo ele, o canal deu certo no Brasil porque partiu de uma audiência já construída e de um mercado no qual a transmissão tradicional apresentava lacunas. O caso português segue a lógica oposta: está sendo construído do zero. É esse experimento que merece atenção.
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No fim, o obstáculo real continua sendo econômico. A monetização liderada por criadores, observa o analista, ainda está distante do volume publicitário que plataformas lineares e broadcasters tradicionais conseguem capturar em mercados maduros.
Daqui um mês, ao fim da Copa, a indústria irá compreender melhor se o modelo também escala.