O que explica o bom momento do amendoim no Brasil – mesmo com queda na produção

Correlação com cana de açúcar e bons resultados financeiros para o produtor explicam tendência, mas clima é desafio

Renata de Carvalho

Colheita de amendoim. Crédito: Getty Images
Colheita de amendoim. Crédito: Getty Images

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Vendedor de amendoim há 37 anos, Paulo Cesar da Silva Gonçalves ganhou fama e construiu uma casa com a estratégia de se apresentar de terno e gravata em um viaduto de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O que seus clientes não sabem é que o produto, que há seis anos é ofertado em três pacotes por R$ 10, vem registrando altas expressivas no varejo, aumento de exportações e atraindo investimentos para apoiar os produtores.

De acordo com Paulo, o amendoim in natura que ele comprava há três anos por cerca de R$ 8 pode ser encontrado hoje por cerca de R$ 14, uma alta de 75%. “As pessoas compram pela qualidade e porque sabem que o preço é esse: 3 por R$ 10. Mas estou ganhando menos”, diz o vendedor que fatura, em média, R$ 450 por dia com uma jornada que começa às 15h e termina por volta das 19h, de segunda a sexta-feira.

Anúncio de Paulo Cesar da Silva Gonçalves, vendedor de amendoim há 37 anos. Crédito: Divulgação

Consultor de grãos da Agrifatto, Stefan Barradas Podsclan, explica que o amendoim é uma cultura mais marginal no Brasil. Ele amplia seu espaço à medida que aumenta o interesse comercial pelo produto, inclusive do mercado externo, onde é usado para a produção de óleos culinários e pastas, e principalmente a área ocupada pela cana de açúcar. Isso porque a gramínea é usada para a correção de solo em áreas de canavial.

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“Quando a produtividade começa a cair, os produtores de cana plantam amendoim. Por isso que as principais áreas de produção estão em São Paulo”, explica.

Plantação de amendoim. Crédito: Getty Images

Como o plantio acontece na primavera/verão, a produção acaba oscilando conforme o regime de chuvas no verão. Esse ano, por exemplo, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o amendoim foi fortemente impactado pelos baixos índices pluviométricos na principal região produtora, o que resultou em grãos menores e em uma produtividade quase 30% menor, com queda de 17% na produção apesar de a área plantada ter aumentado 17%. 

Nos três anos em que Paulo viu o preço do quilo aumentar 75%, a área plantada cresceu 54%, mas a produção só aumentou 24% porque a produtividade caiu 20%.

Apesar das dificuldades climáticas que afetam a produtividade, a tendência, na avaliação do consultor da Agrifatto é que o interesse pela cultura de amendoim permaneça alto.  

“Como tem uma precificação diferenciada, o amendoim tem cooperativas especializadas e dá um resultado financeiro melhor para o produtor, o que acaba atraindo outros setores para investimentos”, completa, citando a captação de R$ 100 milhões em CRAs da Coplana, uma das principais cooperativas de produtores da gramínea.

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Colheita de amendoim. Crédito: Getty Images

Ele corrobora a avaliação do governo de São Paulo. No principal estado produtor e exportador no país, o amendoim ocupou, em 2023, a décima posição entre os 50 produtos do Valor da Produção Agropecuária Paulista. Com isso, conquistou espaço importante na dinâmica socioeconômica estadual tanto pela produção in natura quanto pelo beneficiamento para produção de óleos e do produto já torrado que hoje Paulo prefere comprar apesar do preço mais alto (R$ 24 o quilo).

“Antes, eu comprava o amendoim para descascar, torrar e temperar. Agora, eu só tempero e faço os pacotinhos”, completa o vendedor, feliz com a rentabilidade do produto, apesar das dificuldades.

Dados para gráfico

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 Área plantadaProdutividadeProdução
Variação no ano (safra 23/24 contra 22/23)16%-29%-17%
Variação em 3 anos54%-20%-24%

Fonte: Conab