Sérgio Mallandro ou Guido Mantega: quem é o melhor amigo da Bolsa?

Ministro da Fazenda disse que nunca um governo foi tão amigável ao mercado - apesar das diversas críticas que grandes investidores fazem sobre a atuação da atual gestão do Brasil na dinâmica da economia

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SÃO PAULO – Vale tudo para chamar o investidor para a Bolsa. Ao menos, essa deve ser a nova ordem na Fazenda e na própria BM&FBovespa. Na última segunda-feira (16), o ministro Guido Mantega anunciou 5 medidas de auxílio aos pequenos e às empresas de porte mais modesto – estas para matutarem melhor a ideia de abrir capital para crescer. De isenção de IR nos lucros até o desenvolvimento de mais cursos introdutórios, a ideia é tirar a todo o custo parte do atraso em relação a outras economias, que, apesar de menores, dão uma goleada no Brasil quando o assunto é percentual da população investindo em ações e número de companhias listadas.

Enquanto emergentes como Chile e Peru, por exemplo, têm de 10% a 15% da população investindo no mercado de capitais, a economia verde-amarela não conta com mais de 0,03% de seus cidadãos na BM&FBovespa – o fato foi lembrado pelo próprio presidente da Bolsa, Edemir Pinto, durante o evento da última segunda-feira na sede da empresa. No mesmo raciocínio, enquanto as principais bolsas de Índia, China e Hong Kong contam, em média, com cerca de 1.628 empresas listadas, a Bovespa não chega nem a 400.

Em um momento marcado pelo ceticismo pelo qual a economia brasileira tem passado frente à opinião de boa parte dos investidores, empresas e demais atores do mercado financeiro, a preocupação em sinalizar um interesse em reconquistar a confiança via anúncio de pacotes como o último mostra-se de suma importância. No entanto, em um País em que a Bolsa soa para o cidadão quase que como um prato de brócolis para uma criança pequena, são necessários novos ingredientes para tornar o produto um pouco mais atraente, principalmente quando se trata de chamar novos investidores e convencer o mercado a dar chances às empresas que querem entrar em cena.

O sino de abertura do pregão acionado pelo ministro já era esperado como parte do show, mas ninguém imaginava ver em Mantega um largo sorriso ao vestir o boné amarelo com aba verde da BM&FBovespa (ver foto). Sua falta de jeito para a situação ficou evidente, mas a mensagem passada para o mercado foi finalmente interpretada como positiva. É isso que importa, diriam os marketeiros da campanha, que acabaram trazendo um ar de Copa do Mundo para o disputado ambiente dos pregões. Foi um primeiro passo que os investidores há tempos esperavam do governo após tantos desentendimentos, e que veio logo depois da oficialização dos nomes da oposição para a corrida eleitoral. Coincidência? Mantega jura que sim: “lembro de nossa primeira reunião há cerca de um ano”, disse durante a apresentação. Segundo a equipe do projeto, foram necessárias diversas visitas e análises de mercados do exterior para que a engrenagem do pacotão de incentivo fosse enfim acertada em seus detalhes.

Best friend do mercado ou “Guido Mallandro”?
Segundo o ministro, o tom amigável com o mercado não foi fato inédito que se tentou promover apenas no evento de ontem, tampouco tem caráter interesseiro com a aproximação das eleições. Para ele, nenhum outro governo foi tão bem sucedido como esse na empreitada de cativar empresas e investidores. “O que nós podemos ver pelos gráficos que nós mostramos é que, do ponto de vista do mercado de capitais, nosso governo é muito amigável, porque ele nunca cresceu tanto quanto cresceu durante o nosso governo. Então, quando se trate em ser amigável com o mercado de capitais, podemos dizer que nós fomos os mais amigáveis de toda a história”, afirmou Mantega durante coletiva de imprensa logo após o anúncio das cinco novas medidas.

O jogo de cintura que lhe faltou durante o episódio do boné no momento do toque do sino de abertura parece ter sobrado quando conversou com jornalistas após o anúncio do pacotão. Na sala de imprensa da Bovespa, muitos foram os risos disfarçados e também descarados na sequência da colocação do ministro sobre a amizade com o mercado. Como em um programa do famoso comediante Sérgio Mallandro, o final do evento marcou, ao menos na visão de boa parte da imprensa, mais como um show de humor do que qualquer esclarecimento de medida política econômica adotada pelo governo. Teria o boné da Bolsa aflorado um lado “Mallandro” no ministro?

As medidas anunciadas foram muito bem vistas por diversos investidores e especialistas do mercado presentes no evento. Apesar disso, poucos concordariam com a fala de que o governo tem sido amigável com o mercado, tendo em vista as múltiplas sinalizações de otimismo na Bolsa a cada pequena perda de espaço da presidente Dilma Rousseff na corrida às urnas. O famoso rali eleitoral do Ibovespa foi um dos principais elementos tratados pelo mercado nos últimos meses e parece ter sido ignorado pela “análise gráfica” do ministro da Fazenda mais longevo do País. Por pouco a “pegadinha” de Mantega não acabou chamando mais atenção do que o novo plano de medidas ao mercado de capitais. Vale ressaltar, porém, que os efeitos de tais medidas não devem ser sentidos de imediato. É preciso tempo para avaliar se o governo enfim balançou as redes em prol do mercado e diminuiu a diferença no placar para o time da casa.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.

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