“Estelionato eleitoral”: Aécio Neves tem razão sobre Dilma?

Aécio tem razão em listar a incoerência entre prática e discurso de Dilma, mas sua fala perde credibilidade na medida em que se observa que um correligionário seu usou a mesma estratégia

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*Colaborador do InfoMoney por mais de um ano, Marcos Mortari atualmente trabalha como consultor político.

SÃO PAULO – Passadas as eleições que selaram a reeleição de Dilma Rousseff à presidência da República na disputa mais equilibrada dos últimos tempos, seu principal adversário político atual, o senador Aécio Neves, tenta recolher os cacos de um sonho quebrado em outubro do ano passado para se confirmar como a principal liderança da oposição do PSDB ao novo governo petista – o quarto consecutivo.

Mirando 2018, o tucano cria quase um terceiro turno informal ao manter vivo o clima eleitoral do ano passado em Brasília. Com importantes lideranças do tucanato paulista também ocupando cadeiras no Senado – leia-se José Serra e Aloysio Nunes, vice de sua candidatura na última disputa –, Aécio busca uma exposição midiática que o mantenha em uma zona de destaque na cena política, fazendo frente também a uma sombra do governador Geraldo Alckmin que cresce com a esmagadora vitória nas urnas de SP. O mineiro-do-Rio vem desgastado por uma amarga derrota em seu próprio reduto político e sabe que corre o risco de ter perdido a vez.

Enquanto a presidente reeleita tenta como pode fazer sinalizações e agrados àqueles que não acreditam em sua capacidade de comandar o País por mais quatro anos, adotando políticas econômicas ortodoxas de um neoliberalismo deixado em segundo plano no primeiro mandato, Aécio aproveita para se infiltrar em algumas das feridas ainda superficiais abertas por Dilma em seu principal eleitorado ao dar atenção maior aos anseios do mercado financeiro, concentrado, sobretudo, em São Paulo. O estado respondeu pelo pior desempenho da petista nas urnas em comparação com as outras unidades da federação.

Os pacotes econômicos recém-anunciados pelo ministro da Fazenda e “Chicago boy” Joaquim Levy, que culminaram na redução de direitos trabalhistas, cortes nos investimentos dos bancos públicos, “tesouradas” nas despesas orçamentárias de pastas importantes, elevação de tributos sobre combustíveis, produtos importados e operações de crédito, além de uma conta de luz bem mais salgada, são parte de uma estratégia do governo para recuperar a confiança dos principais agentes econômicos globais. Em contrapartida, perde-se uma gordura advinda de movimentos sociais, organizações trabalhistas e membros de camadas menos abastadas da sociedade brasileira.

Apesar de se alegar que a austeridade fiscal seja importante para a retomada da economia – e, por consequência, evoluções ainda maiores na inclusão social –, em um primeiro momento tal argumentação tende a se descolar do cenário que se configurará nos próximos meses e se arrastará por alguns anos. Com isso, torna-se cada vez mais difícil advogar em prol daquilo que, em pouco tempo, já foi apelidado como “pacote de maldades”.

É exatamente sobre essa fraqueza – agravada pelos ruídos gerados pelas lacunas de comunicação da presidente quando perde a oportunidade de defender e legitimar a mudança de rumos na economia, representada pela troca do longevo desenvolvimentista Guido Mantega pelo executivo do Bradesco – que se desenha a estratégia dos ataques do tucano. Em suma, Dilma, tradicionalmente mais à esquerda, dá passos em direção à direita, enquanto Aécio faz o inverso. Nada, porém, que os desloque do centro político.

Na última terça-feira, o senador voltou a criticar as medidas anunciadas pelo governo, classificando-as como “estelionato eleitoral”, a exemplo de discurso que fez em novembro do ano passado no plenário. “A candidata Dilma mentiu aos brasileiros, porque disse inúmeras vezes – na campanha, nos debates eleitorais – que sob hipótese alguma haveria aumento da carga tributária”, afirmou o tucano em vídeo postado em sua página no Facebook.

“A verdade é que faltou à então candidata Dilma Rousseff a responsabilidade de admitir a gravidade da crise econômica por que passava o país, a gravidade do setor elétrico, para ter tomado as medidas necessárias a minimizar os seus efeitos para o conjunto dos brasileiros”, criticou. Aécio concluiu seu pronunciamento alegando que a presidente não pode terceirizar a responsabilidade sobre tais medidas, em uma menção à decisão de posicionar Joaquim Levy como porta-voz de todas as medidas impopulares para a política econômica.

A teoria de “estelionato eleitoral” não é de uso exclusivo da oposição tradicionalmente mais à direita. Outro que tem manifestado aguda indignação com o descolamento entre o discurso da candidata Dilma Rousseff e as práticas da presidente reeleita é Gilberto Maringoni, candidato derrotado ao governo paulista nas últimas eleições pelo PSOL. Na última quarta-feira, o socialista fez duras críticas à presidente em comentário sobre a notícia da elevação da taxa de juros.

“Todos ficam indignados com a revelação da Oxfam de que os 1% mais ricos do mundo em breve terão mais de 50% da riqueza mundial. O que precisa ser dito também é que medidas como esta, tomadas pelo PT no governo, contribuem decisivamente para a transferência de renda dos pobres pra os ricos. Dilma ficará eternizada como aquela presidente que antes da campanha acusou seus adversários de semearem dificuldades para colher juros altos”, escreveu Maringoni em texto intitulado “Estelionato eleitoral em marcha”.

O socialista, no entanto, vai mais longe e adota a mesma régua para fazer uma avaliação sobre o governador reeleito em São Paulo, Geraldo Alckmin, que, durante a campanha, disse que não faltava e não iria faltar água no estado, assim como negou a aplicação de racionamento. Há poucos dias, o tucano mudou drasticamente sua posição ao reconhecer a gravidade da situação, juntamente com o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, que disse ser possível o sistema Cantareira secar em março. Ao contrário do que sugere a ausência de São Paulo no discurso de Aécio sobre “estelionato eleitoral”, Maringoni mostra que a situação dos tucanos no estado seria, se não mais grave, a mesma que a protagonizada por Dilma.

“Ora, se são impopulares, são contra o povo”
– Dilma Rousseff, sobre as medidas impopulares ditas necessárias por seu adversário Aécio Neves, que se comprometia a tomar caso eleito (20/10/2014, 12º programa, segundo turno). 

Em uma busca de arquivo, são notórias desconexões entre o que a candidata Dilma Rousseff insinuava e propunha em alguns temas da economia durante a campanha eleitoral e as movimentações que começaram a ser tomadas desde a escolha do neoliberal Levy. Para que se evidencie tal constatação, selecionamos três trechos. O primeiro se trata da fala do apresentador da campanha de Dilma durante um de seus programas na TV. O segundo foi feito pela presidente em um debate organizado pela Rede Record, enquanto o último, em uma sabatina concedida ao Estadão, em Brasília.

Discurso de Dilma: na prática, a teoria é outra
Dilma na
Propaganda
“Aécio já disse que está preparado para adotar medidas impopulares e já definiu quem fará isso: Armínio Fraga, que ele quer como seu ministro da Fazenda. Armínio presidiu o Banco Central no governo Fernando Henrique, numa época de juros altíssimos, muita inflação e muito desemprego. Armínio já sabe até por onde começar: esvaziando a importância dos bancos públicos, que hoje financiam desde pequenas empresas até uma série de programas sociais”.
Dilma no
Debate
“O cozinheiro [de Aécio] é o mesmo [dos tempos de FHC]: Armínio Fraga. A receita é a mesma: recessão, recessão, recessão. E o resultado é o mesmo: desemprego, arrocho salarial e altas taxas de juros. A quem serve isso? Ao povo brasileiro é que não é. Vocês sempre gostaram de plantar inflação para colher juros”.
Dilma na
Sabatina 
“O Brasil hoje tem condições robustas para passar por uma nova fase. Primeiro: nós não estamos mais naquele momento em que a gente tinha que ficar segurando, com as duas mãos, o país, porque, se não, nós desempregávamos. Nós desempregávamos, arrochávamos os salários e de nada adiantava. Eu não preciso dar exemplo do passado, eu dou exemplo de hoje: a Europa fez uma política duríssima de austeridade, cortou gasto, cortou salário, cortou emprego e não dá um único passo a frente. […] Eu acho muito preferível o nosso método. Nós encaramos a crise. […] Então, nós fizemos uma expansão do gasto”.

Aécio tem razão em listar a incoerência entre prática e discurso de Dilma, mas sua fala perde credibilidade na medida em que se observa que um correligionário seu usou a mesma estratégia de forma ainda mais nociva, e ele precisa se contentar com o silêncio. Mais credibilidade se esvai com a decisão do PSDB em auditar o resultado das urnas. No entanto, nada é mais irônico do que o fato de que o tucano, mesmo com razão em questionar a atitude da presidente, sabe que, no fundo, se fosse presidente, apresentaria medidas para a política econômica que caminhariam no mesmo sentido.

Temos, portanto, de um lado, um cenário em que a presidente se abstém de explicar sobre a repentina mudança nos rumos da economia e tampouco dá uma sinalização definitiva de que, de fato, acredita e apoia o novo plano que visa à retomada do crescimento e redução da inflação, acompanhados pelo incremento da confiança de investidores, empresários e consumidores e recuperação das contas públicas. Os únicos que chegaram próximo de assumir tal responsabilidade foram os ministros Levy e Nelson Barbosa, da pasta orçamentária.

Na outra ponta, seu opositor, a quem a imagem de tais alterações econômicas se fazia muito mais coerente nos olhos do eleitor, aproveita para atacar todos os efeitos colaterais dos quais já tinha conhecimento, mas ignorava e ocultava durante sua campanha. Aécio investe na política do “vai que cola” para manter um discurso de medo contra estratégicas que ele mesmo defendia enfaticamente meses atrás. Desde então, inicia-se um processo de oposição pela oposição para o tucano, no qual, pela lógica, os mais descontentes estariam mais à esquerda, ao lado de partidos como o de Maringoni.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.

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