Com namorada ‘fã de Trump’, Sergey Brin, do Google, dá guinada à direita

Depois de anos apoiando causas liberais, Sergey Brin lidera investida de bilionários do Vale do Silício contra novo imposto, doa milhões a republicanos e ganha destaque no círculo de Trump

Theodore Schleifer Kate Conger The New York Times

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Era uma festa de fim de ano na mansão de um titã das criptomoedas no condado de Marin, e Sergey Brin tinha uma bronca para tirar com o governador da Califórnia, Gavin Newsom.

Brin, cofundador do Google e um dos homens mais ricos do mundo, é amigo de longa data de Newsom. Os dois chegaram a comparecer aos casamentos um do outro. Mas agora Brin puxava Newsom para um canto mais reservado da propriedade para uma conversa séria.

Brin disse a Newsom que não apoiava o projeto de imposto sobre bilionários do estado. Logo eles foram acompanhados pela namorada de Brin, Gerelyn Gilbert-Soto, uma influenciadora de saúde intestinal fã de Trump. Mesmo tentando aliviar o clima — brincando que deixaria passar as más políticas de Newsom porque ele era bonito — ela argumentou que a medida destruiria a economia da Califórnia.

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Newsom, que nunca parecera inclinado a apoiar o imposto, se manifestou no mês seguinte prometendo derrotá-lo. Ele se recusou a comentar sobre o episódio.

O confronto em dezembro, que aconteceu em uma festa organizada pelo bilionário Chris Larsen e foi relatado por três pessoas que foram informadas sobre o assunto, refletiu a nova postura de combate de Brin. Ele está se mostrando mais agitado politicamente, mais disposto a usar sua fortuna estimada em US$ 273 bilhões em eleições e, ao que tudo indica, mais receptivo a pontos de vista republicanos.

Brin, 52, por muito tempo demonstrou pouco interesse em política. Quando se envolveu, abraçou causas liberais: doou para uma campanha em defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia em 2008 e apoiou a candidatura à reeleição do presidente Barack Obama em 2012. Ele classificou a eleição de Donald Trump em 2016 como “profundamente ofensiva” em comentários vazados a funcionários do Google e depois participou de um protesto contra a proibição de entrada de imigrantes de vários países predominantemente muçulmanos. Em 2021, criou discretamente uma organização sem fins lucrativos que já gastou pelo menos US$ 88 milhões em políticas ligadas ao clima e ao meio ambiente.

Agora, porém, como tantos outros líderes no tradicional bastião liberal do Vale do Silício, Brin se deslocou para a direita.

Com sua namorada abertamente conservadora ao lado, ele se juntou ao grupo de executivos de tecnologia que cortejam Trump em seu segundo mandato. Em maio de 2025, participou de uma arrecadação de fundos com a presença do vice-presidente JD Vance e doou quase US$ 500 mil ao Comitê Nacional Republicano. Em setembro, disse ao presidente, durante um jantar na Casa Branca, que estava “muito grato” pelo apoio do governo às empresas de tecnologia. Em março deste ano, foi nomeado para um conselho de tecnologia da Casa Branca e fez uma doação a um candidato republicano ao governo da Califórnia que desde então recebeu o endosso de Trump.

Brin está particularmente alarmado com a proposta de um imposto único de 5% sobre os bilionários da Califórnia e emergiu como o principal combatente do Vale do Silício contra a medida de votação. Para escapar do imposto, ele se mudou, antes do prazo de 31 de dezembro, para o lado de Nevada do Lago Tahoe (hoje passa uma semana no escritório do Google na Califórnia e outra em Nevada, segundo uma pessoa familiarizada com o arranjo). E já gastou US$ 57 milhões tentando enfraquecer a medida, incluindo US$ 9 milhões adicionais divulgados na sexta-feira.

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Questionado sobre o conteúdo deste artigo, Brin declarou, em um raro comunicado: “Fugi do socialismo com minha família em 1979 e sei a sociedade devastadora e opressiva que ele criou na União Soviética. Não quero que a Califórnia acabe no mesmo lugar.”

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O New York Times conversou com mais de uma dúzia de pessoas próximas a Brin para esta reportagem, muitas das quais falaram sob condição de anonimato para descrever conversas privadas.

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Os gastos de Brin, somados a doações menores na disputa para governador da Califórnia, fizeram dele o segundo maior doador individual do estado neste ciclo eleitoral — atrás apenas do bilionário Tom Steyer, que está concorrendo ao governo.

“Ele não é um diletante”, disse Marty Wilson, chefe político de longa data da Câmara de Comércio da Califórnia, que conversou com assessores de Brin. “Ele é muito sério e isso não é só um passatempo para ele. Ele vai jogar para valer.”

Gerelyn Gilbert-Soto, namorada de Sergey Brin, com o presidente americano Donald Trump (Foto: Reprodução / x.com/Omggerelyn)

Uma namorada grande fã de Trump

O engajamento político de Brin coincidiu, em linhas gerais, com seu relacionamento com Gilbert-Soto, que começou em 2023. Brin passou a namorá-la depois de se divorciar de Nicole Shanahan, que em 2024 foi candidata a vice-presidente na chapa de Robert F. Kennedy Jr.

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Gilbert-Soto, 32, que se apresenta como GG, se descreve no Instagram como “holistic health coach” (coach de saúde holística) e “clean meat enthusiast” (entusiasta de carne limpa). Assim como Brin, ela frequenta regularmente o festival Burning Man e apareceu em uma temporada do reality show “Vanderpump Rules”.

Mas ela também se posiciona como uma provocadora no universo pró-Trump, e até alguns assessores do próprio presidente se impressionam com sua lealdade. Ela já chamou Trump de seu “bestie” (“melhor amigo”), tem uma clutch cravejada com a inscrição “MAGA” e exibiu uma foto de Brin com um boné vermelho MAGA, segundo duas pessoas que viram a imagem.

Depois que o comediante Seth Rogen fez piadas anti-Trump em um evento no ano passado, Gilbert-Soto ficou furiosa e reclamou com outros convidados, contou um dos presentes. Ela recusou um pedido de entrevista.

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A capacidade de Gilbert-Soto de se inserir em ambientes com pessoas poderosas, e sua influência sobre Brin, diverte alguns de seus pares no Vale do Silício e dentro do Google (ele continua no conselho da Alphabet, empresa controladora do Google).

Em dezembro, ela acompanhou Brin à Flórida para conhecer o podcaster conservador Ben Shapiro em seu estúdio. Ela viajou várias vezes com Brin para ver Trump em Mar-a-Lago ou na Casa Branca — e detalhou prolixamente as visitas nas redes sociais.

Durante a transição presidencial, Gilbert-Soto participou de um jantar íntimo, com quatro pessoas, em Mar-a-Lago, com Trump, Brin e Sundar Pichai, CEO do Google. “Noite incrível”, escreveu depois no Instagram.

Gerelyn Gilbert-Soto com seu namorado, Sergey Brin, em foto durante o evento de inauguração do segundo mandato de Trump, com o senador americano Ted Cruz e sua esposa, Heidi Cruz (Foto: Reprodução / Redes sociais / x.com/Omggerelyn)

Depois de ir à posse de Trump, na qual ela e Brin tiveram assentos privilegiados, escreveu em um story no Instagram: “Muita gratidão pelo meu amor, porque sem ele eu não conheceria o presidente nem teria ido à posse.”

Em outro story, criticou o YouTube — que pertence ao Google — pela suspensão da conta de Trump após o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio. “Esse tipo de censura foi uma abominação”, escreveu.

Ela foi uma das apenas quatro parceiras de líderes de tecnologia que participaram de um badalado jantar sobre inteligência artificial em setembro na Casa Branca. Gilbert-Soto sentou ao lado de Tim Cook, CEO da Apple, e em frente a Trump, que a elogiou como a “namorada MAGA realmente maravilhosa” de Brin.

Combatendo um imposto sobre bilionários

A desilusão de Brin com seu estado natal de longa data e a pressão para fazer os bilionários pagarem mais impostos o tiraram de sua letargia política. Brin, que é judeu, também tem se incomodado com o que enxerga como a guinada à esquerda do Partido Democrata, particularmente em relação a Israel.

A Califórnia já foi “muito libertadora em termos de pensamento”, disse Brin, ex-doutorando de Stanford, em uma entrevista no campus em dezembro, mas acrescentou que o estado está “se afastando” de suas raízes ideológicas.

No fim do ano passado, ele começou a organizar bilionários da Califórnia que reclamavam em grupos de conversa no Signal e no WhatsApp sobre o possível imposto sobre suas fortunas. Telefonou para alguns deles para angariar apoio, pediu a assessores de seu family office que elaborassem planos para derrotar o imposto e criou duas organizações sem fins lucrativos para impulsionar sua agenda.

Ele bombardeou operadores políticos da Califórnia com perguntas de bastidores sobre o peculiar processo de coleta de assinaturas do estado para colocar uma proposta na cédula eleitoral. Jantou com candidatos e participou de reuniões de campanha.

Crucialmente, sustentou o discurso com dinheiro, injetando US$ 57 milhões nos últimos quatro meses em uma das organizações sem fins lucrativos, a Building a Better California.

O grupo insiste que não está focado no imposto sobre grandes fortunas. Mas, em comunicações a doadores vistas pelo Times, foi explícito ao dizer que oferece “proteção de curto e longo prazo contra gastos governamentais desnecessários e quaisquer novos impostos sobre propriedade pessoal e ativos pessoais”.

Apoio a um republicano para governador

Brin também tentou influenciar a escolha do sucessor de Newsom, um democrata que não pode concorrer novamente por causa do limite de mandatos.

Em março, Brin doou US$ 1 milhão a um grupo de apoio a Matt Mahan, prefeito de San Jose, um democrata moderado que concorre ao governo com apoio do setor de tecnologia.

Poucos dias depois de a doação se tornar pública, Mahan — então desesperado por recursos — reorganizou a agenda às pressas e voou para a região do Lago Tahoe para um jantar com Brin e Gilbert-Soto, segundo três pessoas a par do encontro. Mahan e o presidente de sua campanha, Joe Green, pegaram carona no jato particular de um amigo de Brin, o executivo de tecnologia Ritankar Das, que também participou do jantar.

Na casa de Brin com vista para o Lago Tahoe, Mahan tentou impressionar o bilionário. Seu círculo mais próximo esperava que outras doações surgissem. Mas Brin não continuou contribuindo.

No fim de março, Mahan participou de um comício “No Kings” — e Gilbert-Soto ficou irritada. Ela se tornou profundamente crítica a Mahan. “Ele é woke e péssimo”, escreveu neste mês na rede social X. “Personalidade de colher de pau. Entediante.”

Gilbert-Soto vem promovendo um outro candidato a governador: Steve Hilton, ex-apresentador da Fox News e republicano apoiado por Trump. Brin doou cerca de US$ 40 mil em apoio a Hilton, a quem conhece há muito tempo porque a esposa do candidato foi executiva do Google.

Hilton afirmou que Brin fez a doação após o bilionário procurá-lo para uma ligação telefônica.

“Expliquei meus planos sobre como acho que precisamos seguir em uma direção diferente na Califórnia”, disse Hilton. “E ele pareceu concordar com boa parte disso — não necessariamente com tudo —, mas o suficiente para apoiar financeiramente minha campanha, o que eu agradeci enormemente.”

Os dois agora trocam mensagens de texto ocasionalmente, disse Hilton, e ele e a esposa jantaram este mês na casa de Brin e Gilbert-Soto na Califórnia.

Uma operação política liderada por bilionários

Brin e seus assessores estão tendo um curso intensivo de política enquanto tentam barrar o imposto sobre bilionários.

O chefe do family office de Brin, George Pavlov, corre para aprender as regras de financiamento de campanha enquanto coordena os esforços do bilionário, respondendo a pedidos de candidatos na Califórnia e buscando doações para o grupo de Brin contrário ao imposto.

Outro conselheiro é o famoso investidor e veterano do conselho da Alphabet John Doerr. Segundo três pessoas informadas sobre as conversas, Doerr tem desempenhado um papel importante nos bastidores da Building a Better California, pedindo contribuições a outros bilionários, e ele próprio já doou US$ 10 milhões ao grupo.

A organização rapidamente contratou Ned Wigglesworth, consultor experiente em plebiscitos na Califórnia. Ele elaborou uma estratégia baseada na promoção de outras três medidas concorrentes na cédula, em parte para desafiar o imposto no mérito e em parte para encarecer o processo de qualificação do imposto para a votação.

As doações de Brin têm sido canalizadas por meio de duas entidades de “dinheiro escuro” que ele criou, incluindo a Compass4, fundada em fevereiro em Nevada para focar em questões de custo de vida e defesa eleitoral.

Em grupos de mensagens e ligações particulares, Brin tem recrutado pares para aderir à Building a Better California. Bilionários do Vale do Silício se inflamaram em torno da proposta de imposto nos últimos meses, lançando ideias em chats como comprar empresas de coleta de assinaturas, criar contas escrow e financiar marketing com influenciadores — para desgosto da classe de operadores políticos do estado.

No total, foram arrecadados US$ 93 milhões junto a bilionários como o ex-membro do conselho do Google Michael Moritz, o ex-CEO do Google Eric Schmidt e Chris Larsen. Operadores buscaram atrair nomes de peso para dar credibilidade imediata ao grupo, e alguns desses bilionários contribuíram justamente para se alinhar a Brin.

c.2026 The New York Times Company